3 de jan de 2014

Tanques de Evapotranspiração, uma boa alternativa à coleta e tratamento tradicional de esgoto

Cresci na Baixadinha, um bairro pobre lá da cidade de Mineiros, extremo sudoeste do estado de Goiás. Família igualmente pobre. Não havia no bairro rede de esgoto. Não tínhamos em casa banheiro com vaso sanitário instalado. O espaço reservado às necessidades fisiológicas eram as antigas latrinas construídas sobre um fosso, para onde as fezes e urina eram enviadas diretamente (modelo ainda muito presente em propriedades rurais e em bairros mais distantes de muitas cidades do Brasil). Não havia impermeabilização e, nem sempre o local escolhido era o menos inadequado. Como não havia nenhum sistema ativo de ciclagem, a não ser o processo de infiltração no solo (contaminando solo e água) em algum momento o sistema era desativado. Meu pai, com a "ciênça" adquirida com seus antepassados, sempre cuidava de encerrar o processo cobrindo o buraco com terra e plantando mudas de bananeira, quase sempre nanica. Assisti esse procedimento ser realizado várias vezes. E sempre, ao assistir uma bananeira ser plantada onde tinha uma privada, ou seja, literalmente "num poço de merda", eu sempre ficava com certo nojo. Mas isso passava logo, nem durava o tempo do primeiro cacho brotar. Sempre comemos banana nanica plantada em privada. E meu pai, sem noções cientificas nenhuma já conhecia alguns princípios naturais de reaproveitamento e ciclagem de nutrientes. Provavelmente a medida final, tomada por meu pai, tenha neutralizado ao menos uma pequena parte do potencial de contaminação de todas fossas negras usadas diretamente como latrina por nossa família.
Segundo a Agência Nacional das Águas, a média regional de atendimento da população, na região hidrográfica do Tocantins-Araguaia, por rede de esgoto, é de apenas 7,8% e, do percentual de esgoto coletado, apenas 2,4% é tratado. E, segundo o censo demográfico 2010, realizado pelo IBGE e publicada esse ano, pouco mais da metade dos domicílios brasileiros possui coleta de esgoto sanitário. E a coleta é apenas parte da solução. Ou, no caso, a falta de coleta é apenas parte do problema. A solução completa inclui a destinação final dos resíduos.
Como resultado, o mais comum são as propriedades rurais e residências situadas nas periferias das cidades, fazerem uso de fossas convencionais ou as conhecidas “fossas de buraco” ou sumidouros para destinação do esgoto sanitário gerado por seus habitantes, assim como despejar na rede de drenagem os demais efluentes em especial da propriedade rural constituindo-se assim em importante vetor de inúmeras doenças para o ser humano, animais domésticos e toda a fauna associada. As medidas tradicionais comprometem, portanto, não somente o ambiente de moradia, como também os recursos hídricos superficiais e subterrâneos e o solo.
Segundo o próprio IBGE, e outros analistas, seriam necessários investimentos na ordem de R$ 190 milhões até 2020 para alcançar a solução definitiva.
Levando-se em conta estudos que apontam que "cada pessoa utiliza o vaso sanitário entre 3 e 5 vezes/dia, consumindo  aproximadamente 75 (setenta e cinco) litros de água por dia na descarga sanitária, isto em regiões com boa oferta de água como é o caso do vale do rio Araguaia" (Matos, J. C. C. T., 2007), assim, uma família de 4 pessoas, gera diariamente um volume  médio de 300 (trezentos) litros/dia de água contaminada que, se descartada indevidamente na natureza representa importante veiculo de contaminação de todo ambiente.
Conforme informações da empresa estatal Saneamento de Goiás - SANEAGO, responsável por oferecer água tratada e promover a coleta e o tratamento do esgoto em Goiânia e região metropolitana, a capital conta com 76% do seu esgoto coletado e destinado à estação de tratamento. No entanto alguns bairros da cidade ainda não contam com esse serviço, à exemplo os bairros da região Noroeste da cidade, como Bairro da Vitória e Jardim Curitiba, 1, 2 e 3, que são bairros altamente adensados, com sua paisagem estrutural bem definida e onde se encontram, em quase todas as calçadas, fossas sépticas, para onde são carreados todo esgoto produzido.
Em Goiânia, como na maioria das grandes cidades, a solução enxergada para o problema do esgoto doméstico urbano, pelos governantes, foca-se apenas nas Estações de Tratamento de Esgoto - ETE, que centralizam o esgoto de toda cidade em um único ponto de tratamento, o que potencializa todo problema que ocorrer na operação da estação. Este processo necessita contar, ainda, com um complexo sistema de coleta, que leve o esgoto de todas as residência da cidade para a ETE que fica muito distante de alguns bairros, e encarece muito todo processo, e apresenta questões de engenharia, às vezes de difícil solução, como o fato de nem sempre poder contar com a força da gravidade para conduzir o esgoto até a estação (a força da gravidade, que facilita o afastamento, conduz sempre para os vales, onde se localizam os leitos hídricos, de onde o esgoto deve, ou deveria, permanecer distante).
Uma ideia do custo da coleta do esgoto em Goiânia, obtemos ao tomarmos como exemplo uma conta de água que, em um determinado mês apresentou valor de tarifa total igual a R$ 78,40. Desse total, a tarifa de tratamento de esgoto residencial foi de R$ 7,12 e a tarifa de coleta e afastamento do esgoto residencial R$ 26,04, mostrando que, o que mais encarece, para o Estado e para a população, é a coleta e não o tratamento do esgoto.

