19 de jan de 2009

Infelizes Coincidências - 13/09/2007 -

A sensação que tive hoje (13/09/2007), ao acordar às 6:50 horas da manhã, e que me acompanha até agora, se fortalecendo a cada momento, é composta de vários sentimentos, todos eles ruins.
Primeiro, hoje estou de luto. Como os goianienses, goianos e brasileiros hoje, mais que em todos os outros dias do ano, eu sou acometido pela sensação de terror que se abateu sobre Goiânia há vinte anos atrás, e que ainda hoje está presente na vida dessa cidade, sobretudo na vida das vítimas, todas vítimas diretas, em minha opinião, que não recebem o tratamento adequado para tentar minimizar seus sofrimentos e fechar suas feridas, sejam elas físicas, emocionais ou econômicas.
A cápsula de Césio-137 foi aberta há vinte anos. Nunca mais a chaga provocada por ela foi efetivamente fechada (se é que se poderá um dia ter fim esse capítulo trágico de nossa história).
Hoje o terreno onde a cápsula foi aberta é uma área estéril, coberta de concreto morto. Nada cresce ali. Ninguém vive ali. É assim como uma homenagem à desgraça um dia iniciada e que se apresenta como eterna (ao menos até que se extinga a linhagem de descendentes das pessoas que viviam em Goiânia naqueles dias). Acho mesmo que poderia se construir um monumento ali. Nada grandioso e ostentador, como os projetos para ocupar o lugar onde um dia existiu o World Trade Center. Mas que seja algo mais simples, onde as pessoas possam voltar a freqüentar. Onde crianças, como era a menina Leide, possam brincar com seus cães.
Mas que nos lembre a todo momento que “nem tudo que reluz é ouro”, como ensina o velho adágio. E que o que aparentemente pode nos trazer riqueza fácil, quase sempre nos oferece perigo. Esse monumento deve nos ensinar, também, que mexer com o desconhecido pode ser muito arriscado, e que por isso devemos ter e oferecer a todos, capacidade de estudar e aprender sempre. Isso, para reconhecer os perigos que a vida nos apresenta a cada instante, tendo capacidade de discernir entre as oportunidades verdadeiras e as armadilhas, sejam elas do destino ou montadas por outras pessoas.
Por estes fatos, sinto-me triste, consternado. E pela falta de compromisso do Estado com as pessoas que mais sofrem, me sinto profundamente triste.
Outro sentimento que carrego hoje, e que também sinto (e espero) não passará assim tão rápido, é a revolta. Estou profundamente revoltado com a atitude desrespeitosa de quem devia nos representar a todos, respeitando nossas vontades com um mínimo de dignidade, conduta moral e senso ético de justiça, mas que, ao contrário, age de forma escusa, desonesta e imoral e desrespeitando o povo brasileiro que, além de tê-los indicado para ocupar os cargos que ocupam agora, ainda paga seus enormes salários.
Ao contrário das vítimas do Césio, os senhores senadores sabem exatamente o que estão fazendo. Conhecem o “brilho” com o qual estão lidando. Mesmo assim escolheram abrir a “cápsula”. Certamente o número de vítimas será bem maior nesse acidente do que no ocorrido em Goiânia.
Certamente será mais difícil fechar as feridas abertas pela absolvição do indigno senador Renan. Infelizmente, também ao contrário do maior acidente radiológico da história, neste, quem “abriu a cápsula” possivelmente viverá amparado pelas benesses malditas de seus atos ilícitos.
No entanto vislumbro, para o senador, destino semelhante ao lote da Rua 57. Em breve a vida se tornará impossível lá, pois acredito que não pode haver vida onde não existe honestidade e justiça. Quem sabe devamos começar a pensar em uma forma de transformar aquele terreno de Brasília em algum monumento há um tempo em que a desonestidade ainda reinava. Isso porque espero que todos nós brasileiros, vítimas diretas desse “desastre”, não permitamos que os culpados fiquem impunes. Espero que nossas feridas não fiquem camufladas pelo nosso marasmo coletivo. Que nossas dores não sejam disfarçadas com os bálsamos da ignorância e da letargia social.
Espero, enfim, que as vítimas do Césio-137 recebam todo atendimento necessário para que suas vidas remanescentes sejam menos doloridas, em todos os aspectos.
Que as vítimas dos dois casos sejam respeitadas, plenamente em sua dignidade.
            Que, nos dois casos, os responsáveis sejam definitivamente punidos. E que não tenhamos, nunca mais, necessidade de eventos emblemáticos para servir de exemplo. Já temos exemplos demais. Já abrimos “cápsulas” demais. O que nos resta é finalmente aprender todas as lições e aceitar nosso papel e nossas responsabilidades.

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