28 de dez de 2014

Para 2015

Ao escolhermos um voo, ou um ônibus, no qual embarcar, sabemos previamente de todo itinerário. Conhecemos o roteiro, sabemos quantas escalas faremos, e quanto tempo levará até a chegada ao destino. Tudo é preciso, planejado e conhecido. Cabe a cada um aproveitar, à sua maneira, a viagem.
Quando embarcamos na vida, no entanto, não temos nenhum roteiro prévio. Não conhecemos o roteiro, nem sabemos se haverão escalas, ou quantas serão. Quanto tempo em cada estação? Só saberemos quando de lá estivermos partindo. E, quais serão os nossos companheiros de viagem, também não sabemos. Vamos conhecendo pelo caminho.
Mas, também nesse caso, cabe a cada um aproveitar, também à sua maneira, sua viagem.
Por vezes nossa estrada cruzará a de outros viajantes. Às vezes mais de uma vez. Em certas ocasiões permaneceremos na mesma estação por algum tempo. Para, depois nos separarmos (às vezes com certo pesar, ou mesmo com muita dor).
E, como o roteiro não está previamente definido (ao menos não o conhecemos), podemos ir decidindo qual será o próximo destino a cada nova estação. E aqui se encontra a nossa única possibilidade de decisão nessa jornada. Escolhemos qual a próxima direção a ser tomada. Mas não temos nenhuma ideia de onde ela nos levará. Muito menos como será essa viagem (pois o trajeto é sempre mais importante que o porto onde aportaremos).
Para facilitar um pouco nossa vida tomamos o tempo que esse frágil planetinha azul leva para dar uma volta em torno da estrela que o aquece, como delimitador do tempo, após o qual convencionamos que devemos avaliar tudo que já percorremos até aqui, e para planejar os próximos passos. Mas, como assim, planejar? Se não podemos definir os detalhes dessa viagem.
A cada novo ano, esperamos que tenhamos, cada um de nós, aprendido coisas novas. Coisas que, mesmo que não nos torne mais "maduros", ao menos tenham agregado em nós conhecimento suficiente para não cometermos os mesmo erros, e para aceitar que cometeremos vários outros, e será exatamente isso que nos proporcionará mais crescimento.
Hoje, ao analisar meus próprios "balanços" anteriores (e também de quase todos que me chegam), percebo quanto egoístas eles costumam ser. Ao avaliar um ano que acaba, pouco importa se foi bom para a coletividade. Se para mim não foi assim tão bom, então avalio negativamente. Um bom ano, no ponto de vista de cada um, se refere apenas sobre como o ano foi para essa pessoa. E não para ela inserida em um grupo maior, que convencionamos a chamar de sociedade. Por outro lado, se minha fortuna é maior ao fim de dezembro, do que era em janeiro, então digo que o ano foi bom. Mesmo que todos em minha volta tenham perdido tudo que possuíam (às vezes para que minha riqueza aumentasse).
Os anos, e todas as estações percorridas por todas nós em cada um deles, eu espero que nos tornem pessoas, que consigam identificar cada vez mais o grande  laço que nos une ao planeta. É necessário que a cada novo dia percebamos, e aceitemos, que não somos, nem vivemos em ilhas.
E é com esse sentimento que procuro externar o sentimento que tenho, ao findar de mais uma volta de nossa humilde casa em torno de seu orgulhoso par, nessa dança vital.
2014 não foi um ano fácil. Nem para nós. Nem para os deuses. Eles tiveram que reforçar o time, e levaram daqui alguns dos nossos melhores craques, como nosso primeiro, e maior funkeiro Jair Rodrigues; O poeta menino João Ubaldo, Gabriel Garcial, esse colombiano universal; O humilde Canarinho; Suassuna, esse criador de ilusões; O heroico Rafa Soares; Joe Cocker; O último dos Ramones; Até Roberto Bolanõs cismou de, "sem querer querendo", partir daqui.
Mas o ano também reforçou a presença de alguns seres quase iluminados entre nós, o que, ao menos em mim, ajuda a reacender a esperança na raça. Existem mais de uma dúzia desses, mas como alguns são completamente desconhecidos (como de fato eles preferem ficar), vou citar apenas os dois que mais fortemente aparecem no horizonte. (Antes um parente para dizer que me alegro muito pelo fato de os dois maiores exemplos vivos, ao menos pra mim, serem sul-americanos). Trata-se do Uruguaio Pepe Mujica e do Argentino Jorge Bergoglio. Líderes que dão o melhor exemplo que se pode esperar.
E, se para mim o ano não foi exatamente o que esperava, afinal o velho Capézio, coitado, nem saiu da caixa, e nenhuma cachoeira me banhou, também não foi motivo para que eu o maldigue. Foi um ano cheio. Cheio de gols indesejados, de manifestações preocupantes e de beijos incompreendidos.
Aprendi com, e gostei do, balanço geral.
Falta muito pra todos nós. E não podemos nos permitir certos retrocessos. Mas no geral foi bom.
E, sem querer me comprometer além das próprias possibilidades, para 2015 não faço promessas, pois aprendi que elas podem nos aprisionar. Mas tenho desejos e alguns sonhos.
Em primeiro, gostaria que ao final de 2015 cada pessoa, ao analisar seu ano, o faça com foco nos benefícios, e perdas coletivas, e não apenas no individual;
Que algumas noites animadas nos tragam ressacas físicas, e que os motivos tenham sido compartilhados com o máximo de pessoas possível;
Que algumas noites animadas nos tragam, também, alguma ressaca moral, mas nesse caso, que os motivos sejam apenas meus (depois de tanto tempo aceitei que não tenho vocação para santo, nem para falso moralista. E pagar algum mico faz sim, parte dessa viagem);
Que todos aprendamos a enxergar a diferença entre necessidade real e as criadas pelo mercado;
Por fim, que façamos boas escolhas, e que tenhamos muitos bons motivos (para nos alegrar, para nos orgulhar, para crescer, para nos divertir, para sermos livres, para ficar em casa e para sairmos, para baladas, para nos arriscar mais, para nos preocupar com o mundo, para desejar, para nos aquietarmos e para nos agitar. Enfim que tenhamos motivos para seguirmos vivendo plenamente, já que essa é nossa jornada, e ninguém pode percorrê-la por nós).
Fechando, me permito compartilhar artigo publicado pelo Diário da Manhã nesse dia 30/12/2014: Leia aqui.

