5 de dez de 2012

Sobre marcas eternas e referências perdidas


Me mudei pra Mineiros quando tinha cerca de cinco anos.
Moramos, eu e meus pais, com minha avó materna por alguns meses. Poucos meses. Depois em alguns barracos na cidade, até chegarmos onde passei a maior parte da minha infância e toda adolescência. Na verdade só saí da "baixadinha" depois de adulto.
Quando chegamos não existia casa. Era só um terreno pequeno, em um loteamento que ainda estava sendo vendido. Minha mãe se esforçou muito pra conseguir garantir o nosso. O loteamento era dos padres beneditinos, e eu acompanhei minha em sua "via crucis", indo diariamente à casa paroquial da cidade, enfrentando uma fila enorme, de outras mães e pais de família, igualmente sem casa própria. Como era longe, e a igreja dizia que o loteamento era para ajudar famílias sem condições de comprar suas casas, o processo de análise foi rigoroso, demorado e chato. Mas enfim, minha mãe conseguiu.
Não tardamos a tomar posse, efetivamente, do nosso quinhão.
Meu pai ergueu, em um dia, um barraco constituído de três grossas toras de madeira, duas servindo de colunas centrais e uma fazendo a vez de viga, na cumeeira. Daí foi só espalhar algumas tabuas fixadas com pregos, desenhar uma porta e uma pequena janela, cobrir com telhas francesas, em duas águas, e estava pronto o que seria nosso lar por alguns anos. Vários anos. Era um único cômodo, não ocupava mais que 12 metros quadrados, mas foi mais que suficiente para suprir a falta de segurança que meus pais tinham, durante o tempo que os barracos eram alugados. Eu não entendia nada disso, lá por volta dos meus seis anos, mas esse fato deve ter trazido um bom aporte de dignidade e autoestima para minha família.
O loteamento foi, aos poucos sendo ocupados por outras famílias, em outras casas. Maioria, maiores e mais "bonitas" que a nossa. Mas e daí? Pra mim eram apenas casas. Todas eram. Mais tarde, na adolescência, fase em que, ao sairmos do mundo mágico das fantasias reais de criança, isso me incomodou um pouco, mesmo já não existindo mais o velho barraco de madeira, e sim uma grande casa de alvenaria, simples e inacabada. Por sorte a adolescência é só uma fase, e a minha passou rápido.
A "baixadinha" não tinha asfalto. As ruas eram de terra batida, como o chão do nosso barraco. Nelas nós, as crianças que aos poucos iam se mudando pra bairro, podíamos passar o dia inteiro brincando de qualquer coisa. De futebol, com golzinhos marcados com pedras e tijolos, a guerra-bandeira, passando por polícia e ladrão, caça ao tesouro, competições de saltos, e outras brincadeiras que nos fizesse a correr sob o sol o dia todo. Também tinham as pipas, digo, papagaios, feitos com qualquer papel que se conseguisse, varetas feitas por nós mesmos, de bambu e coladas com piche que buscávamos no centro da cidade. Nós não comprávamos. Bastávamos esperar um dia de sol bem forte, e com uma lata usada de qualquer coisa, ou mesmo uma colher, conseguíamos arrancar porções generosas de um trecho do asfalto.
Outro passatempo muito apreciado era as aventuras no mato. Com uma caminhada de dez minutos, já teríamos deixado a cidade cerca de dez minutos distante. Poucos quilômetros e tínhamos vários córregos e riachos, com cachoeiras, onde gostávamos de ir.
No limite da "baixadinha", logo da própria cidade, tinha o maravilhoso "esbarrancado". Era uma grande erosão que cortava quase toda extensão do bairro. Indo do ponto mais alto até chegar no córrego "da bosta". Cerca de seis quadras. O esbarrancado não era muito fundo, mas era comprido e, como éramos crianças, ele tinha o tamanho exato para um sem fim de infinitas aventuras.
A família Carrijo morava na última rua da "baixadinha", ao lado do esbarrancado. Eles já moravam lá quando nos mudamos. Eles já moravam lá antes do loteamento dos padres. Acho que eles sempre moraram lá. Em pouco tempo fiquei amigo dos mais novos da família. O "Nenêgo" já era adolescente quando eu ainda era criança. Mas ele, e toda família eram muito gente boa. Ainda são, apesar de eu não os ver, nem falar com eles há anos.
