16 de ago de 2011

Sobre mortes e distúrbios

O mundo lá fora está pegando fogo. É economia maluca, filhos de Odin matando em nome do Deus cristão, o Mano que não ganha uma e o PMDB minando completamente o Governo Dilma. Enquanto isso eu aqui, aproveitando este espaço, e seu tempo precioso para compartilhar esse meu humor meio negro e muito sem graça. Mas já que me permitem...
Me lembro como se tivera sido ontem.
Era sábado, já quase no final da tarde eu precisei ir à casa de um amigo, o Birrinha. Por estar no caminho, e para aproveitar melhor minha saída de casa, passei na casa da minha namorada da época. Eu e ela morávamos bem na “baixadinha”, e o Birrinha no limite desta com o Setor Oeste, lá em Mineiros, extremo sudoeste de Goiás.
Bem, não me lembro o que iria fazer com o Birrinha, nem o que fiz com a Kátia (além de alguns prováveis beijos). Também não me lembro o que fiz na noite daquele 04 de novembro de 1995. Mas nunca consegui esquecer o estranho sentimento que me acometeu ao receber a notícia da morte de Yitzhak Rabin. Estranho pela forma como me abateu, e mais estranho ainda pela intensidade do sentimento.
Ainda estava na casa da namorada, quando a TV noticiou o assassinato do Primeiro-Ministro de Israel. Não sei hora exata em que aconteceu o atentado. Mas eu fiquei sabendo perto das 19 horas, no fuso horário lá da “baixadinha”. Foi instantâneo. Minha companheira notou fácil minha mudança de humor. Chegou a dizer alguma coisa, tentando me manter animado. Ela, certamente, não entendia como a notícia da morte de uma pessoa tão distante de nossa realidade estava me afetando tanto, e de forma tão fulminante. Confesso que eu mesmo não entendia (acho que ainda não entendo bem), mas o fato é que aquela morte me abalou muito.
Não deixei de ir à casa do Birrinha, mas preciso confessar, no caminho não consegui conter as lágrimas. Sim, caro leitor, eu chorei quando Yitzhak Rabin morreu. Não exatamente por ele, eu acredito, mas pelo símbolo em que havia se tornado. Símbolo que estava se fortalecendo. E chorei ainda mais por sentir (veja que eu disse sentir, coisa de percepção sensorial, e não de constatação racional), que a paz no mundo acabava de perder um grande aliado. Não estou falando apenas pelo Nobel da Paz, mas pelo enorme esforço que aquele homem empreendia para pacificar a região onde nasceu e vivia.
“Fudeu”, foi o que eu disse para minha jovem namorada, logo após ouvir a notícia e conseguir articular alguma coisa, “o mundo agora é um lugar mais perigoso de se viver...”.
A vida seguiu. Aquele meu namoro acabou logo depois. O Birrinha virou advogado, agora é o Dr. Antenaldo Carrijo e, no Oriente Médio os constantes conflitos, negociações pela paz e atentados prosseguem ocorrendo (ainda acredito que com Yitzhak Rabin a situação hoje seria diferente, para melhor). Eu saí da Baixadinha apesar dela não sair de mim. Me mudei até de cidade.
Tantas coisas aconteceram no mundo desde então. Tantas outras pessoas conhecidas e reconhecidas morreram. Muita gente também nasceu. Mas nenhuma outra morte me afetou tanto quanto aquela. Digo mortes de personalidades, seja da política, artes/cultura, esportes ou gente famosa por coisa nenhuma.
Senti a partida dos garotos do “Mamonas Assassinas”, do Renato Russo, do Mário Lago. Quando os fios das Moiras foram cortados para Mercedes Sosa, calando “A voz da América”, eu também senti. Saramago também deixou uma lacuna importante.
De fato, é comum que a morte de algumas personalidades nos cause algum tipo de sentimento. Em alguns casos um grupo maior de pessoas se abala, e ocorre o que chamamos de “comoção social”. Acho que podemos incluir nessa categoria de eventos sociais, o sentimento que tomou conta dos brasileiros, em abril de 1985, quando boa parte da população chorava, ao som de “Coração de estudante”, a morte do primeiro presidente eleito após a abertura política. Também foi assim quando, no dia do trabalho de 1994, o Silva mais ilustre que o Brasil conheceu nas últimas décadas, parou, para sempre, na curva Tamburello. Ouvi dizer que aconteceu algo parecido lá nas terras do Tio Sam, quando John Fitzgerald foi assassinado em 22 de novembro de 1963, supostamente por um tal Lee Oswald (como curto teorias da conspiração, sou dos que acreditam que o pobre Harvey foi só mais um bode expiatório, mas isso não é relevante aqui). A Inglaterra chorou a morte acidental de sua princesa, com status de quase rainha. Outro exemplo de “comoção social” foi o que aconteceu em todo mundo quando, recentemente, a morte veio buscar aquele garoto black or white (confesso que me somei ao grupo dos que sentiram muito essa perda).
Enfim, sempre que alguém, que é admirado por muitos, realiza seu inevitável encontro com Thánatos, pessoas se comovem, fazem vigílias em suas casas, se acocham nos funerais, choram em coro pelas ruas, cantam em memória do de cujus, vendem lembrancinhas, lançam coletâneas, reexibem filmes, citam suas palavras e analisam suas vidas. Os fãs ainda lotam ruas, o twitter, avenidas, facebook, estádios, orkut, myspace e nossas caixas de mensagem. Alguns mais desprovidos e personalidade própria e mais ligados emocionalmente aos seus ídolos, ou exagerados querendo um pouco notoriedade fugaz, chegam a declarar que não sabem como suas vidas seguirão doravante.