4 de dez de 2014

Equilíbrio

Tênue ponto em que nos equilibramos.
Existe por um instante tão fugaz
que nem se pode mensurar.

É o que escapa da eterna disputa que regula o tempo
e define nossa existência.

Desprezado pelo futuro
            (como velhos "bois de piranha")
para aplacar, um pouco, a fome do devorador em seu encalço.

Devorado em um instante
sem sequer poder lutar.
Mesmo assim é o que permite nossa história.
Tudo que foi.
Tudo que será.

E, equilibrando nesse ponto.
Saltando para o próximo,
sem descanso
            (ou somos devorados juntos)
É que existimos.

E não temos nada mais,
além do agora
            que passa
            que passou
            que passou (...)
Que passa cada vez mais rápido
e mais próximo o devorador está.
E, a cada instante devorado,
mais breve é cada agora.

Nesse ponto em que habitamos
            no ínfimo ponto onde quase se intersectam, futuro e passado,
não existe o que farei
tampouco o que eu fiz.
Apenas o que faço

Insaciável, o passado tem mais fome ao devorar.
Nesse paradoxo maldito
            que não inclui o perseguido
Em breve tempo, o alforje do futuro
não terá novo agora pra retirar.
            E não haverá mais o ponto, onde nos equilibrar.

Se tão breve é o presente
basta de perder tempo.
Cante, abrace, cante, ame.
Seja livre e verdadeiro.
declare, grite, sorria, chore.
Viva mesmo, intensamente.
            (pois a cada novo agora),
o que importa é ser feliz!


