11 de jan de 2015

Aos bons e velhos "butecos copo sujo"

Eu, tendo crescido na boa e velha Baixadinha, quase na barranca das nascentes do Rio Araguaia (sim, para nós, goianos, esse rio escreve-se assim mesmo, com "R" maiúsculo, dado sua importância social e antropológica), na periferia de Mineiros (periferia de Mineiros, no início dos anos oitenta, imagina...), não poderia ser diferente. Só poderia dar nesse cara que sou hoje. Um cara nada intelectual e,  sim, meio de esquerda.
Não por ser meio de esquerda, mas por ter crescido lá, em meio a aventuras nos campos cerrados, que ficavam a poucas quadras de casa, brincadeiras nas ruas, e, claro, frequentando uns butecos nada recomendados para menores. Por isso concordo plenamente com o Antônio Prata, "Bar ruim é lindo,bicho!".
Não sou o que se pode dizer de boêmio inveterado, nem de alcoólatra sem solução. Não é pra tanto mesmo. Mas gosto, sim, de uma mesa de bar.
E preciso esclarecer que esse texto se trata exatamente sobre isso: Bebidas. Confesso já que tive pretensões maiores de escrever sobre isso, de forma mais abrangente. Mas tanto já se falou sobre, que eu não me arrisco mais. No entanto me sinto obrigado a ressaltar que, além da água, líquido essencial à vida como nenhum outro, aqui nos limites da pátria tupiniquim (e das enormes limitações de minha humilde compreensão da vida), são duas as outras bebidas com uma importância social e antropológica (tal qual nosso Rio). E ambas são importantes pelo mesmo motivo, mas com razões bem distintas. Uma é o café, a outra, a cerveja. Tudo bem, sei que muita gente aprecia demais um bom vinho. Outros não abrem mão de um ótimo whisky. Tem os que não vivem sem refrigerante e aqueles que ingerem apenas suco natural, sem gelo e sem açúcar. Tem quem perde a linha com uma boa tequila, e aqueles que só funcionam com energético. Tudo bem. Eu sei disso. E, com exceção do refrigerante, eu também tomo, raramente quase todas as outras bebidas. Inclusive, entre os destilados, a preferência é pela boa cachaça brasileira (e nisso Mineiros sempre foi muito bom), e quem nunca brincou com os duendes coloridos que uma garrafa de absinto te apresenta, não se divertiu completamente, e ainda não pode morrer feliz.
Apesar de tudo isso, em minha opinião, as bebidas se dividem em alguns grupos. E, analisem comigo (e não se esqueça, estou falando dos hábitos de nós, brasileiros). Vinho é uma coisa de casal, de ambiente romântico. De conquista, ou reconquista. Muito intimista. O Whisky então, é solitário. O cara chega em casa, depois do trabalho, senta no sofá, tira os sapatos, afrouxa a gravata e relaxa com uma dose (e, por favor, que seja cowboy). Ou nem chega em casa, escritórios e gabinetes, não raro, tem whisky. É uma coisa quase protocolar. Tequila e vodka, cá pra nós, é coisa da azaração. É o que enlouquece a mulherada. Até se toma em grupo, mas não confraternizando. Quase sempre que se tem uma tequila na mesa, existe ali intenções pra depois, que normalmente envolvem lençóis amarrotados e roupas pelo chão. E, nossa cachaça vive uma séria crise de identidade. Ela continua sendo apreciada pelas classes menos endinheirada, como sempre foi, desde sua origem. Mas agora a coitada recebeu carimbo de cult, por parte de um seguimento da sociedade. E virou objeto de apreciação rebuscada. De degustação. Passando, com isso, a ter um comportamento muito semelhante ao do vinho e do whisky juntos.
Agora, a cerveja e o café não, meu amigo. Essas duas bebidas cumprem o importante papel social de agregar pessoas. Os colegas de trabalho querem se reunir pra conversar, o que eles fazem? Vão pra copa tomar um cafezinho, ou pra um bar, tomar uma cerveja (ou sua variação, o chope). Quer reunir a galera, mesa de bar com a boa loira gelada. No meio da tarde, pra uma pausa relaxante e agradável, senta-se com os amigos em uma cafeteria e relaxa-se com aquele aroma maravilhoso. Chega visita, o que todos querem servir, um bom cafezinho. O churrasco dos amigos, o que tem? E para criar um ambiente aconchegante com a família, mesmo que seja para discutir algum  sério problema?
Cada uma dessas duas bebidas tem sua própria vocação. Mas as duas cumprem essa tarefa que nenhuma outra cumpre. Que é de reunir as pessoas. De agregar. De aproximar.
Feito esse longo desvio, podemos voltar ao verdadeiro objetivo desse texto.
Gosto de ter pessoas por perto. Apreciou a companhia dos amigos, e sou grande apreciador de café e de cerveja. Sim, eu tomo essas duas bebidas de forma solitária e/ou apenas com minha própria companhia (agora mesmo, enquanto escrevo esse texto, estou saboreando uma delas). Mas com as cervejas, o ambientes propício para o consumo, são os bares.
E eu, tendo frequentado os muquifos da Baixadinha de minha adolescência, é normal que não tenha, digamos, enorme predileção pelos caros bares da moda.
