19 de jan de 2009

Sobre oásis e abismos

Cheguei a Goiânia há pouco mais de um ano. Vim do interior. Apesar de ter nascido aqui, cresci lá no extremo Sudoeste do Estado de Goiás. Na fronteira com Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Mudei-me pra lá ainda na infância e só retornei agora. Quando cheguei por aquelas bandas, a cidade era bem pequena. Típica cidade do interior, mesmo. Lembro-me de quase toda infância passada naquele lugar, tão caro pra mim. Dentre as coisas daquele tempo, e que continuou por alguns anos, era o fato de ouvirmos e dizermos, sempre que alguém era pego falando sozinho, que era doido. Na verdade a afirmação vinha em forma de pergunta zombeteira assim: "... ê, tá doido, falando sozinho?...". Sempre que alguém era pego assim era "zoado", mas isso não acontecia com freqüência não. Na verdade era difícil ver alguém assim, falando com ninguém. Com exceção das poucas pessoas portadoras de algum transtorno psíquico e/ou emocional (e no interior, toda cidadezinha tem seus doidos conhecidos, e geralmente queridos), quase ninguém era pego falando sozinho. Afinal, por que falar sozinho com tanta gente conhecida por perto e disponível pra conversar?


Essa chacota em forma de pergunta estava há muito tempo esquecida em minha memória, mas um "diálogo" que presenciei ontem me fez relembrá-la.


Lá estava eu, voltando do trabalho pra casa, no final da tarde (eram quase 19 horas e o sol estava alto. Esse horário de verão...).


Caminhava devagar e tranqüilamente, como sempre faço nessa hora, quando ouvi uma conversa atrás de mim. As pessoas estavam discutindo sobre um problema enfrentado por elas, era algo não muito sério, pelo que percebi no início, mas que ocupava a atenção dos interlocutores. Eles não falavam alto, mas a conversa chegava aos meus ouvidos. Percebi que eles estavam se aproximando de mim. Continuei minha caminhada lenta. Não tentava ouvir o que diziam, mas não dava pra evitar. Quanto mais eles se aproximavam, mais eu me inteirava sobre o que falavam. A poucos metros da esquina com a Rua 24 eles me ultrapassam, e aí veio minha surpresa. Toda conversa envolvente, com defesa de opinião e mais de um ponto de vista, não era travada por duas pessoas, mas por uma só. O moço, com visivelmente uns 60 e poucos anos, conversava necessitadamente com ele próprio, e isso me trouxe à mente aquela brincadeira da infância.


A princípio eu sorri, como nos tempos em que morava lá na baixadinha, e era um guri queimado pelo sol tomado todos os dias, o dia todo, por passar o dia "na rua" brincando e conversando muito com os amiguinhos. Mas me lembrei na seqüência, e sem esforço, de duas coisas que me chamaram a atenção quando cheguei aqui pra morar. Primeiro, as pessoas não gostam de andar. Se alguém precisa ir até a Avenida Goiás e está na Praça do Botafogo certamente vai pegar o eixão. Ir do Universitário ao Zoológico à pé então, nem pensar. A segunda coisa, as pessoas falam muito sozinhas. É muito comum cruzar com pessoas falando sozinhas pelas ruas.


Em alguns casos pode-se perceber que se trata de tentativa de encontrar algumas respostas. Mas na maioria é solidão mesmo. Falta de ter com quem falar.


Nesse pouco tempo morando aqui percebi que as pessoas têm medo de falar com as outras. Não se pode dizer bom dia ao cruzar com alguém na rua, porque se você não conhece, pode ser mal interpretado, ou coisa parecida. É possível ir, e todos vão, todos os dias, de casa pro trabalho, e do trabalho pra casa sem falar com ninguém. Anda-se tendo que se desviar de uma multidão, às vezes esbarrando em um monte de gente, mas o abismo que nos separa de todas elas é cada vez maior. E Goiânia ainda não é como São Paulo, Nova Iorque ou Brasília. Mesmo nos meios de convivência (e isso não existe mais, da forma que já existiu antes), as pessoas não se falam. No trabalho quase tudo é resolvido via e-mail, MSN, skype ou similar. Até com o colega da mesa ao lado, se fala mais assim, dessa forma distante e fria.


Posso até concordar que nos tempos de hoje temos que dar atenção especial à segurança. A tecnologia deve ser usada para facilitar nossa vida. Mas isso não deve, e não pode, significar isolamento completo. Se não falo com ninguém me torno amargo, angustiado, triste, agressivo violento ou letárgico. A falsa impressão de comunicabilidade que a internet nos apresenta pode ser a ruína de nossa humanidade. Ao falar com alguém que está longe, ou do lado, por meio de um tela, posso até dar respostas lógicas, mas é impossível sentir a reação. A doçura, ou mesmo, a aspereza das palavras não podem ser traduzidas em letras ou sinais.