29 de ago de 2014

Um pouco sobre o amor

Acontecimentos recentes, nos quais estou envolvido, em alguns direta, em outros indiretamente, me deixam sentindo vontade (na verdade considero necessidade) de retornar à esse tema, do qual já falei em outras ocasiões. Acho que sempre de forma um tanto sutil, e pouco direta. Então hoje quero ser direto, explícito e objetivo, o máximo que conseguir, e tão elegante quanto meu espírito rude permitir.
O tema da vez não são as contradições dos discursos dos defensores das diversas vertentes políticas ou econômicas, mas mexe tanto com as pessoas como esses temas. Pra ser bem franco, o que vou abordar aqui interfere muito mais nas vidas de quase todos nós.
Estou falando, e vou falar, de amor.
Sendo mais preciso vou falar do amor. Digo, de um tipo específico de amor. Do que mais interfere em nossas vidas. Daquele que tem o poder de nos fazer percorrer todos os ambientes descritos por Dante, em sua Divina Comédia. Estou falando desse sentimento que, em minha opinião, a maioria das pessoas o percebem como um misto de Phillio, Eros e Mania.
Não vou aqui falar sobre as outras definições. E esse não é um estudo ciêntífico. É apenas um manifesto pessoal. Estou expressando minha forma de perceber e me relacionar com o amor. Que fique bem claro.
Mas, mesmo sendo nada científicas, minhas observações são atentas e, de certa forma, segue sim, um método. Seja como for, vamos ao ponto.
Bem, por mais que alguns queiram nos convencer do contrário, a grande maioria das pessoas que vivem nesse planetinha errante, ainda necessita, ou acredita necessitar de alguém ao lado, para se realizar e ser feliz. E boa parte dos esforços despendidos pelas pessoas, ainda tem como principal motivador, a vontade de aumentar suas chances de encontrar, e conquistar a pessoa amada. Comportamento muito mais perceptível nos homens, mas que também está presente nas mulheres.
Em certa medida, preciso concordar, ao menos em parte com essa tese. Somos seres sociáveis, e companhias são sim, em certa conta, necessárias. Mas não posso dizer que “não nascemos pra vivermos sozinhos”, no sentido que a frase normalmente é usada. Mais correto seria dizer que “não somos preparados, desde o nascimento, para viver bem conosco mesmo”. Na verdade somos meio que programados para não nos considerarmos boas companhias para nós mesmos.
Mesmo assim, acho válido eterna busca pela outra metade, pela alma gêmea, pelo amor verdadeiro. Afinal é bom, é muito bom, amar alguém, não é?
O grande problema, e aqui é que começa ficar complicado toda e qualquer relação, é que ao longo da história nos contaram muitas mentiras sobre o amor. Veja que não estou falando de Agape, Ludus, Hesed, Pragma, Karuna, nada disso. Estou falando especificamente desse amor que alimentamos, direcionamos e esperamos ser correspondidos, por alguém com quem queremos construir uma família, e viver, preferencialmente, sendo feliz para sempre.
Em toda a história sempre nos encheu de falsas verdades, nos convenceram de possibilidades inexistentes, e nos fizeram acreditar em lendas que sempre, ou quase sempre se transformam em contos de terror, por não serem verdadeiras, e por nós estarmos aqui, na vida real.
Culpa de antigos místicos, cientistas modernos, necessários poetas e romancistas maravilhosos, e claro, da igreja (no plural).
Acontece que nem tudo cabe em uma fórmula mágica ou em tubos de ensaio. A vida não é ficção. E, definitivamente, apesar de ser cristão, é necessário reconhecer que em algumas áreas, a manipulação dos ensinamentos do Cristo, por seus “representantes” causou mais estragos que em outras.
Sempre nos disseram que quando encontrarmos a pessoa certa, ambos vamos perceber, e nosso amor irá despertar. Nos dizem também que, o amor deve ser correspondido. Que um sente quando e amado pelo outro. E, se uma relação acaba, devemos procurar esquecer a pessoa, sufocando o amor que sentíamos por ela. Nos ensinam ainda, alguns, que o amor só acontece uma vez. Ou que ninguém poderá ser feliz sem a pessoa amada. Em alguns casos, ninguém é feliz tendo amado uma vez.
O que nunca nos disseram, de verdade, é a quem pertence esse sentimento. A quem ele realmente pode impactar? Quem, de fato, se transformará pelo amor? Quem pode, de fato, senti-lo?
E é exatamente na direção dessas questões que minhas observações, ao longo dessa minha pacata vida, estão me levando. E, mesmo não sendo escritor inglês, bispo filósofo, cantor sertanejo, psicanalista alemão, jornalista barato, tampouco sou um tipo de Don Juan do Cerrado (bem, do Cerrado até que sou, mas sou incompleto de fábrica), me permito ter uma opinião em processo de formação. E sim, me atrevo a compartilhar com quem se arriscar a ler meus devaneios. E o que tenho observado pode ser exposto da seguinte forma:
Primeiro, sim, o amor existe. Nós o sentimos e ele pode sim interferir em nosso comportamento;
Segundo, sim, o amor pode ser lindo. E pode nos fazer muito bem. Mas, caso não o entendamos, os efeitos podem ser contrários, e desastrosos;
Terceiro, não, o amor não será nunca correspondido. Não espere isso, ou será para sempre infeliz;
Quarto, não, a pessoa amada sabe o quanto você a ama. Nunca saberá, e não poderá reagir ao seu amor.
