20 de mai de 2010

Ja que a Copa vem aí, uma volta à 1994 - Da Série Pequenos contos...

O Melhor do Tetra

O Sol da tarde ardia forte. Sentado na barranca do riacho, com os pés dentro d’água ele parecia pescar.

Estava ali a mais de duas horas segurando a vara, com o anzol submerso. Prestava pouca atenção na pescaria. Era mais interessante olhar a paisagem a sua volta.

Uma mata pequena, o “próprio” riacho, que ele julgava ter as águas mais cristalinas do mundo inteiro, sua pequena roça, que agora era de feijão, uma grande horta, o quintal com vários “pés de fruta”, com pouco de cada, mas muitas variedades. Mais acima sua casa, um rancho de pau-a-pique coberto de palha e com quatro “cômodos” apenas, mas que pra ele era um castelo.

Morava ali há quase vinte anos e, todas as vezes que via esse quadro sentia uma grande onda de felicidade e satisfação.

Sua distraída concentração foi quebrada pela voz de seu filho de oito anos. Único filho.

– “a mãe mandô falá que já vai cumeçá”, disse o garoto e, no mesmo instante, voltou a brincar com brinquedos feitos ali mesmo. Troncos de madeira, corda, arame, papel.... Nada de eletrônicos que brincam sozinhos. O garoto tinha saúde, amor, boa alimentação, estudava na escola da fazenda vizinha e era livre.

O moço olhava o filho brincar e quase não era suficiente para caber todo orgulho de si mesmo, da família, da pequena porção de terra onde vivia (adquirida com muito trabalho) e do seu país, o Brasil.

Ele era muito feliz e chorou sorrindo. Faria daquele garoto senão um doutor, pelo menos um grande homem, pra engrandecer ainda mais sua gente.

Passou água no rosto, recolheu o anzol e pegou o “jiqui” com os peixes que havia pescado. Ele sorriu e seguiu em direção a casa. No quintal apanhou um punhado de milho para pipocas, que secava. Entrou, pediu pra esposa “tratar” do peixe, e foi estourar as pipocas. Depois de prontas, pegou um copo com aguardente, sentou-se à mesa rústica, de madeira e aumentou o volume do rádio à pilha que já estava ligado.

– “Rola a pelota aqui nos Estados Unidos da América”, disse o locutor antes que ele se ajeitasse direito no tamborete de três pés.

Era dia 17 de julho de 1994, domingo, 5:00 horas da tarde. O mundo estava voltado pros EUA, pra final da Copa 94 de Futebol. O nosso futebol, apesar da copa ser lá. No gramado, dois dos países mais tradicionais neste esporte, Brasil e Itália.

O moço vibrava a cada lance narrado com mais empolgação pelo locutor. Ficou nervoso, bateu na mesa, comeu pipocas e tomou cachaça. Já ia pedindo pra que Deus ajudasse o Brasil ganhar quando, apoiado em sua humildade e total ausência de egoísmo, se lembrou que o Deus que o havia criado é o mesmo que criou os italianos e, por isso não “empurraria” nenhum lado.

A cada minuto ele ficava mais tenso e mais relaxado. Adquiria mais confiança e medo.

Em meio a tanta agitação ela tentava imaginar como seria a Itália. Como os italianos eram e falavam.

- “será que eles tamém bebe pinga?”, pensou.

Apesar dos seus quarenta e oito anos e fartos conhecimentos acerca de tudo que diz respeito à terra, e à produção agrícola, Sebastião Oliveira nada conhecia sobre geografia e a divisão política mundial. Nunca freqüentou uma escola e, o mais distante que foi de, onde nasceu era a casa onde estava morando (8 léguas). O único estrangeiro que conhecia era o Japonês Hiroshito, “Seu xito”. Famoso na região por sua produção de legumes.

O tempo ia passando lentamente e o “sofrimento” parecia não ter fim. O tal gol, teimoso, não saia.

Terminou o tempo normal. Terminou a prorrogação. Terminou as pipocas e o Sol se pôs. Ia ser pior ainda.

Quanta vibração e decepção com os pênaltis perdidos. A cada nova cobrança prendia a respiração. Sua esposa lhe trouxe o jantar. Arroz, feijão, salada e peixe frito. Tudo produção própria. Ele não comeu. Esperaria o final sem perder um lance.

Já era noite quando o “melhor jogador do mundo” se preparou.

Ele torceu.

O craque errou.

O pequeno barraco não coube aquele homem que, mesmo sem saber o tamanho do mundo, nem mesmo do Brasil, mesmo sem conhecer política, geografia ou economia ou mesmo futebol (não torcia pra clube algum), vibrou com tanta intensidade, abraçou a esposa e o filho. Pulou, gritou, sorriu e, mesmo crendo na imparcialidade Dele, agradeceu a Deus.

Tomou banho, jantou, sentou-se no “terreiro” e contemplou a beleza da noite, com suas sombras e sons e as estrelas. Sempre com muita fé e humildade, voltou a agradecer ao Criador por seu país ter conseguido mais essa vitória. Orou pedindo paz e pão para o povo de seu país, e para todos os povos da Terra.

O orgulho de ser brasileiro no peito deste homem não é de agora, nem tem no futebol sua causa maior. Ele sempre teve esse orgulho e a causa era bem mais simples: ele é brasileiro, e pra ele este era o melhor país do mundo. Em tudo, e sempre.

Ele brincou com o filho e beijou-lhe o rosto. Beijou sua esposa e fizeram amor, como sempre faziam, com muito amor.

Falaram do dia, dos porquinhos que nasceram, da nova roseira que desabrochava e de outras coisas corriqueiras, como estas. Quando estavam quase dormindo se falaram, como em todas as noites dos últimos 27 anos, a frase mais bonita que ambos conheciam, mas falaram e falam, não por ser bonita, mas por ser a que mais se aproxima (embora seja de longe) de seus sentimentos. Disseram um ao outro – “eu te amo”, e dormiram felizes, como sempre dormiam.

Segunda-feira, 18 de julho de 1994, após as 6 da manhã qualquer pessoa que passar por ali verá a cena mais comum da região. Verá um garoto brincando com brinquedos simples, uma mulher cuidando da casa ou da horta (no campo os afazeres domésticos são maiores), e um homem na árdua lida com a terra.

Eles trabalham muito, mesmo assim o cansaço é sempre menor que a alegria. Muito do pouco que produzem é vendido na feira livre do vilarejo mais próximo, e nada os satisfazem mais que a sensação de estar ajudando a matar a fome de sua gente.

Quem olhar verá que tem pele bronzeada, corpo suado, cuidado com a natureza e sentimento nobre neste povo, que não é apenas “tetra”, mas sim, eternos campeões.

3 comentários:

  1. Rapaz... gostei também! Consegui imaginar tudo, afinal esse tudo se passou em uma "cena mais comum da região".
    Só não consegui imaginar o nosso lavrador comendo pipoca e a senhora.

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  2. Mocinho... você anda como vinho!!
    nunca li algo tão simples, e ao mesmo tempo tão rico e bonito...

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  3. MARAVILHOSO COMO SEMPRE... OS "DOIS SEGUNDOS" QUE ME DESTE JÉ ESTÃO PASSEANDO POR AQUI E MÃO EM MÃO... ^^

    OBRIGADA POR CONTINUAR A ESCREVER.

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