4 de set de 2010

Sobre limitações autoimpostas e a redução do universo

Não sei como isso começou. Minha pouca idade, e a falta de um esforço pessoal de pesquisa, somado à ausência de registros históricos sobre o assunto, justificam minha parcial ignorância. Digo parcial porque, apesar de não saber como começou, nem conhecer os motivos, eu reconheço o fato e admito que faço parte do contexto. Isso já permite me considerar, de certo modo, privilegiado.
Estou falando das grandes limitações que, quase todos nós, temos. Não estou me referindo às limitações físicas. Mas aos grandes bloqueios mentais que, voluntariamente, e com grande auxílio de nossos “mestres”, nos impomos, e que nos acompanha por toda vida. Em muitos casos, impedindo as pessoas de serem plenamente felizes e realizadas.
Sei que vai parecer exagero meu. Mas por favor, analise com cuidado e me diga se realmente é.
As limitações de que estou falando são àquelas ligadas à nossa capacidade de aprendizagem, compreensão e abstração de todas as áreas do conhecimento. Sobretudo à matemática, e tudo que dela deriva.
Me responda você, quantas pessoas você conhece que afirma categoricamente que “não consegue aprender matemática”? E quantas afirmam, de forma mais direta, e objetiva, que “não gostam dessa ‘matéria’ nem de nada que seja ligado a ela”? Por certo são várias, não é mesmo? Possivelmente seja assim também (espero que não). E quantas vezes você já ouviu alguém que, em se encontrando em Goiás, referir-se à região amazônica por “la em cima”. Dizemos isso por termos aprendido com nossos pais e professores, e por ver, em todos os mapas, a região norte acima da região sul. Mas, se a Amazônia está acima do Cerrado, então nosso tão querido rio Araguaia desrespeita a lei da gravidade, e corre para cima? (por que temos sempre que desenhar nossos mapas na mesma posição, se o universo não tem piso nem teto e nosso planeta é redondo?).
Como disse, sei que pode parecer exagero, mas o fato é que perdemos, em algum lugar, no temp e nos espaço, nossa capacidade de imaginação complexa. De fato desaprendemos a pensar. E se assumo que “desaprendemos”, é por admitir que já soubemos. E soubemos mesmo. Para confirmar isso basta olhar nossa história, e veremos os grandes feitos conseguidos em épocas onde tudo de que os pensadores dispunham era sua capacidade de raciocínio, grande imaginação, cresça em suas intuições e muita vontade de desvendar os segredos do universo (e da vida).
É fácil botar a culpa no sistema educacional, e seu esforço em criar pessoas quase mecanizadas, altamente preparadas para o mercado de trabalho, e quase nada preparadas para a vida. É a lógica capitalista que precisa de mão de obra capacitada para “apertar parafusos”, somada à necessidade imperialista (quer interna ou externa), onde os dominados (ou colonizados) não podem aprender a questionar os acontecimentos.
Em uma análise com a visão simplista e reducionista de parte limitada da chamada “esquerda”, essa é a resposta, e bastaria uma pretensa “revolução” para resolvermos essa questão.
Mas o fato é que a questão é muito maior, mais séria e com conseqüências mais severas na vida de todos nós. Conseqüências essas que extrapolam o universo político. Claro que tem reflexo direto aí. Mas não se resume à esse aspecto.
Não se pode, eu acho, culpar o sistema educacional, pois nesse caso, em minha opinião, ele é, ao mesmo tempo, causa e conseqüência. Em um visível processo iterativo e retroalimentado.
Sim, o nosso sistema educacional é culpado por ter deixado perder algumas de suas melhores, e principais, características. Ou você ainda acredita que nossas universidades se mantêm “universalizantes”? Não, não é! E cometemos um grave erro ao compartimentalizar tanto o conhecimento, e buscar com tanto empenho especialidades cada vez mais pontuais. Uma coisa leva a outra e, nos tornando especialistas, encurtamos significativamente nossos horizontes. E reduzimos nosso universo ao tamanho do tema estudado, quer seja uma molécula ou uma variedade de grão para agricultura.
Mas as mudanças percebidas no ensino superior (definitivamente acho que o termo “universidade” talvez não seja mais adequado), também ocorreram no ensino básico. E como tudo começa aí, nossos jovens, ao chegarem no ensino médio, estão preparados para optarem por qual especialidade escolherá. Ou seja, já estão completamente limitados pela forma como o conhecimento lhes foi passado, ou pelo fato de que algumas coisas foram simplesmente deixadas de lado.
Somos uma geração que não consegue compreender o mundo em sua totalidade. Pior ainda, não conseguimos enxergar todas as características do universo em que vivemos, e da nossa própria vida.
Daí advém a nossa incapacidade criativa e nossa aceitação de limitações que, de fato não existem, mas nas quais acreditamos possuir, e nas quais baseamos toda nossa vida.
Nossos talentos hoje são definidos não pelo que poderíamos ser capazes de fazer, mas, muito mais, pelo que acreditamos não sermos capazes, nunca, de aprender ou realizar.
Não nos causa nenhuma admiração o fato de muitos jovens estudantes desistirem do maldito vestibular pelo simples pavor das provas de matemática, física e química. Outros tantos desistem do sonho de construir belos prédios, ou de escrever sofisticados programas de computadores, por ter que, para isso, conviver com os cálculos.