Juntando todas essas informações, pode ser que minha tese fica um pouco mais clara. Então vou dizer de outra forma.
Caro leitor, o grande amor que cada pessoa sente, reside apenas ao ser dessa pessoa. É exclusivamente dela. E somente ela, a pessoa que ama, é que pode senti-lo. Todo amor que você pode sentir por sua namorada, ou por seu marido, é só seu. E a única pessoa que pode senti-lo é você mesmo. Ninguém mais pode. Por mais que você se esforce, a pessoa amada jamais sentirá o amor que você sente por ela.
E, pode parecer cruel no início, mas de fato não é. Quando entendemos a dinâmica desse sentimento tão necessário, vemos o quanto essa sua forma de agir nos é benéfica.
Então prossigamos. Como já disse, por mais que meu amor por minha namorada seja o maior que já existiu. Maior que o próprio universo. Esse sentimento gigante não sairá de mim. Eu posso tentar traduzi-lo em ações de carinho, de cuidado, de gentileza. E esses gestos são percebidos. E deles a pessoa amada se beneficia. Mesmo assim ela nunca saberá o tamanho do amor que sinto. Da mesma forma eu nunca saberei como é o amor que ela sente por mim.
Isso nos leva a entender que o comportamento da pessoa amada não está relacionado com a forma, ou com quanto eu a ame. Quem estiver comigo irá me tratar não conforme meu amor por ela, mas conforme o amor dela por mim. Apenas essa compreensão já poderia minimizar grande parte do sofrimento de alguns.
Mas ainda tem mais. Na mesma linha, ao aceitarmos que meu amor é só meu, seremos levados a entender que meu amor não poderá transformar ninguém, além de mim mesmo. Então aceite, o fato de você amar seu namorado não o transformará no homem que você deseja que ele seja. E isso vale para todas as pessoas.
Por outro lado, o amor que eu sinto é capaz de promover enormes transformações na única pessoa que pode senti-lo. Ou seja, eu mim mesmo. Então, o seu amor pode te transformar. Você, e somente você será transformado pelo amor que sente. Ao compreender essa verdade, nos livramos de muitas amarras, e aí nos tornamos aptos a sofrer todas as transformações que esse sentimento pode nos proporcionar. E, geralmente, nos tornamos pessoas melhores, mais felizes, mais “amáveis”. E isso não depende de ser correspondido, ou não. Depende apenas de saber se relacionar com um sentimento que é seu. Que libera um monte de enzimas, energias, toxinas boas em nosso corpo, e ainda nos possibilita expandir nossa visão e fortalecer nosso espírito.
E, quando meu amor não é correspondido? Ora, como quero receber em troca uma coisa que não estou oferecendo? Afinal o meu amor não alcança a pessoa amada. E eu posso não ser pra ela o catalisador certo, que irá potencializar o amor que ela mesma carrega, e que também é só dela.
Afinal é exatamente assim que, na prática, funciona. Quando sentimos que amamos alguém, na verdade essa pessoa apenas nos estimula a potencializar esse calor que jamais poderá aquecê-la, e que ela pode nem ter pretendido, ou imaginado. E nós sentiremos falta dessa pessoa, caso se afaste. Mas esse estímulo deixa de ser necessário à medida que reconhecemos a fonte em nós mesmos. E isso nada tem a ver com a vontade de encontrar um companheiro para a vida. Por favor, não confunda as coisas.
Também é válido ressaltar que minhas observações me mostram que uma pessoa que, aparentemente, não alimenta seu amor é, geralmente, mais triste, mais amarga. Mais infeliz. O que me leva ao ponto seguinte. Mesmo que você não foi “correspondido”, ou se suas relações nunca foram, assim, to felizes, não cometa o erro de tentar matar o amor que você sente. Ao contrário, alimente-o. Com você mesmo, para você mesmo. Por você mesmo. Mesmo que não tenha nenhum “alvo” para seu amor, ame. Incondicionalmente, ame. Em qualquer tempo, ame. Assim você se tornará uma pessoa mais atraente, mais apaixonante. Mais amável.
Afinal é a você que seu amor transformará.
Quando encontrar alguém, ame sabendo que é em você que seu amor está agindo. Será você o único impactado. E, para demonstrar que você ama, diga, seja carinhoso, seja gentil, tenha cuidados. E diga. Todo gesto não substitui demonstrações verbais. Diga que ama, só assim a pessoa amada terá uma vaga ideia do que você sente por ela.
E, se eu reconheço meu amor como meu. Então tratarei cada pessoa que estiver comigo, com o mesmo afeto. Seja a pessoa que vai viver comigo por toda vida, ou alguém com quem eu esteja por alguns instantes.
Aqui uma citação que acho perfeita. Retirada da canção “Como vai você?” de Antônio Marcos e Mario Marcos, Roberto Carlos brilhantemente cantou: “Vem, que a sede de te amar me faz melhor”. Veja que ele não está pretendendo que sua sede de amar transforme a pessoa em uma pessoa melhor. Mas reconhece que a vontade de amar a pessoa, o torna uma pessoa melhor. E, acredito, é exatamente essa a principal função desse amor do qual estou falando aqui. Nos transformar em pessoas melhores, contribuindo de forma decisiva para nossa evolução.
Claro que existem as distorções, como os “amores doentios”, os crimes motivados por supostos amores. Mas tudo isso, eu creio, se deve exatamente à nossa incompreensão dessa força tão fortemente transformadora.
Por ora é isso. A todos, muito amor.