Isso não significa, também, que eu me contente com porcaria. Realmente não é isso. E até me considero uma pessoa com relativo bom gosto.
Mas, tem coisa que não se encontra nos ambientes chiques de nenhuma cidade.
Ainda nos tempos de Mineiros, quando reuníamos os amigos, por vezes queríamos algo mais refinado. Nesses casos nos esforçávamos pra nos contentar com os ditos "melhores ambientes" que a cidade oferecia.
Parêntese para dizer que, como toda cidade do interior de Goiás (e não sei se em outros estados isso é diferente), em Mineiros bares são as únicas opções de lazer para a grande maioria dos jovens, mesmo assim, e apesar disso, nunca teve grande diversidade, fecha parênteses.
Mas quando queríamos curtir de verdade, sem frescuras e completamente livres, buscávamos os ambientes que minha queridíssima Lílian chamava de "xexela". Ora, meus amigos, a cerveja mais gelada da cidade era servida em um bar ao lado da casa da minha mãe, que atendia pela alcunha de "Daynner Bar", uma dessas maravilhosas xexelas, que cresceu muito rapidamente graças às qualidades que quero acentuar aqui. Calma, já estou chegando lá.
Goiânia, onde moro desde alguns poucos anos, se orgulha de dizer que é uma das capitais brasileira com o maior número, proporcional, de bares. Ficando atrás apenas da irmã mineira, Belo Horizonte.
E aqui realmente a vida noturna consegue agradar, com relativa qualidade, todos os gostos, de todas as tribos. Há sim, algumas segmentos mais bem representados. Mas, da galera roquenrou aos apreciadores do melhor samba, passando por todos os estilos, encontra-se ambientes que agradam. É mais fácil encontrar ambientes sertanejos, é verdade. Mas velho, estamos em Goiânia. Se nasceu, ou escolheu viver aqui, aceita esse fato e seja feliz.
No entanto não é desses botecos todos que estou falando. Eles são bons. Vou em um ou outro de vez em quando. Mas, se esqueça, estou falando das xexelas. Dos chamados bares "copo sujo". É desses que estou falando.
E estou falando não pra ressaltar a falta de qualidade e a bagunça. Pelo contrário. É exatamente para ressaltar qualidades que não se encontram nos bares e restaurantes chiques e caros que a cidade oferece.
Claro, alguns butecos não são recomendáveis nem aos inimigos. Mas existe uma categoria de bares copo sujo em Goiânia que merece, e precisa ser ressaltada. São bares que estão abertos há muitos anos. Butecos que servem ótimas cervejas geladas e deliciosos petiscos. Mas que servem, principalmente, a cordialidade e a amizade dos proprietários, a todos que atendem.
Butecos onde os "fregueses" são amigos e, até viram gerentes. Onde o Deputado e o Juiz sentam junto ao pedreiro e ao mecânico, e comem linguiça enquanto discutem amenidades como a rodada de futebol, o sexo dos anjos ou os destinos do país. Butecos onde você vai sem medo, pois tem certeza que a cerveja está sempre gelada, o atendimento e a cordialidade, sempre quentes. Lugares onde se pode ir com a nova namorada, ou com a família toda, que não terá problema nenhum. Onde se come torresmo com as mãos, e a pimenta está sempre à mesa.
Lugares abertos há mais de três ou quatro décadas (muito antes da maioria dos atuais lugares da moda pensarem em existir, e antes também da proliferação das bancas de espetinho com jantinha, que hoje estão em todas as esquinas), e continuam atendem da mesma forma, e com clientes fieis desde a abertura.
Temos alguns desses no centro, e vários nos bairros mais antigos da capital. Mas também existem nos bairros mais distantes, e bem menos tradicionais.
Se você vive em Goiânia, ou está passando por aqui, é muito fácil encontrar guia de bares, boates e restaurantes bacanas (que são bons de verdade). Mas você pode passar a vida sem saber onde comer o melhor peixe frito ou a melhor costela com mandioca. Ou ainda nunca conhecer preciosidades como o famoso "Pica-paú".
É para ocupar essa lacuna, e prestar esse verdadeiro serviço de utilidade pública que um grupo de amigos, todos lá do interior, e todos apreciadores do ambiente dos bares copo sujo, resolveu se reunir e criar um guia. Poderiam chamar de "Guia o melhor do pior de Goiânia" mas isso não seria justo com os bares, nem honestos conosco, os fiéis frequentadores. Poderia ser "Guia Lada B de Goiânia", mas lembraria muito mais movimento musical, e suas lembranças. E em alguns ótimos butecos nem tem música.
Então será chamado mesmo de "Guia dos butecos copo sujo de Goiânia". Sem ofensas nem discriminação. Apenas sendo, assim como esses adoráveis ambientes, tradicionais.
Então esse grupo de amigos, no qual, por sorte, me incluo, se dará ao trabalho de visitar esses estabelecimentos. Experimentaremos suas bebidas e suas comidas. Provaremos o que cada um tem de melhor. E contaremos tudo em um blog que em breve será lançado.
Aguardem.


