10 de set. de 2023

Solidão aromática

Borbulhante, a água ferve

Sem pressa, preparo meu café.

O aroma preenche o ambiente.

Em mim, um vácuo impreenchível

Vastidão sombria

Silêncio ensurdecedor

Nem calor, nem frio

Inércia de sentimentos

Respiro,

              Estou aqui

Apenas eu,

              e todos os meus fantasmas

Que observam,

              entre a pena e o escárnio.

Nem se metem mais.

Eu, sozinho, faço tudo

Inclusive esse café delicioso

Que,

              por ora,

é o que anima essa minha desprezível vida.


Reconstrução

Aqui estou, outra vez

Refazendo o exercício de me sentir em casa

Em lugar totalmente estranho.

Como os próprios sentimentos, às vezes.

E, outra vez, minha velha vida tenta se disfarçar de nova.

Pra me surpreender ou assustar.

E novamente ela consegue.

As novas ausências,

Agora muito presentes,

Preenchem,

Doem

Sangram...

Dor outras vezes sentida.

Lagrima matando, novamente, essa sede indesejável.

Quase reconheço o novo trecho

do caminho já trilhado.

Novamente o nó

O amargo

O salgado

O soluço

A solidão.

Miseravelmente experiente

Sei que o escuro vai passar

O ar, voltará aos pulmões

A leveza, aos momentos

E, quem sabe, aí

Nesse momento,

Nova entrega

Como quem não aprende a lição

Tantas vezes ensinada

Ou como quem assume,

Por escolha,

A opção pelo amor

O gosto pela paixão

E essa preferência

Pela certeza da imprecisão.

Novamente não foi pra sempre.

E, será um dia?

Queimando, como queimou

Tão intenso

Extraordinário

Infinito

Admirável foi o tempo que durou

Esse metafísico combustível

Me trazendo novamente aqui.

Onde nunca estive tantas outras vezes

De onde espero não sair

Mas, sabendo ser impossível,

Pra onde desejo não voltar...

Novo estágio

Não me cabe mais, a roupa que agora visto.

Completamente roto,

O reflexo no espelho.

Esse cabelo, não era meu até a pouco.

Uma barba me cobre a face que sempre carreguei.

Meus olhos, já não me servem, como antes.

Mesmo assim,

Com cuidado,

Me reconheço nesse estranho ser.

Deve, mesmo, ser eu, pois me sinto nele.

Os caminhos que o trouxeram de mim.

Caminhei com outros pés,

Antes vívidos, rápidos, confiantes e seguros.

Hoje, trôpegos, lentos, incertos e inseguros.

Na testa, o pó de tantas estradas.

No bolso, lembranças, saudades.

Memórias de uma vida.

De várias vidas,

Já vividas, registradas em cada marca no rosto.

Em cada sinal do tempo.

No cansaço visível,

Nas lágrimas felizes pelo amor da infância e pela última grande paixão.

E por todos os amores vividos entre esses.

E em toda resignação de quem já não briga com a vida.

Nem se assusta com a proximidade da morte.

Resultado das duras jornadas.

Roto,

Cansado,

Empoeirado.

Cabelos albinos e olhos embotados.

Assim o vejo.

Quase não reconheço

Mas aqui estou eu,

seguindo,

cada vez mais lento,

para o próximo que ainda serei.


23/05/2021

Livre

Solidão aqui

Em tudo.

Escura, a noite pesa.

La fora, o vento gelado aquece um pouco o frio em mim

Insetos

Anfíbios

E alguns pássaros noturnos quebram o silêncio.

E a saudade

E a vontade de me aquecer em você

E esse desejo de beijar seus lábios.

Grandes e vermelhos lábios

E de aspirar seu hálito

E beber você.

La fora, a negra imensidão assusta

Aqui, essa cama infinita.

Vazio imenso.

Desejos, saudade, medo...

Tesão, carinho, abrigo, riso fácil, aconchego...

Tanto tudo agora

Sensação, sentimento, emoção, desolação.