Seja de forma mais contida, ou de forma barulhenta, é comum que isso aconteça. Sempre aconteceu e, ao que parece, vai acontecer por muito tempo ainda. De Cleópatra e Heitor de Tróia aos nossos dias, isso sempre aconteceu (não foi caso daquele jovem galileu da Nazaré, crucificado pelos romanos há dois mil anos, por quem apenas os familiares e cerca de uma dúzia de amigos se comoveu).
E, já que é costumeiro, eu acho normal. Normal e, em alguns casos, até bastante saudável do ponto de vista da saúde social. Quando em manifestação pacífica e ordeira, chora a morte de um importante líder, que servirá de exemplo para as presentes e futuras gerações.
Uma coisa, porém, está me deixando de cabelo em pé nos últimos dias. Ta bom, Londres continua longe pra caramba da Praça Universitária. Mesmo assim é preocupante ver tanto vandalismo e destruição. Desde a extinção dos hooligans que não tenho notícia de convulsão social tão grande assim. E bem debaixo da saia da Rainha (pobre Dona Beth, deve estar achando seu chazinho mais amargo que o normal).
Mas afinal, qual a ligação desses distúrbios com aquilo que estava falando ali em cima? É que nada, nem ninguém, me tira da cabeça que tudo isso é parte da comoção causada pela morte da bela, talentosa e desajuizada Jade. Os britânicos, quem andam sem grandes líderes e ídolos, afora a idosa detentora da coroa, não assimilaram, ainda, a perda da garota de bela voz e que gostava de voltar para seu luto. E estão extravasando seus sentimentos dessa forma. Isso pode ser um recado sutil, ou um grito desesperado de alerta, para alguma ferida ainda oculta no Reino.
Não vou entrar no mérito de apontar os riscos dessa onda de selvageria para a organização dos jogos olímpicos, nem ficar pensando no que estariam dizendo se fosse aqui, no Brasil. Isso eu deixo para os analistas políticos.
Quero só compartilhar meus temores. É que mesmo não sendo sociólogo, nem membro do COI, diretor da CBF, nem delegado de polícia, comentarista esportivo, arqueólogo de acontecimentos futuros, tanatopraxista, nem produtor musical, agente funerário ou dono de pub (mas confesso, sou fã do Monty Python), estou aqui assustado com o que pode acontecer no Brasil, se essa onde de comoção violenta vira mania globalizada.
Qual seria a reação dos brasileiros se (e isso vai acontecer um dia) figuras como Roberto Carlos, não o bom em ajeitar as meias, mas o moço de Cachoeiro do Itapemirim, ou o mais ilustre palestrante do momento, Luiz Inácio, ou ainda o dono do baú, Senor Abravanel, batesse a caçuleta em breve? Chego a ficar arrepiado só em imaginar, as Avenidas Paulista e Goiás lotadas de populares armados com coquetel molotov, saqueando as Casas Bahia e os camelódromos. Melhor nem pensar.
Mas o pior ainda poderá ocorrer, com o óbito de Luan Santana ou de Vinicius Félix de Miranda. Imagina só, as ruas tomadas por uma multidão usando botas e grandes fivelas, armados com seus berrantes desafinados (...). multidão urbana transviada, disformemente, de moradores do campo, que fique bem claro. E pode piorar mais ainda. Tente você, caro leitor, imaginar as ruas do país parecendo uma aquarela fluorescente, cheias de adolescentes desesperados, com seus cabelos lisos caindo pela testa, postando suas dores profundas, chorando muito no twitter, Pichando as fachadas das lojas e das casas, espalhando, por toda parte, tinta com aquelas cores ridículas, em comoção pela perda dos ídolos, por ocasião do falecimento dos garotos do Restart. Imaginou? Isso sim, seria uma visão do inferno, não acha.
E ainda tem o senador imortal, Sarney, o narrador esportivo Carlos Eduardo dos Santos. E o ex-presidente dos Estados Unidos da América, Mr. W. Bush, e outros. Peraí, estou falando de possíveis ocorrências em caso de algumas mortes, e não de desejos coletivos, certo? Então vamos voltar ao que interessa.
A morte de alguns, de fato, consegue abalar completamente o equilíbrio. Veja, por exemplo, o caso Bin Laden. Morreu. Bateu as botas, quer dizer, bateram para ele. Mas o Afeganistão segue inseguro e sem liberdade, ocupado por homens do exército dos EUA e do Primeiro Ministro de férias curtas e, como por maldição, os pilares da sociedade cristã ocidental, o sistema capitalista, parece ter entrado em estado terminal sem retorno. Estou duvidando que saia dessa UTI com vida.
É, vivos ou mortos, algumas figuras sempre mexem com as pessoas e com as estruturas sociais.
Já que é assim, vamos seguir festejando a vida e “bebendo nossos mortos”.
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PS.
Quero deixar claro que desaprovo completamente qualquer forma de violência. Escolho ser bem humorado sempre. E acredito lidar muito bem com a morte, sobretudo com a dos outros...