Abaixo da casa da família Carrijo tinha os Fialho, que eu adotei como uma segunda família por muito tempo. Eles também moravam no limite do bairro. Era só atravessar uma estreita rua de cascalho, pra chegar ao esbarrancado.
Entre a casa do "Nenêgo" e a casa dos Fialho tinha uma estrada que ia para as chácaras e fazendas vizinhas. Só mais tarde, quando já estava grande, lá pelos nove ou dez anos, é que eu me aventurei um pouco mais por essa estrada. Antes disso o limite era mesmo o esbarrancado.
No início dessa estrada, bem no iniciozinho mesmo, tinha uma árvore seca. Ela já estava seca na primeira que eu a vi. Ao menos é assim que eu me lembro. Ela ficou lá, seca, por alguns anos, o que para uma criança equivale a quase décadas. Era uma referência de localização: "Onde nós vamos nos reunir na volta pra casa?", "uai, lá na árvore seca".
Aquela árvore estava morta, eu tinha certeza.
Anos mais tarde, continuávamos brincando no esbarrancado, e eu já andava por quase toda extensão da estrada do seu Sete. Só não ia, ainda, até a pedreira que ficava no final dela. Lá era um tipo de local proibido. Um belo dia, lá pelo mês de novembro, quando voltava lá das bandas da chácara da dona Dórva, eis que eu me deparo com uma coisa totalmente inusitada. A árvore seca estava completamente coberta de folhas verdes. Com novos galhos. Plenamente saudável. Me assustei. Parei admirado, e sem entender.
Me disseram que era uma aroeira. Eu não tenho certeza. Era apenas uma criança, e não era engenheiro florestal, nem mateiro. A bem da verdade, hoje eu também não sou nem um, nem outro. O mais próximo de mateiro que cheguei foi quando pensei em ser botânico, ou quando era criança mesmo. O Fato é que a velha árvore nunca mais secou. Não se tratava de uma espécie caducifólia. Ela não perdia as folhas no outono, ou no inverno, pra recuperá-las na primavera. Ela simplesmente ficou seca por anos e, um belo dia me apareceu refeita.
Durante muito tempo aquela árvore continuou sendo referência para mim, mas não mais apenas como referência de localização, mas de força e poder de regeneração.
Eu Já era jovem quando o asfalto chegou na "baixadinha", e quase adulto quando o esbarrancado deu lugar à uma avenida de duas pistas, e foi batizada de avenida contorno. Eu não usava mais piche para fazer meus papagaios. Na verdade, nunca mais empinei uma pipa, depois que passei pela adolescência (é, talvez ela não tenha passado, assim tão rápido, por mim). Mas continuava frequentando a casa dos Carrijo (os Fialho se mudaram depois de alguns anos, pro outro extremo), e a velha árvore continuou lá, verde, forte e viva por todo tempo que eu continuei frequentando aquela parte da "baixadinha".
No dia três de novembro de 2012 meu amigo Demerval, um paranaense que viveu em Alto Araguaia e Alto Taquari, no Mato Grosso, que eu conheci em Mineiros, e que hoje vive em Cachoeira Paulista, não por razões de fé, mas pelos mistérios da ciência, se casou (espero que pelas razões misteriosas do amor). O Enlace foi em Mineiros. Eu fui padrinho. Então estive lá, depois de vários meses. Acho que uns 18 ou 20.
Me hospedei na casa da irmã que ainda vive lá. Não mais na "baixadinha". Ela nunca gostou, e eu entendo.
Visitei alguns amigos, outros não encontrei.
Como não podia deixar de ser, passei um tempo com dona Pequena, sempre o melhor momento dos esporádicos retornos àquela cidade, que ainda gosto muito. Mas que já gostei bem mais.
Antes do casamento do Demervas, resolvi fazer um passeio pelo meu antigo reduto. Quis saber como está a boa e velha "baixadinha".
Qual não foi minha surpresa ao ver que os loteamentos já chegaram à velha pedreira, e que a estrada do seu Sete agora é uma avenida asfaltada. Tem asfalto até quase a "chácara velha", local onde, no tempo certo, íamos buscar manga comum, pra comer, fazer doce ou deixar perder em nossos quintais.
