12 de out de 2011

Sobre lutas verdadeiras e falsas conquistas


Amiga Lidi me envia um texto do Ivan Martins, editor-executivo da revista Época, intitulado “Solidão Contente”.
O texto fala do fato de as mulheres serem felizes sozinhas. Que nem sempre, segundo o autor, a solidão é falta de opção mas, em muitos casos, é a opção da mulher.
Cara Lidi, gostei do que li. O Ivan escrever de uma forma suave, que torna a leitura muito leve e atraente (confesso que nessa linha, ainda prefiro os textos do Fábio Hernandez). Mas, quanto ao conteúdo, concordo apenas em partes com ele.
Sei que as mulheres se bastam muito mais que nós, pobres seres dotados de testículos. Sei que vocês, são muito cheias de coisas, com as quais se envolverem, aí mesmo, dentro de vocês (dentro não necessariamente de seus corpos, mas de seus mundos pessoais). Já nós, fomos esquecendo essas “coisas” pelo caminho, ao longo dos anos, desde que surgimos nesse torrão azul, ou desde que tivemos uma costela extirpada e ganhamos uma companheira.
É verdade que mulheres gostam de passar horas cuidando de si mesmas. Que se divertem com seus cremes, alicates, pinças, esmaltes e blanches. Que podem ficar o dia todo na companhia de um livro, e a noite abrir uma garrafa do seu chileno preferido, e tomar vendo filmes na TV, apenas consigo mesmas.
Quem, em nossos dias, ainda não saiba que isso é verdade? É, eu sei, muita gente. Melhor dizendo, muitos homens (e, também, algumas mulheres). Mas basta observar com atenção que todos podem perceber esses momentos de felicidade solitária, ou de “solidão contente”, como o Ivan chamou.
No entanto, minha amiga, uma observação mais cuidadosa ainda, vai revelar outras características de muitas mulheres dos nossos dias.
O mundo mudou. Nós mudamos com ele. Mas vocês, mulheres, mudaram muito mais que nós. Uma coisa porém não pode ser ignorada. Em nossos dias todos competem com todos.
O mundo moderno, leia-se mercado capitalista, se transformou em um campo de batalha mais cruel e mortal que as antigas arenas romanas. E está nos tornando animais capazes de tudo para sermos os vencedores a cada batalha/dia.
Nem sempre o destino do derrotado é a morte, e nem sempre o prêmio do vencedor é algo que engrandeça (nos contentamos com reconhecimento fugaz e vazio, e com bugigangas caras, e sem nenhum valor). E, às vezes para ser premiado, é necessário perder. Perder a dignidade, o amor próprio, o respeito, o caráter, os valores e princípios e a chance de fazer diferença na construção de um mundo melhor.
E eis que aqui estamos. Cheios de coisas pra fazer. Sem tempo para a família, para os amigos. Sem tempo para almoçar tranquilamente ou para ouvir um amigo. Enfim, não temos tempo para sermos felizes. Temos que correr. “Afinal, tempo é dinheiro”, certo?
Acontece, porém, que o homem sempre foi dado à competição. Afinal vem sendo distorcido e moldado ao longo dos tempos. Já a mulher não. Isso para vocês, é coisa nova. Mas já que lutaram por igualdade, não podem decepcionar, não é mesmo? Precisam dar o melhor de si. Precisam ser competitivas e competentes. Tem que corresponder.
Mas, corresponder a qual expectativa? Não decepcionar a quem? Claro, se eu parar para ouvir as respostas a essas duas questões, vou ouvir variações do mesmo tema. E vou ouvir respostas diferente também, claro. Mas minha observação mostra que a maioria dará respostas que apontem para coisas externas a elas. E, quando é diferente, percebe-se que está caminhando em direção errada. Afinal de contas, como já assinalei, nossos esforços buscam comprar nossa felicidade e realização em coisas que não podem nos fazer felizes de fato.
E toda essa competitividade, e busca por igualdade, tem tornado as mulheres seres muito menos emocionais e afetivos do que já foram um dia.