16 de ago de 2014

Solidão

É que tem esses momentos,
nos quais não importa se você se acha forte ou fraco,
delicado, casca-grossa, ou frágil.
Se é bom ou nem tanto.
Se é do bem, ou se sua alma já habita parcialmente algum inferno.
Sempre poderá haver esses momentos.
Onde alguma coisa faz se formar um tipo de nó em nossas gargantas.
Nosso estômago fica se sentindo desconfortável.
Mesmo sem querer, lágrimas insistem em rolar dos olhos.
Seja pelo que for.
Não se pode controlar tudo o tempo todo.
Muito menos o turbilhão de lembranças que, assim, de repente vem.
Seja lá de onde for.
De dentro de uma gaveta mal fechada.
Do fundo de um histórico de e-mails empoeirados.
Ou simplesmente de algum canto escuro de nossa mente (esse arquivo às vezes falho, e às vezes surpreendentemente eficaz...).
E você pode se ver de frente com todo tipo de sensação.
Saudade de alguma situação, ou de alguém.
Vontade experimentar novamente algum sabor, ou sentir certo perfume.
Ou, pode ser também, apenas um enorme sentimento de fracasso, por não ter conseguido manter situações, pessoas, perfumes e sabores...
Se a cada dia nos tornamos mais amadurecidos e, com isso nossa capacidade de analisar fatos, causas e consequências.
Também pode ser bem maior nossa vergonha, ao vislumbrar quanto erro bobo comentemos...
Não. Não estou reclamando da vida.
Nem querendo reconstruir o que é "irreconstruível".
Tampouco estou me culpando de tudo de ruim que já possa ter me acontecido até hoje.
Pode ser que encha a cara,
Mas não vou me matar (não vivo muito bem se estiver morto).
É que hoje foi um dia desses.
Em que queria muito conversar sobre tudo, ou sobre nada.
Quem sabe chorar um pouco.
Enfim,
Senti vontade de certo colo,
e o abraço do amigo não mais presente...


27 de mai de 2014

É sem as luzes artificiais
Que a noite mostra toda sua beleza:
Céu de Serra da mesa!

26 de mar de 2014

Descompasso

Sua presença me encantou.
Meu jeito, eu sei, te acendeu.
Seu riso me alegrou,
Seu frio me aqueceu.
Aquele beijo, não será esquecido,
meu perfume, pra sempre em você.
Minha saliva não te sacia mais,
E minha cama não será seu ninho.
Meus sonhos não indicam seu destino,
seus planos não incluem os meus.
Nossos passos vão em distintas direções.
E essa saudade que aparece às vezes,
não entristece, ao contrário,
Fazem-nos sorrir.
Alegria por tudo que vivemos.
Se foi apenas um instante,
foi intenso,
Foi encontro.
E se não somos nós,
eu e você fomos um, por um momento.
Se agora o tempo enche de distância
o espaço entre nós,
ainda assim não a de haver tristeza,
nem pesar,
nem lágrimas
ou malquerer.
Podemos até fazer canções, que falem de nós,
que não éramos as pessoas erradas,
E tínhamos os desejos certos.
Só não sincronizamos nosso tempo.
E sua chegada veio amar minha partida...

13 de mar de 2014

Tô querendo um beijo,
daqueles de verdade, 
que tem calor, 
força, 
carinho.
Um beijo que transmita amor,
que transfira saliva,
que acenda desejos
de se abrir para o mundo,
de cair de cabeça,
de entrar em você,
de, simplesmente viver.
É, tô querendo um beijo
que me faça sorrir,
que te deixe em êxtase,
que me faça tremer,
que nos emocione
e nos faça felizes.
Sim, tô querendo um beijo.
Não um beijo qualquer,
não na testa,
nem na bochecha.
Quero um beijo seu,
com língua,
sabor
magia
tesão
Com afago no rosto,
e unha nas costas,
com cabelo nas mãos.
Um beijo com promessas
de que, se de amanhã eu nada sei,
      (e tudo pode ser tranquilo,
       ou a vida ser louca)
que pelo menos agora eu possa habitar
o céu da sua boca.

