22 de jan de 2009

Da Série "Pequenos contos"

Com sabor de café

Reduziu a velocidade, com cuidado foi encostando próximo à margem do rio. O Sol da tarde, meio escondido na alta vegetação ciliar fazia desenhos na água, e algumas sombras na areia, o que amenizava um pouco o intenso calor, constante na região.
Há muito que ele não passava por ali. A vida o havia levado para longe. Por outros caminhos. Mas Pedro sempre se recordava dos vários momentos vividos naquela cidadezinha. E lembrava com saudades.
Apesar de não estar vivendo tão longe, não encontrava oportunidades para que viesse matar as saudades. Nem oportunidades nem tempo. Coisas dessa vida louca, na qual a maioria de nós está mergulhada hoje em dia, e que nos impede de viver verdadeiramente.
Tinha também um certo medo. Acreditava que ao retornar àquele lugar muitas coisas do passado seriam afloradas, não apenas como lembranças, mas como sensações presentes. E ele não sabia bem como reagiria a tudo isso.
Relembrando vários momentos vividos ali, ele tirou os sapatos, dobrou as calças até os joelhos, e saiu do carro para caminhar um pouco pela areia escura.
Queria respirar aquele ar novamente, e molhar os pés naquelas águas outra vez. Caminhou lentamente, sempre ao alcance das pequenas ondas. Em alguns trechos molhou até quase os joelhos. Estava absorto, sem pressa. Olhava a paisagem toda, mas via mais o que vinha na lembrança de momentos pretéritos.
A brisa morna acariciava seu rosto, e ele quase sentia o doce hálito experimentado em outros tempos. Mais de uma vez pegou-se olhando para o lado, na esperança de encontrar aqueles olhos tímidos, e meio assustados, mas, lindos, fortes e profundos. O velho perfume era sentido como se ela estivesse ali.
Durante sua caminhada Pedro foi lembrando das informações que recebeu de Tânia em todos os momentos que passaram juntos. Sua companhia era sempre uma gostosa aula sobre o lugar, sua história e geografia. Tânia era tão apaixonada por aquela região que até parecia ter nascido lá.
Lembrou-se que, enquanto caminhavam, algumas vezes Tânia tinha os cabelos agitados pelo vento, o que a forçava um gesto constante de retirada dos fios que insistiam em cobrir seu rosto. Fazia isso sempre com a mão esquerda, de uma forma delicadamente bela, ao mesmo tempo em que interrompia um pouco o que estava falando, e sorria de forma marota. Era lindo de se ver. E ao lembrar Pedro sorriu como sempre fazia.
Ao esboçar aquele breve sorriso, Pedro sentiu um nó se formar em sua garganta. Ele engoliu seco e sentiu uma lágrima quente escorrer do seu olho esquerdo e morrer no canto de sua boca. Era salgada, mas lhe pareceu ser a coisa mais amarga que já experimentara.
Caminhou um pouco mais, aproveitou um remanso, se agachou, molhando parte de sua calça, pegou um pouco de água com as mãos e lavou o rosto.
Um pássaro voou mais próximo, ele se distraiu um pouco, sorriu, encheu-se com aquele ar morno e puro, como se alimentasse alguma coisa dentro de si. Fato verdadeiro, pois aquele não era apenas um ar cheio de recordações. Era puro, como não se encontrava onde morava agora. Orgulhava-se de conhecer aquele lugar. Alegrava-se em saber que lugares como esse ainda existia. Orgulhava-se também por se sentir, de certa forma, colaborador para que aquela natureza fosse mantida. Sabia que seu trabalho não havia sido o mais importante, mas reconhecia que contribuiu um pouco, de forma significativa.
Mas agora o que importava era respirar aquele ar puro, e sentir tudo que ele trazia.
Uma balsa passou descendo o rio, levada apenas pela correnteza, ele observou tudo que podia ver. Homens pescando, algumas crianças se movimentando e, até uma garota de biquíni azul, estavam a bordo. Não reconhecia nenhum daqueles rostos. Nem poderia, não conhecia muita gente ali e fazia vários anos que não passava por aquelas bandas.
Agora vivia em outro estado, na capital. Fazia outros trabalhos, se relacionava com outras pessoas. Só não nadava em outros rios. Na verdade não molhava os pés em nenhum rio fazia tanto tempo. Sentia falta disso, e das botas sujas, do antes inseparável boné, do Sol queimando o rosto, de caminhar longos trechos se arranhando no mato, das estradas esburacadas, das cidadezinhas com menos de dez mil habitantes. Tinha saudades de falar com grupos de pessoas dessas cidades, até da falta de comprometimento da maioria, ele tinha saudades. Das broncas que por vezes era obrigado a dar em alguns dos colegas. Mesmo com seu jeito divertido e descontraído às vezes conseguia ser mais firme. Chegava a ser engraçado quando isso acontecia. Com Tânia então, era mais engraçado ainda. Ele percebia o jeito embaraçado que ela ficava, mas também percebia como ela gostava da situação. De vê-lo tendo que ser duro. Ela sabia que ele precisava se esforçar, por isso gostava.
Foi uma época muito boa aquela. Fizera muitas coisas boas. Mas, o que mais o acompanhava nas lembranças era o tempo que passaram juntos.