Sim, toda mulher precisa de um tempo só pra ela. Carece passar um tempo em sua própria companhia. Se curtir. Ouvir seus sentidos falando sobre como estão percebendo o mundo. Auscultar seu corpo e sua alma feminina, conhecer melhor a nova mulher que é a cada dia e, assim, poder analisar os caminhos pelos quais anda caminhando. Acontece que a mulher moderna, essa competitiva, que tanto agrada ao mercado tem optado cada vez mais pela solidão. E essa opção deixou de ser totalmente voluntária. É muito mais uma construção mercadológica. Na mesma proporção, a solidão perdeu assas dimensões lúdicas, terapêutica, saudável. De diálogo introspectivo, autoconhecimento e crescimento interior. Os fones de ouvido e sons estridentes não permitem que se ouça as vozes do seu silêncio, não é? E têm os celulares que não podem ser desligados, os e-mails que não param de chegar, os anúncios lhes dizendo como devem ser e o que precisam comprar. É, cada vez mais se fica sozinha, sem a própria companhia.
Os homens há muito se tornaram máquinas. Meras ferramentas de produção. As mulheres estão se tornando agora. E, por mais que eu procure não ser machista, e defender as lutas por igualdade de direitos, e pela “emancipação” feminina, não consigo fazer de conta que não percebo os efeitos colaterais desse movimento, e todas as consequência danosas para toda sociedade, e para o planeta. Já escrevi algumas vezes, e disse tantas outras, que a parte das grandes mazelas sociais que experimentamos hoje, tem origem exatamente aí, nessa luta. Não nas conquistas, mas em como temos encarado tudo isso. Não vou abordar esse ponto. Esse viés fica para outra divagação.
O foco aqui é a felicidade. Ou melhor, a distorção do que venha a ser felicidade, sua grande ausência e enorme dificuldade em encontrá-la hoje.
Vejo mulheres bem resolvidas, independentes, cultas, cheias de conhecimento e desenvoltura, se firmando como diretoras de empresas, coordenando grandes projetos e se elegendo presidente (de escola de samba, de corporações, de clubes de futebol e do Brasil). Mulheres que estão sempre mostrando firmeza e autoconfiança, se o local é seu trabalho e se o assunto são os negócios. Mas que se mostram meio perdidas, se precisam lidar com a família, com amigos. Conheço também jovens lindas, gostosas, sedutoras, que sabem fazer caras e bocas, dançam nas pistas de toda noite, e “pegam” todos os caras que querem. Mas que é melhor não olhar para seus olhos, pois será fácil perceber a presença constante da tristeza. Tristeza que está presente nos olhos executivos, de grande maioria das grandes profissionais.
Mas, quem sou eu para expressar essas coisas, não é mesmo? Ta certo, não sou sociólogo, historiador, nem sexólogo, psicólogo, olheiro de agência de moda. Também não sou cafetão, diretor de empresa de recolocação profissional, nem jornalista barato, como se intitula Fábio Hernandez (Humm, pensando acho que isso posso dizer que sou, afinal meus escritos não me rendem nenhum dinheiro, e jornalista, bem vocês sabem, STF, tal...). Sou apenas um homem que reconhece a força da mulher, e por isso mesmo se entristece ao ver tristezas em seus olhos.
Mas também sou homem de me emocionar. De chorar de alegria e de tristeza. De sentir saudades e ligar pra ouvir a voz. De querer sexo pela manhã ou apenas companhia tranqüila. E de querer ficar sozinho às vezes. Fazendo nada comigo mesmo. Cuidando de mim. Lendo ou brincando com o Putz e a Capitu. Vendo bobagens na TV e, ouvindo o que eu tenho para me dizer. Sabe por que, amiga Lidi, porque, apesar de termos nos esforçado para nos estragar, nos tornando os seres quase disformes que somos hoje, nós homens ainda mantemos parte da nossa essência. E essas necessidades, e capacidades de ficar sozinho, também existem em nós.
Gostar da própria companhia, querida, também é coisa de homem.
E, independente de ser conosco mesmos, ou com os outros, está mais que na hora de resgatar a qualidade de nossas relações.

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