6 de mar de 2014

Sem ensaios

Se fosse apenas sorriso,
ou quem sabe canção,
a vida seria mais fácil.
Se somente houvesse alegrias,
E se fosse festa todo dia.
Se o Sol sempre brilhasse,
E se a lua jamais se escondesse.
Se as mães jamais morressem,
e as flores nunca murchassem,
tudo seria mais leve.
Se não houvessem tempestades,
e a chuva sempre suavemente bastante,
e as sementes o sempre germinassem.
Se não houvesse adeus,
apenas breves "até mais".
Se os caminhos seguissem,
mas sempre, sempre, se cruzassem.
Se você estivesse sempre ao alcance da minha voz,
E sua mão sempre me alcançasse.
Se nunca perdêssemos o ritmo,
e a música jamais acabasse,
Tudo seria mais fácil,
e a vida muito mais suave.
Mas isso que temos é a vida,
real,
incerta,
imprecisa.
Nos cabe enxergar a beleza,
e aprender nos percalços.
E entre um tropeço e um salto,
Manter a coragem e a pureza.
Pois essa é a vida que temos,
inédita a cada instante,
sem "se", manual, ou ensaio.
Pois, por mais que arte tente imitar,
A vida nunca está na poesia,
é a poesia que está na vida
E dessa se vive só o agora.
E esse, acontece ao vivo...

5 de mar de 2014

Da série "Pequenos prazeres" - Condição

Livres: somente assim somos felizes.
Podemos ficar, ir ou voltar.
Pois temos pés, e não raízes!

Da série "Pequenos prazeres" - Melhor viagem

Percorro lentamente esse caminho.
Em cada curva uma pausa,
te causando arrepio!

Da série "Pequenos prazeres" - Injusto

Muito aquém do meu desejo:
Sempre seu abraço,
nunca seu beijo!

Da série "Pequenos prazeres"

Sempre a mesma fase,
sem paixão ou poesia.
            - Lua artificial!

Complô

Compartilham o mesmo sonho
minha razão e meu coração:
Juntos, na mesma cama,
meu desejo e seu tesão!

25 de fev de 2014

Cúmplices

Juntei minha alegria à sua,
à sua guitarra, juntei meu bandolim,
meu frescor à sua brasa.
Meu coração, te dei.
Em minha cama, seu lençol.
Meu Oswaldo canta junto ao seu Renato
                        (como se aqui fosse Brasília).
O seu ar, em meu pulmão.
Meus beijos, em sua língua,
em seus lábios, a  melhor canção.
Meu salário, em sua conta,
seus passos, meu caminho,
em seus olhos, meu espelho,
minha vida em suas mãos.
E assim nos completamos,
e já não estou sozinho
pois você está comigo,
e eu, onde nasci para estar.


Binário

Na lógica (in)exata da vida,
simplificamos nossas escolhas.
Entre alegrias e tristezas,
tempestades e calmarias,
nós percorremos dia e noite
                       (sempre um de cada vez).
E, em nosso mundo incomum
eu e você,
           (ao sermos nós)
somos bem mais que 10


Chorinho

Olhos marcantes,
longa cabeleira,
sorriso lindo
e voz suavemente marcante.

A bela negra e seu cavaco,
combinação perfeita entre ritmo e melodia,
simples e bela composição.
E aquele choro me fez sorrir.

Música para os olhos,
ébano e pinho na mais harmoniosa combinação:
um cavaquinho brilhantemente tocado
por um perfeito violão.

3 de jan de 2014

Tanques de Evapotranspiração, uma boa alternativa à coleta e tratamento tradicional de esgoto