Agora tudo é asfalto, casas, comércio...
Ao menos parte da família Carrijo continua lá. O Nenêgo, não sei por onde anda. Mas está vivo, disso eu sei.
Uma coisa, porém, novamente me abalou, ao entrar na estrada que começa logo abaixo da casa dos Carrijo, antes da casa onde moraram os Fialho. A velha árvore não está mais lá. Ela que era pra mim sinônimo de força e sobrevivência, não resistiu à força do progresso. Sucumbiu na luta do homem por avanço e modernidade.
O casamento do meu amigo foi divertido, desconsiderando minha dificuldade de entendimento com a moça escolhida pra me acompanhar no apadrinhamento. Me diverti bastante. Encontrei bons amigos. Dancei, cantei, comi, bebi, trabalhei e cortei o colete. Mas a sensação de ter perdido mais uma referência esteve comigo o tempo todo. Está aqui ainda, e agora mesmo.
Dona Romana já não está entre nós. O Povoado do Cedro está sendo alcançado pelos loteamentos e condomínios. Logo perderá o pouco de suas características originais, que ainda possui. E, ali, espremida entre as mansões do Bairro Martins, outra referência minha vai perdendo forças. Seu pequeno quintal ainda é um tipo de oásis de simplicidade, simpatia, a conchego e biodiversidade vegetal. Ela não tem lá uma aroeira, ou seja lá que árvore era aquela. Mas, como ela, vem resistindo às pressões do progresso, sobretudo do mercado imobiliário. Mas, até quando?
Em breve ela não estará mais entre nós. Afinal as pessoas vivem menos que as árvores, se essas não forem derrubadas prematuramente.
Da velha árvore da "baixadinha" não restou nada. Da dona Pequena pode restar a coleção de plantas, o conhecimento, as histórias e os causos. Só precisa que a cidade reconheça a importância do seu legado. Ainda há tempo para catalogar conselhos, receitas e ensinamentos. Gravar prosas e boas estórias. E, o auge da minha vontade, e dessa campanha, tombar a pequena casa da esquina das Avenidas sete com Segunda Avenida, e transformá-la em um museu, dedicado à memória de dona Pequena.
Em alguma parte de mim, junto com algum torrão de piche, grudado para sempre, está a lembrança da boa surpresa que uma velha árvore, que eu sabia morta, pode causar a uma criança, pelo simples fato de manifestar, tão explicitamente a vida. Aquele é um dos momentos que nunca sairão de mim. Ela não está mais lá na "baixadinha", mas ainda é uma referência.

5 comentários:

  1. Muito legal, minha infancia também é repleta de arvores que infelizmente não existem mais!

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  2. Ela não está mais lá, está em você, eternamente. Lindo texto, Naza. E eu sei bem como é difícil rever lugares que não vemos há longos anos, pois além das interferências humanas, a imagem que está na nossa memória é sempre mais bela, mais poética, e há o risco de destruirmos isso ao voltarmos a esses lugares.

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  3. Os lugares mudam você,
    Você muda os lugares,
    Os lugares mudam as pessoas,
    As pessoas mudam os lugares,
    Você muda as pessoas,
    As pessoas mudam você.
    A única coisa que não muda é que as coisas sempre mudam.

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    1. É,Demerval.
      Você tem razão. O que não muda, nesse mundo, é a perenidade das mudanças!

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  4. E é por essas e outras meu amigo que não fico muito tempo sem ir até lá , para não assustar tanto, mesmo assim parceiro ,quando me ponho a recordar me entristeço em ver que aquele mundinho tão pequeno que se fazia tão grande (pra gente que vivia nele) acabou , já era ; No entanto fazer-se o quê ? afinal também fazemos parte desse processo de constantes mudanças.

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