É necessário buscar infraestrutura de tratamento de efluentes que possam representar alternativas ao sistema tradicional adotado como solução na maioria dos casos (fossas negras na zona rural e estações de tratamento de esgoto centralizador na zona urbana), que sejam de fácil construção e manutenção, aliadas a preocupação com qualidade ambiental, a qualidade de vida do ser humano e o uso racional dos recursos naturais, baseados nos princípios  e conceitos da sustentabilidade. Também é preciso considerar à participação das pessoas nos processos de tomada de decisão de modo que tenham acesso às informações e técnicas não convencionais para escolher as alternativas de tratamento de efluentes sanitários mais adequados ao contexto local, social e econômico (...). (MARTINETTI, H., 2009).

Nesse cenário, os Tanques de Evapotranspiração (TEvap), conhecidos no Brasil desde a última década do século 20, poderia surgir como uma alternativa capaz de dar uma destinação adequada, ou menos inadequada, ao esgoto sanitário das áreas onde não exista coleta, contribuindo para reduzir, ou evitar a contaminação do solo e dos recursos hídricos, reduzindo assim o risco de propagação de doenças provocadas pela ausência de saneamento básico, tanto em humanos, quanto na fauna domestica ou silvestre.
O sistema constitui-se de um tanque subterrâneo, com interior totalmente impermeabilizado, para onde será carreado o esgoto. Também deve ser colocado alguma material que facilite a dispersão das águas negras em todo interior. Uma boa saída é utilizar pneus inservíveis, dando assim uma destinação mais nobre, também, a eles. Por fim acrescenta-se a velha combinação de entulhos com blocos grandes (pedras, pedaços de tijolos, etc, pedras menores e terra, do fundo para a superfície respectivamente). O sistema se completa com a plantação de espécies de raízes rasas e folhas largas como bananeiras e taiobas, eficientes em realizar a ciclagem dos nutrientes e a evapotranspiração, filtrando a água contaminada e jogando-a, limpa, na atmosfera, melhorando o microclima local e encerrando o ciclo da água no próprio sistema. As plantas mineralizam as águas sanitárias,  eliminando continuamente os elementos patogênicos. E, claro, devemos levar em conta que a introdução de espécies utilizadas na alimentação, como bananas e taiobas, pode representar pequena melhoria na qualidade de vida das famílias envolvidas, além da possibilidade de poder contribuir para melhorar a estética da paisagem local, se for tratado jardim.
No entanto o modelo encontra grande resistência, em parte por sua simplicidade, em parte por ser uma solução que pode ser implementada sem demandar grandes licitações e, sobretudo, devido ao medo que algumas pessoas tem com relação à saturação do sistema, e à qualidade dos alimentos cultivados na superfície dos tanques.
Quanto ao risco de saturação precoce, há várias recomendações de dimensionamento que garante vida útil bastante longa, e mesmo após a desativação, o sistema terá convertido quase todo esgoto recebido em nutrientes e vapor de água, restando apenas o resultado dos últimos dias de utilização, que permanecerá restrito ao tanque, e em pouco tempo também será reaproveitado. Ou seja, o próprio sistema neutraliza os riscos de contaminação, em caso de saturação ou encerramento das atividades.
Já quanto ao medo de as espécies plantadas se contaminarem, ao absorver os nutrientes presentes nos esgotos, estudos como os conduzidos pela doutora Paula Loureiro Paulo, da UFMS, que testou o sistema aqui proposto, verificando inclusive a qualidade da água, do lodo e do solo no interior do tanque, comparando com parâmetros largamente aceitos, e com amostras obtidas do lado de fora dos tanques, e que mostraram que, em se aplicando as medidas de higienização recomendadas à todas as hortaliças, não há nenhum risco em se utilizar a produção dos TEvaps para alimentação.
Se perdermos nosso preconceito, pararmos de querer obter lucros financeiros e eleitorais em toda obra executada, e olhar mais de perto para os problemas da parcela mais vulnerável da população, iremos encontrar soluções simples e eficazes. Como esta, onde o aprimoramento de uma ação que assisti ser utilizada muitas vezes na Baixadinha da minha infância, pode ajudar a evitar muitos problemas, ou mesmo salvar algumas vidas.


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