Quando digo à minha namorada que a amo, pelo monitor, ela não pode ver meus olhos brilhando, nem meus pêlos se arrepiando. Nada substitui o toque, pra chamar a atenção. O poder de um abraço, só um abraço tem.


De volta ao meu interior querido, lá onde nasce o Araguaia, era comum ir e voltar do trabalho, do outro lado da cidade, a pé. E era impossível fazer o trajeto sem que a caminhada fosse interrompida várias vezes, pra cumprimentar alguém. Às vezes era preciso um grande esforço, e policiamento, pra chegar ao destino na hora marcada, tamanha a quantidade de pequenas paradas. E isso ainda hoje é assim, para a maioria das pessoas de lá. A cidade cresceu um pouco, é verdade. O celular e a internet estão lá também, mas alguns hábitos interioranos continuam vivos nos antigos moradores e em seus bons descendentes. Experimenta caminhar um pouco com a Lucely pra ver. Se ela não definir que vai embora mesmo, não chega ao Cedro, lugar tranqüilo onde mora. E a Dona Pequena, então! É inimaginável a possibilidade de ela ir da sua casa até o mercadinho mais próximo sem falar com ninguém na rua. Se ela for até a casa de sua filha "Preta" então, que fica bem longe, aí sim. Se tiver pressa, melhor nem ir. Mesmo em sua caminhada matinal feita, com caráter terapêutico, diariamente por volta de 5 da manhã (às vezes erra a hora, saí por volta de 4 horas ou até antes, quando percebe o erro já vai longe, acompanhada pelo Zezinho) ela consegue fazer o percurso sem falar com ninguém. Pode até não parar, mas vai cumprimentando todos que encontra pelo caminho.


Acho que por isso mesmo Dona Pequena tem aquela vitalidade invejável. Não vou arriscar um palpite, pois, certamente a sua lucidez, sanidade e alegria sempre me enganaram, me fazendo crer ser ela bem mais jovem que os anos que realmente deve ter. Mesmo assim fica o dia todo na lida, cuidando de seu belo quintal, cheio de plantas e com alguns bichos. Ah! E conversando muito, com pessoas que não ela mesma. E por ser tão agradável de ter por perto, tem sempre muitas pessoas querendo estar com ela. Por gostar de conversar, tem sempre pessoas com quem falar. É isso mesmo, me parece um processo auto-alimentado, para se ter com quem falar, deve-se se dispor a falar com alguém. Se eu me disponho a falar com alguém, vou ter sempre com quem falar. E a negativa é verdadeira.


Por certo a pessoa que passou por mim, ontem a tarde, entrou no processo inverso ao escolhido por Dona Pequena. E agora, mesmo precisando, e querendo conversar, não encontra interlocutor. O grande problema é que olhando ao meu redor, no mundo que vivo agora, percebo que todos, ou quase todos, estão no mesmo barco. Por sinal, uma nau repleta de tripulantes, onde ninguém se alcança. É um paradoxo infeliz, quanto mais gente temos ao redor, mais nos sentimos sozinhos.


Quisera ser possível contagiar a todos com a simpática atração da Dona Pequena, ou com o humor infantil que vive lá, no interior, onde falávamos com todo mundo. E quando não tínhamos o que dizer, falávamos também, só pelo prazer de conversar.


Acho que é possível salvar o mundo da grande solidão coletiva que em outros lugares já é bem mais acentuado. Mas é preciso que todos redescubram o prazer de uma boa prosa. E o valor de um gostoso abraço.


Quem sabe da próxima vez que alguém passar por mim falando sozinho, eu faça como fazia quando criança, lá no interior, e pergunte, zoando "êee, tá doido?" e, quem sabe assim, eu inicie uma boa conversa. Só espero não ter que ir parar no açougue, pra colocar um bife em algum olho roxo.


 


PS.: Dona Pequena mora em um bairro chique, cheio de mansões, mas sua casa é muito simples e, como ela, bem pequena. Mas, certamente é o local mais aconchegante do lugar. É meio como um oásis. Por isso, e pela própria Dona Pequena, espero que um dia o lugar onde vive, seja transformado em um museu em sua memória. Com tudo aquilo preservado. A casa, o quintal, a casa velha (ainda menor que a atualmente habitada), o pé de acerola, os jabutis, tudo enfim. E que seja declarado não só um lugar pra preservar sua memória, mas, principalmente, um cantinho dedicado às boas conversas e todos os benefícios que elas trazem pra todos nós. E que, a qualquer tempo, indo lá pro interior, possamos encontrar um pouco mais de sossego e ter sempre alguém a fim de trocar um "dedim de prosa".

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