6 de jan de 2015

Em mim um paradoxo.
Leão e cordeiro em batalha.
E ao te dominar, me protejo!


Não sei o que mais me fascina.
Se teus lindos lábios silenciosos,
Ou tuas mãos, sussurrando LIBRAS.


Hoje, edifícios gigantes.
Páreo duro para mim,
sem Rocinante, nem Sancho Pança.


Madrugada torturante.
Duas causas pra insônia:
Grilo no quarto, e na cuca.


Insistente e florido,
o velho se disfarçou de jardim
Pra enganar a morte


Preenchendo o ambiente,
Quente como deve ser.
Em perfeita harmonia:
Meu café e seu carinho.

Raio de Sol pela fresta,
ilumina a escuridão.
Sorrio, você voltou.


Depois de longa seca,
O arco-íris não traz tesouro.
Só alegria.

5 de jan de 2015

Sobre pequenos descuidos

E lá estava eu, em pesado silêncio, como haveria mesmo de ser.
Me olhando em seus olhos, quase te vi.
Aquele silêncio era recíproco.
O nó em minha garganta possivelmente quase te sufocava também.
O peso de algumas horas, e poucas palavras indevidamente repetidas, têm mesmo força para minar antigas relações, e encurtar caminhos a serem percorridos juntos.
O descuido.
Chateações bobas e algum descontrole etílico.
E o descuido.
Sempre houve. Sempre deve haver cuidado.
Afinal eu me importo.
Afinal você se importa, eu sei.
Um pequeno descuido, e o caldo entorna.
Alguns segundos de distração e acidentes graves acontecem.
Vidas se perdem por descuido.
Grandes tesouros passam despercebidos, por descuido.
...
E agora aquele estridente silêncio.
Ensurdecedor e pesado, como deveria mesmo ser.
Me trazendo de volta à realidade.
Prendendo-nos à Terra.
Nos fazendo pensar.
Nos trazendo à tona pra respirar.
E ao te olhar nos olhos, me vi.
E ao me ver em você, me acalmei.
E, aos poucos, o peso se desfez.
E o silêncio voltou a ser leve, como deve sempre ser.