5 de ago de 2011

Fim do dia, sexta-feira...

O Sol já se esconde por detrás dos edifícios.

Daqui a pouco a noite acordará

trazendo as estrelas, a lua nova,

alguns mistérios,

excitação e medo,

prazer e dor,

o frio do inverno

o calor daquele corpo nu,

(belo como esculpido com pétalas e suave como suspiros de prazer).

Também trará o frescor da cerveja,

as bolhas da champanha e a ardência da cachaça.

A santidade da hóstia "sagrada" e o fogo da pimenta.

Felicidades verdadeiras e alegrias ilusórias.

Lucidez mortal e porre criativo.

Aventuras e apatia

Louvação em templos diversos e filosofia em mesa de bar.

Sexo gratuito e amores de aluguel,

mortes e fecundações,

cópula e felação.

descanso e agito,

gritos e sussurros,

acordes agudos e pancadão.

Poesias vividas, faladas, escritas e ignoradas.

Dúvidas e certezas.

Silêncios que conquistam e cantadas que afastam.

Olhares roubados e beijos negados.

A roupa certa para despir.

A máscara errada para vestir.

Perdas e ganhos,

sim e não,

encontros e desencontros,

chegadas e partidas

fé e descrença

anjos e demônios

inimigos fiéis e amigos nem tanto.

(...)

É, lá vem a noite cheia, e vazia, de tudo.

Cada um escolhe sua vibe

Mas, se for se matar, faça apenas com a intensidade que te permita estar vivo amanhã, quando a noite se for.

Aproveitem a noite, crianças.

Juízo viu. Mas não perca o ponto do prazer, nem o extrapole

Vai lá, se jogue,

afinal a noite está bem ali, ao alcance da minha voz.

E, ufa, é noite de Sexta.