Cresci na Baixadinha, um bairro pobre lá da cidade de Mineiros, extremo sudoeste do estado de Goiás. Família igualmente pobre. Não havia no bairro rede de esgoto. Não tínhamos em casa banheiro com vaso sanitário instalado. O espaço reservado às necessidades fisiológicas eram as antigas latrinas construídas sobre um fosso, para onde as fezes e urina eram enviadas diretamente (modelo ainda muito presente em propriedades rurais e em bairros mais distantes de muitas cidades do Brasil). Não havia impermeabilização e, nem sempre o local escolhido era o menos inadequado. Como não havia nenhum sistema ativo de ciclagem, a não ser o processo de infiltração no solo (contaminando solo e água) em algum momento o sistema era desativado. Meu pai, com a "ciênça" adquirida com seus antepassados, sempre cuidava de encerrar o processo cobrindo o buraco com terra e plantando mudas de bananeira, quase sempre nanica. Assisti esse procedimento ser realizado várias vezes. E sempre, ao assistir uma bananeira ser plantada onde tinha uma privada, ou seja, literalmente "num poço de merda", eu sempre ficava com certo nojo. Mas isso passava logo, nem durava o tempo do primeiro cacho brotar. Sempre comemos banana nanica plantada em privada. E meu pai, sem noções cientificas nenhuma já conhecia alguns princípios naturais de reaproveitamento e ciclagem de nutrientes. Provavelmente a medida final, tomada por meu pai, tenha neutralizado ao menos uma pequena parte do potencial de contaminação de todas fossas negras usadas diretamente como latrina por nossa família.
Segundo a Agência Nacional das Águas, a média regional de atendimento da população, na região hidrográfica do Tocantins-Araguaia, por rede de esgoto, é de apenas 7,8% e, do percentual de esgoto coletado, apenas 2,4% é tratado. E, segundo o censo demográfico 2010, realizado pelo IBGE e publicada esse ano, pouco mais da metade dos domicílios brasileiros possui coleta de esgoto sanitário. E a coleta é apenas parte da solução. Ou, no caso, a falta de coleta é apenas parte do problema. A solução completa inclui a destinação final dos resíduos.
Como resultado, o mais comum são as propriedades rurais e residências situadas nas periferias das cidades, fazerem uso de fossas convencionais ou as conhecidas “fossas de buraco” ou sumidouros para destinação do esgoto sanitário gerado por seus habitantes, assim como despejar na rede de drenagem os demais efluentes em especial da propriedade rural constituindo-se assim em importante vetor de inúmeras doenças para o ser humano, animais domésticos e toda a fauna associada. As medidas tradicionais comprometem, portanto, não somente o ambiente de moradia, como também os recursos hídricos superficiais e subterrâneos e o solo.
Segundo o próprio IBGE, e outros analistas, seriam necessários investimentos na ordem de R$ 190 milhões até 2020 para alcançar a solução definitiva.
Levando-se em conta estudos que apontam que "cada pessoa utiliza o vaso sanitário entre 3 e 5 vezes/dia, consumindo  aproximadamente 75 (setenta e cinco) litros de água por dia na descarga sanitária, isto em regiões com boa oferta de água como é o caso do vale do rio Araguaia" (Matos, J. C. C. T., 2007), assim, uma família de 4 pessoas, gera diariamente um volume  médio de 300 (trezentos) litros/dia de água contaminada que, se descartada indevidamente na natureza representa importante veiculo de contaminação de todo ambiente.
Conforme informações da empresa estatal Saneamento de Goiás - SANEAGO, responsável por oferecer água tratada e promover a coleta e o tratamento do esgoto em Goiânia e região metropolitana, a capital conta com 76% do seu esgoto coletado e destinado à estação de tratamento. No entanto alguns bairros da cidade ainda não contam com esse serviço, à exemplo os bairros da região Noroeste da cidade, como Bairro da Vitória e Jardim Curitiba, 1, 2 e 3, que são bairros altamente adensados, com sua paisagem estrutural bem definida e onde se encontram, em quase todas as calçadas, fossas sépticas, para onde são carreados todo esgoto produzido.
Em Goiânia, como na maioria das grandes cidades, a solução enxergada para o problema do esgoto doméstico urbano, pelos governantes, foca-se apenas nas Estações de Tratamento de Esgoto - ETE, que centralizam o esgoto de toda cidade em um único ponto de tratamento, o que potencializa todo problema que ocorrer na operação da estação. Este processo necessita contar, ainda, com um complexo sistema de coleta, que leve o esgoto de todas as residência da cidade para a ETE que fica muito distante de alguns bairros, e encarece muito todo processo, e apresenta questões de engenharia, às vezes de difícil solução, como o fato de nem sempre poder contar com a força da gravidade para conduzir o esgoto até a estação (a força da gravidade, que facilita o afastamento, conduz sempre para os vales, onde se localizam os leitos hídricos, de onde o esgoto deve, ou deveria, permanecer distante).
Uma ideia do custo da coleta do esgoto em Goiânia, obtemos ao tomarmos como exemplo uma conta de água que, em um determinado mês apresentou valor de tarifa total igual a R$ 78,40. Desse total, a tarifa de tratamento de esgoto residencial foi de R$ 7,12 e a tarifa de coleta e afastamento do esgoto residencial R$ 26,04, mostrando que, o que mais encarece, para o Estado e para a população, é a coleta e não o tratamento do esgoto.

