19 de jan de 2009

Sobre nossas piores virtudes - 04/09/2006 -



Um filho pergunta à mãe:
- Mãe, posso ir ao hospital ver meu amigo? Ele está doente!
- Claro, mas o que ele tem?
O filho, com a cabeça baixa, diz:
-Tumor no cérebro.
A mãe, furiosa, diz:
- E você quer ir lá para quê? Vê-lo morrer?
O filho lhe dá as costas e vai.
Horas depois ele volta vermelho de tanto chorar, dizendo:
- Ai mãe, foi tão horrível, ele morreu na minha frente!
A mãe, com raiva:
- E agora?! Tá feliz?! Valeu a pena ter visto aquela cena?!
Uma última lágrima cai de seus olhos e, acompanhado de um sorriso, ele diz:
- Muito, pois cheguei a tempo de vê-lo sorrir e dizer:
- EU TINHA CERTEZA QUE VOCÊ VINHA! –
Moral da história: A amizade não se resume só em horas boas, alegria e festa.
Amigo é para todas as horas, boas ou ruins, tristes ou alegres.

Caro amig@,

        Ontem recebi um e-mail com o texto acima. Como gostei resolvi enviar para alguns amigos. Coisa que acontece quase todos os dias.
        Afinal, todos os dias recebemos milhares de correios eletrônicos alguns relacionadas ao nosso trabalho, muitas notícias de amigos (várias dos amigos que estão na mesa ao lado), propagandas de produtos que nunca vai querer comprar, um grande número com mensagens de cunho pseudo-emocional, que tenta nos sensibilizar, fazer pensar, arrancar um sorriso de nossa carranca estressada ou simplesmente nos dar o pretexto para dar um tempinho na rotina de trabalho, sem falar das infindáveis e irritantes correntes que prometem nos livrar do sofrimento, da solidão, da calvície, da impotência sexual, da morte,... Enfim, todos aqueles e-mails que, podem até ser bonitos, mas que perde a beleza ao ter inserido, no final, alguma coisa parecida com “mande para todos os seus amigos” ou “envie para n pessoas ou se arrependerá”.
        Bem! Eu tenho o hábito de ler, de fato, a maioria dos e-mails que me chegam e, quando gosto, de verdade, eu envio para alguns dos meus amigos. Às vezes selecionando, às vezes não.
Tenho alguns amigos que curtem piadas, outros que gostam de tudo onde se lê alguma referência à Bíblia, outros que curtem fotos de mulheres nuas. Pessoas são diferentes.
        No entanto, um fato me chamou a atenção e despertou em mim a necessidade de fazer algumas reflexões sobre o que somos hoje. Que fato foi esse?
        Bom, como já disse, eu recebi o texto do início, li, achei “bacana” e encaminhei pra alguns amigos. Horas depois, um dos amigos respondeu-me com a seguinte mensagem:

“Vc tá muito sentimental! Essa historia é igual àquela que o filho liga pros pais e fala que vai voltar pra casa, mas pede pra levar um amigo com doença grave... aí os pais não querem. O filho não volta e depois descobrem que quem tava doente era o próprio filho...”.

        O fato de meu amigo achar que estou muito sentimental não é o problema. Coisa normal, eu sou assim mesmo, fazer o que?
O que me chamou a atenção, e fez soar em mim um alerta, foi o fato desse meu amigo achar as duas “estórias” iguais. Em minha opinião não são. Uma fala de Importância. A outra fala de Tolerância.
        Minha grande questão e angustia, é: "O que aconteceu com a gente, que não temos mais a capacidade de separar partes tão distintas de nossos sentimentos?"
        Eu poderia assumir que é apenas deficiência em interpretação de textos, mas infelizmente isso eu sei que não é, ao menos não apenas. Acredito que essa confusão não ocorra apenas com esse meu amigo. Ela pode ser bem mais comum do que se imagina. E por quê?
        Gostaria de ter respostas diferentes, mas o que me vem à mente, devido às experiências do dia-a-dia, é que nós não temos mais tanta capacidade de entender nossos próprios sentimentos e, por isso, não conseguimos distingui-los uns dos outros.
        Na verdade nós perdemos, há tempos, a tolerância com os que não são iguais a nós. Qualquer diferença é motivo para não querer alguém perto de nós.
Não importa a diferença, quer seja a cor da pele, uma dificuldade física ou mental, grande diferença de idade ou incapacidade provocada por doenças ou mutilações. Por qualquer desses motivos nos afastamos de nossos familiares ou amigos. Colocamos nossos pais e avós em asilos e nossos “deficientes” em sanatórios e ainda fazemos todas as terríveis guerras.
E isso não é nenhuma novidade.
        Mas e quanto à importância, em que momento ela passou a ser confundida com a tolerância?
Acho que ao mesmo tempo em que fomos deixando de valorizar coisas simples como o aconchego daquele abraço gostoso de nossos amigos (independente se o amigo seja homem ou mulher); Ou o prazer de sorrir junto, de qualquer coisa, uma piada, uma brincadeira inocente, uma travessura sadia de criança; Passamos a confundir importância com tolerância, ainda, quando perdemos a capacidade de valorizar e aprender com as experiências dos mais velhos, ou com a inocência dos mais novos.
        Bem, meu amigo, infelizmente me parece que nós já não nos importamos com nossos queridos. Não importa o que acontece com as pessoas. Estamos tão envolvidos com nosso próprio mundinho que esquecemos que esse “mundo próprio” na verdade não existe, e que somos afetados por tudo que acontece ao nosso redor.
        Podemos até não perceber isso agora, e pode ser tarde demais quando nos permitirmos perceber.
Nossos velhos já podem estar apodrecendo em algum leito nojento (que pode até ser limpo e caro, mas que sem carinho de quase nada vale), ou nossos jovens já poderão ter se perdido tentando encontrar quem, de fato, se importem com eles (e assistimos a isso todos os dias...) ou estaremos, nós mesmos, abandonados em algum lugar, onde não atrapalhemos ninguém.
        Deveríamos nos importar com quem está próximo a nós. Ao menos com quem julgamos amar. E isso implicaria nos envolver mais na vida das pessoas, em querer saber o que acontece com elas e em querer participar mais ativamente. Sobretudo ajudando a enfrentar os problemas, mas não apenas.
        Implicaria compartilhar os bons momentos de alegria, de felicidade e de conforto, bem como os momentos de dor, de tristeza e de necessidades.
        Importar significa compartilhar, dividir, fazer parte, estar junto.
        Acredito que se recuperarmos a capacidade de “nos importar” poderemos ter, de volta, a “tolerância” há muito perdida.

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