E segue fria e escura, a noite

Infinita noite.

Eu, perdido

Você, longe

E o calor de seus grandes lábios não me aquece agora.

E me sufoca, todo esse ar.

E me prende,

E tortura,

A liberdade que,

Como sabemos,

É apenas uma agridoce ilusão.


Recanto da Família Matos

Bonfinópolis, GO

Maio/2021

Abismo

Cansada, ela procura repouso.

Busca em si mesma,

Em lembranças recentes

E em histórias distantes.

O velho sofá ainda meio confortável

A velha cama, ainda acolhedora,

Mas, agora, assustadoramente grande

E o sono se perde.

Solitária, ela vasculha gavetas e pastas, em busca de algum sinal de companhia.

Encontra vazio.

E a certeza de que certos encontros não trazem nada, além de mais vazio.

Angustiada ela chora.

E suas lágrimas também molham minha face.

Minhas feridas ainda doem.

Algumas ainda abertas.

Em sua lâmina, ainda escorre meu sangue.

Mesma lâmina que a faz sangrar agora.

E sua dor, apesar da minha, doe também em mim.

 E causam outras dores.

Misto de tantas coisas.

Profusão de sentimentos.

Certeza da distância

Aceitação do fim

Negação de verdades...

E, se nem toda estrada é caminho

Da mesma forma, nem todo caminho é paralelo

Ou se cruza novamente.

Mas ela chora

E eu escolho acolher

Compartilhar

Procurar entender

E não mais julgar.

Abraçar.

Mesmo à distância

Mesmo que longe pra sempre.

Mas abraços são refúgio,

E por tudo, e tanto,

O meu estará sempre aqui.

Sempre aberto.

E, do meu lado

Sigo torcendo para que o tempo de chorar termine logo

E não volte nunca mais.


Com carinho, Naza

À sombra da coroa

O silêncio pesa,

Ensurdece,

Congela.

Na garganta, um balão flutua,

Sufocando,

Impedindo o ar,

O choro,

A vida,

            Matando.

Meu abraço, preso.

            Talvez pra sempre.

Presos, todos nós.

            Em casa,

            Em nossos medos

            Em cegueiras absurdas

            Em esperanças incertas.

E a coroa se impõe,

            Subjuga,

            Oprime,

            Mata.

Mais uma vez uma coroa mata.

Dessa vez, sem bandeira

Sem distinção,

Sem fronteira a defender

            Nem a ampliar.

Apenas mata.

Meu lar virou fortaleza.

Minha quietude, resistência.

Ficar em casa, a melhor ação.

E meu silêncio grita,

Ecoa alto...

Por uma fresta, com pouca luz,

Fito lá fora, que o velho mundo não existe mais.

Independente das vontades,

            Da minha ou da sua.

À sombra da coroa o mundo muda.

Aqui, rumino meu balão

E tento sobreviver ao peso desse silêncio...


Caiapônia, GO

12/05/2020

Kamikazes

Enganosamente aparente, a calmaria

Camufla sangrenta guerra em curso.

Pacífica falsa realidade.

Artificial paz.

Trincheira em toda parte

Combate em várias frentes.

 

Nos enganamos,

Fingimos não só a paz,

         Mas, tranquilidade,

Harmonia,

Bucolismo.

 

Combatentes, todos nós

Inimigos, todos mais.

E um além,

         Invisível,

         Implacável.

         Silenciosamente mortal.

 

Na busca do autoengano

Tentamos uma egotrip

Viajando para dentro,

Circunstancial kamikaze

Buscando autoconhecimento.

 

Levados pelo clima de agora,

Não percebemos o grande risco.

Pilotamos nossas naves em angustiosa viagem.

Como destino, o próprio ego.

 

Mas não seguimos em planador,

Balão de gás

Ou zepelim.

Pilotamos, cada um, nosso próprio Enola Gay

Levando a bordo, o adulto em conflito,

Acariciando adormecida criança

Prestes a acordar.


Caiapônia, GO

23/06/2020