É necessário buscar infraestrutura de tratamento de efluentes que possam representar alternativas ao sistema tradicional adotado como solução na maioria dos casos (fossas negras na zona rural e estações de tratamento de esgoto centralizador na zona urbana), que sejam de fácil construção e manutenção, aliadas a preocupação com qualidade ambiental, a qualidade de vida do ser humano e o uso racional dos recursos naturais, baseados nos princípios  e conceitos da sustentabilidade. Também é preciso considerar à participação das pessoas nos processos de tomada de decisão de modo que tenham acesso às informações e técnicas não convencionais para escolher as alternativas de tratamento de efluentes sanitários mais adequados ao contexto local, social e econômico (...). (MARTINETTI, H., 2009).

Nesse cenário, os Tanques de Evapotranspiração (TEvap), conhecidos no Brasil desde a última década do século 20, poderia surgir como uma alternativa capaz de dar uma destinação adequada, ou menos inadequada, ao esgoto sanitário das áreas onde não exista coleta, contribuindo para reduzir, ou evitar a contaminação do solo e dos recursos hídricos, reduzindo assim o risco de propagação de doenças provocadas pela ausência de saneamento básico, tanto em humanos, quanto na fauna domestica ou silvestre.
O sistema constitui-se de um tanque subterrâneo, com interior totalmente impermeabilizado, para onde será carreado o esgoto. Também deve ser colocado alguma material que facilite a dispersão das águas negras em todo interior. Uma boa saída é utilizar pneus inservíveis, dando assim uma destinação mais nobre, também, a eles. Por fim acrescenta-se a velha combinação de entulhos com blocos grandes (pedras, pedaços de tijolos, etc, pedras menores e terra, do fundo para a superfície respectivamente). O sistema se completa com a plantação de espécies de raízes rasas e folhas largas como bananeiras e taiobas, eficientes em realizar a ciclagem dos nutrientes e a evapotranspiração, filtrando a água contaminada e jogando-a, limpa, na atmosfera, melhorando o microclima local e encerrando o ciclo da água no próprio sistema. As plantas mineralizam as águas sanitárias,  eliminando continuamente os elementos patogênicos. E, claro, devemos levar em conta que a introdução de espécies utilizadas na alimentação, como bananas e taiobas, pode representar pequena melhoria na qualidade de vida das famílias envolvidas, além da possibilidade de poder contribuir para melhorar a estética da paisagem local, se for tratado jardim.
No entanto o modelo encontra grande resistência, em parte por sua simplicidade, em parte por ser uma solução que pode ser implementada sem demandar grandes licitações e, sobretudo, devido ao medo que algumas pessoas tem com relação à saturação do sistema, e à qualidade dos alimentos cultivados na superfície dos tanques.
Quanto ao risco de saturação precoce, há várias recomendações de dimensionamento que garante vida útil bastante longa, e mesmo após a desativação, o sistema terá convertido quase todo esgoto recebido em nutrientes e vapor de água, restando apenas o resultado dos últimos dias de utilização, que permanecerá restrito ao tanque, e em pouco tempo também será reaproveitado. Ou seja, o próprio sistema neutraliza os riscos de contaminação, em caso de saturação ou encerramento das atividades.
Já quanto ao medo de as espécies plantadas se contaminarem, ao absorver os nutrientes presentes nos esgotos, estudos como os conduzidos pela doutora Paula Loureiro Paulo, da UFMS, que testou o sistema aqui proposto, verificando inclusive a qualidade da água, do lodo e do solo no interior do tanque, comparando com parâmetros largamente aceitos, e com amostras obtidas do lado de fora dos tanques, e que mostraram que, em se aplicando as medidas de higienização recomendadas à todas as hortaliças, não há nenhum risco em se utilizar a produção dos TEvaps para alimentação.
Se perdermos nosso preconceito, pararmos de querer obter lucros financeiros e eleitorais em toda obra executada, e olhar mais de perto para os problemas da parcela mais vulnerável da população, iremos encontrar soluções simples e eficazes. Como esta, onde o aprimoramento de uma ação que assisti ser utilizada muitas vezes na Baixadinha da minha infância, pode ajudar a evitar muitos problemas, ou mesmo salvar algumas vidas.