Pedro gostava de lembrar do sentimento que tinha. Sabia que houve reciprocidade. Apesar de rápido, e de aparentemente superficial, foi muito intenso e verdadeiro. E, ele conseguia sentir o quanto Tânia o amava. E aquele amor, apesar de proibido, era tão gostoso e lhe fazia muito bem.
Com aquele jeito meigo e suave ela tinha uma força incrível. Diversas vezes foi seu porto mais seguro. A cada vez que ia encontrá-la se alegrava mesmo antes de chegar. E quando estava longe, contava os dias para retornar.
Mesmo não a tendo tão plenamente como desejava, ainda naquele momento, caminhando às margens daquele rio largo e manso, ele sabia que a tinha de uma forma tão completa quanto jamais tivera alguém. E, de alguma forma, sabia que ela também havia se entregado tão plenamente como nunca se entregou antes.
E foi tão doloroso ter que se mudar. Quando percebeu que começara a se afastar definitivamente dela, sofreu toda dor que se pode sofrer nas despedidas. Por isso também o medo que ele tinha de retornar ali. Temia não conseguir controlar o fluxo de sentimentos, lembranças e desejos que, sabia, o preencheria. Estava certo, agora se encontrava completamente tomado por ela. As lembranças, cada detalhe do corpo, seu sorriso, seu perfume, o gosto doce da saliva. Tudo, tudo estava em sua mente, como se estivesse com ela agora mesmo.
Por fim, desistiu de se controlar. Sentou na areia, à sombra de um grande ingazeiro, baixou a cabeça e chorou.
Tudo que queria era saber como ela estava. Por onde andava. Como estava vivendo depois de tanto tempo.
Pouco depois que ele se mudou, Tânia também se foi. Acompanhando seu marido que fora transferido. Por muito tempo perderam contato. Ficaram sem se falar por mais de três anos. Mas mesmo a distancia e sem ter notícias, não passou um dia sequer sem pensar nela.
Recentemente ele conseguiu alguma notícia e buscou se reaproximar um pouco. Gostava de saber dela.
Com esforço conseguiu seus contatos. Com internet o mundo ficou muito menor. Voltaram a se falar. E, para sua alegria, soube que ela sentia tanto sua falta quanto ele a dela. Confirmando que aquele amor não se mantivera so nele.
Mas, agora era outro tempo. E aquele pequeno ângulo marcado a vários anos provocara um enorme distanciamento. Haviam seguido caminhos diferentes. Estavam envolvidos em histórias complexas e distantes. Seria mais difícil agora.
Já não era só ela, mas também ele tinha outros laços. Enquanto ficou sem notícias, mesmo com ela em seu coração procurou se entregar a outras pessoas. E havia encontrado alguém com quem se sentia próximo o suficiente. E estava casado.
Apesar de se falarem de vez em quando, procuravam manter a distancia física, por saber que, assim como aquelas lágrimas fortes que caiam agora, também o desejo poderia ser incontrolável, caso se encontrassem.
Ele se arrastou até o carro, abriu a porta, sentou-se, ligou o som e colocou uma canção que eles gostavam de ouvir juntos. Do banco ao lado pegou uma garrafa de café, que comprara a menos de duas horas em um posto onde parou para abastecer e se refrescar. A moça da lanchonete estranhou quando ele pediu a ela para encher aquela garrafa, ainda com etiqueta de preço, com um café fresquinho. Ele queria e, fez questão que a atendente passasse um café do jeito tradicional, “como os feito em nossas casas”. Pagou um pouco mais caro por isso. Pegou a garrafa cheia, comprou duas canecas de louça branca, com figuras pantaneiras, e foi embora. Não andou muito até encontrar aquela margem tranquila onde estava parado agora.
Serviu café nas duas canecas. Colocou uma no capô do carro e, como eles sempre faziam quando estavam juntos, tomou aquele café como se fosse o melhor do planeta. O cheiro marcante do café, misturado ao perfume suave que ela usava, tinha perfumado todos os momentos dos dois. Era o que bebiam juntos, e bebiam sempre.
Para ele, tomar aquele café era como fazer uma reverencia à seus próprios sentimentos, ao que ela representa e a tudo que eles viveram.
Saboreou lentamente as duas canecas, não sem antes pedir permissão para beber a dela também. Fechou a garrafa, guardou cuidadosamente as canecas (iria eternizá-las), e seguiu viagem.
Ao sair sentiu novamente, aquela sensação da despedida. Aumentou o volume do som do carro, para não ter que ouvir sua própria voz, pois, queria cantar à plenos pulmões, acompanhando cada música daquele cd que o acompanhara desde os tempos que ela, às vezes andava ao seu lado.
Ao sair, sabia da possibilidade de não voltar mais ali. Sentiu que aquela poderia ter sido a última vez que seus pés tocaram as águas dos rios que cortam o cerrado rumo ao Pantanal.
No banco do carona uma semente de ingá. Ele plantaria aquela semente e cuidaria dessa árvore com carinho. Faria dela um símbolo do amor que sentia, e que era proibido. Quem sabe um dia Pedro conseguisse fazer uma poesia, ou mesmo uma canção, que fizesse todos saberem sobre a existência de certo ingazeiro, e de tudo que ele representava agora. Assim como fez um poeta sertanejo, que cantou o amor por um “Pé de Cedro” plantado ali mesmo, naquela pequena cidade pantaneira.


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