30 de nov de 2011

Da série, cartas à Amigalidi

Metamorfoses necessárias


Ei amiga, olhe ao redor.
Veja que não findaram nossos sonhos.
Ao menos, não todos.
Alguns se transformaram, é verdade.
Mas continuam aqui conosco.
E nós continuamos aqui também.
Por onde quer que vamos, estaremos seguindo.
Sejam quais forem os caminhos, serão os nossos.
E, se São nossos, apenas nós os poderemos trilhar.
E o faremos.
Felizes ou não, com flores ou espinhos, acompanhados ou sozinhos...
Consequência das escolhas que fizemos, e ainda faremos.
Mas é preciso crer.
Necessário saber que a cada dia somos um novo ser.
Mas que essa nova pessoa é “apenas” a soma de todos que já fomos antes, somado ao que estamos fazendo agora, nesse exato momento.
Ninguém se faz do nada.
E nossa história nos acompanhará por toda existência.
Sendo mais que mera biografia morta.
Mas, como versos do poema, em eterna construção, que somos cada um de nós.
Então, querida,
Neste momento, e em todos os seus instantes,
Escolha ser feliz.
Independente das circunstâncias.
Afinal cada um conduz a pena do destino com as próprias mãos.
Faça florido seu caminho.
Tenha alguns espinhos, e fira-se às vezes, para se lembrar humana.
Mas prefira as flores, com seus perfumes, cores e texturas.
Seja crisálida de tempos em tempos, para se tornar, a cada nova etapa, a mais linda borboleta desse maravilhoso jardim, que é a vida.

28 de nov de 2011

Sacrifício

Olhou-a uma vez mais.
Sentiu, mais uma vez seu perfume, vindo com o vento.
Ela chorava baixinho de tristeza e dor, e isso o entristecia.
Olhou para seus grandes olhos negros, agora vermelhos e inundados de lágrima.
Estava triste.
Em um último afago, acariciou seu rosto.
Ela sabia o que estava para acontecer.
Movimentou o rosto para prolongar aquele toque.
Ela beijou-lhe a mão, com saliva e língua.
Ele não conteve o sentimento.
Também chorou. E o fez como uma criança.
Afastou-se um pouco.
Ela quis segui-lo. Ele disse que não viesse.
Alguns passos, ele virou-se.
Ela ergueu os olhos, e acenou, como quem se despede.
Cada gesto dela, aumentava sua tristeza e fazia mais forte seu choro.
Ele tentou secar as lágrimas.
Fixou o olhar.
Levantou a mão direita, apontando-lhe o velho revolver 22.
Ela não reagiu.
Apenas murchou as orelhas cansadas, e deu uma última agitada na cauda (Por certo tentando demonstrar uma felicidade que, ele sabia que ela não sentia. Apenas para amenizar sua culpa).
Com esforço ele disparou.
Um tiro certeiro, no olho direito.
Ela não latiu, nem uivou.
Apenas caiu.
Ele não pode evitar.
A doença ficou grave demais.
Eles fizeram tudo que puderam mas, no estágio que chegara, tentar mantê-la viva, só garantiria muito sofrimento.
Foram os próprios veterinários que recomendaram o sacrifício.
Ele, chorando como não se lembrava de já ter feito, enterrou sua velha amiga.
Enquanto colocava a pequena placa sobre a cova, ele ia pensando em como explicar aos seus dois filhos que a Tina não voltaria mais pra casa.
A cadela já estava lá quando o primeiro filho nasceu, há oito anos, sempre esteve com eles, em vários momentos estando mais presente que os pais, na vida das crianças.
Após tudo acabado, ele olhou para o horizonte.
O Céu começava a se colorir de violeta, ao entardecer.
Uma brisa soprava leve.
Ele fez uma prece (buscando conforto para sua própria alma).
Respirou fundo, ajeitou os óculos nos rosto e,
Foi embora cantarolando uma velha canção sobre amizade...

8 de nov de 2011

Opção

Nem por decreto ou opressão,
Nada prende meu espírito.
Sempre livre na poesia,
Navegando na canção.

Ser assim é um principio,
Livre por natureza,
E insubordinação.
Como guia a consciência,
Como barco, a intuição.

Descompassados

Parecia música sertaneja.
Rimas fáceis,
Frases simples,
Ritmo dançante.
Parecia sertanejo.
Mas veja você,
Como em uma música do Oswaldo,
Era a vida.
Era real.
A dele e a dela.
Quase foi a deles,
Mas desafinaram,
Atravessaram a melodia,
Desafinaram.
Encerraram, bruscamente, a canção.

Parecia sertanejo.
Podia ter dado rock,
Balada pop,
Um bom xaxado,
Roda de samba
Ou grande clássico.
Mas que pena, não são músicos.
Foram palhaços.
Por isso hoje, como pierrot,
Não cantam, choram.