Mas a culpa não é deles. Como podemos cobrar muito de nós se, ao passarmos pela educação infantil e fundamental nos esforçamos para solidificar tais medos e para construir um universo com poucas dimensões e uma vida superficial?
Quantos de nós aprendemos, por exemplo, que o universo dos números não é apenas decimal? Para nós, tudo que há é o sistema cuja base é 10. E tudo que estiver fora desse universo nos causará estranheza e repulsa. Quando somos, se formos em algum momento, obrigados a conhecer sistemas com diferentes bases, nossa resistência será tamanha, que uma simples operação do tipo 2+2 nos parecerá impossível de compreender. Para nós o mundo é decimal. E como fomos forjados para ter medo de matemática, não conseguimos enxergá-la em nada além da própria matemática. Como se os números tivessem a única e exclusiva função de nos infernizar a vida. Ah! devemos parte disso também ao ensino da linguagem, que não tem mais nenhuma preocupação em cultivar em nós, quando jovens estudantes, as boas e velhas noções da semiótica com seus signos e significados, e tudo mais que é fundamental para que tenhamos uma boa leitura de textos e, principalmente, da realidade, próxima e distante. Abstração então, é coisa que não se exercita.
Tudo isso junto nos limita a querer restringir a matemática apenas às páginas dos livros. Não somos capazes de enxergar que todo universo é regido por leis matemáticas. Não admitimos que ela, a matemática está em, absolutamente, todos os lugares e todos os eventos. Podemos ler, e nos emocionar, belos haicais ou sonetos, sem perceber que o que os tornam belos é o rigor matemático com o qual são compostos. Na verdade até os números decimais são lidos e calculados, hoje em dia, sem que os liguemos a valores e grandezas do mundo real. E, um número que não representa algo concreto não é nada. Um número só será um número, se o símbolo escolhido para representá-lo fizer referencia à algo que existe no mundo real. Do contrário nem número é. Mas não se preocupe, isso não limita o uso dos números, afinal, tudo que existe são grandezas e valores matemáticos, portanto numéricos.
Em nosso mundo decimal não nos damos conta de que o universo e a vida são muito mais binários. Basta observar todas as inúmeras dualidades existentes, presentes inclusive em nós mesmo. Não é difícil. Aqui alguns exemplos: claro e escuro, frio e quente, bom e mau, céu e inferno, vida e morte, feminino e masculino. Logo tenho que reconhecer que a vida se passa muito mais em um sistema de base 2 do que em base 10. Mas não pára aí. Quantos de nós já parou para admirar a beleza e disciplina matemática presente em todas as composições musicais. E a música é outro exemplo de sistema diferente do decimal, afinal são sete as notas musicais, são cinco as linhas que compõem o pentagrama das partituras. Até na Bíblia Cristã, em algumas passagens nos são apresentadas citações que nos fazem crer que seus autores preferiam lidar com sistemas de base sete. Vejam, foram sete os dias da criação; sete são os pecados capitais, sete vezes seriam castigados os que agredissem o fugitivo Caim e setenta vezes sete é o número de vezes que devemos perdoar aqueles que pecam contra nós.
Se procurarmos com atenção, certamente encontraremos diversos outros exemplos de sistemas numéricos e outras formas de presença da matemática na natureza (lembro que o homem é parte indivisível dessa natureza a que me refiro, certo).
O fato é que, todos os sistemas numéricos, com suas diversas bases (naturais ou artificialmente criados), deveriam ser ensinados aos estudantes da mesma forma que o sistema decimal o é. Só isso já ampliaria a capacidade de compreensão que temos hoje, e diminuiria o susto da maioria quando, já adultos, se deparam com essa “novidade”.
Outras medidas certamente fariam grande diferença no processo de “ensino-aprendizagem”. Uma delas, a meu ver, seria o estudo matemático sempre relacionado ao estudo da linguagem e com ligação permanente com fatos, elementos e grandezas do mundo real. O exercício da imaginação, observação do universo e estudos filosóficos, seriam outros fatos que certamente ajudariam a criar pessoas mais capazes de compreender o mundo mais profundamente.
Na verdade, tenho que admitir aqui, meu sonho é ver nosso ensino superior formando pessoas capazes de compreender grandes enigmas e pequenos problemas e, sobretudo, apontar possíveis soluções.
Na verdade gostaria de que todos os professores, principalmente os da educação básica, voltassem a ser os bons e velhos peripatéticos que um dia foram os grandes mestres, ensinando nossas crianças os mistérios de todas as ciências a partir do cotidiano e do ambiente familiar a todas essas crianças.
E que ainda pudéssemos ver surgindo mentes como Platão, Sócrates, Einstein e Hawking.
Quem hoje é capaz de imaginar que, com apenas duas estaca alguém poderia descobrir que a Terra é redonda e, ainda mais, calcular a medida com uma aproximação muito boa da circunferência do planeta. Pois saibam, jovens mentes, que foi isso que fez Eratóstenes, um grego que viveu entre 285 e 194 antes do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo (outro ótimo exemplo de mestre peripatético). Em nossos dias, até para cálculos simples de adição e subtração carecemos do vital auxílio das calculadoras eletrônicas.
Imaginação, abstração, interpretação, criação, aceitação, compreensão. Essas são algumas das nossas capacidades que são limitadas pela forma como nos instruímos hoje em dia. E a limitação é tão exageradamente grande que nem os ensinamentos obviamente incorretos somos capazes de questionar. E somente somos capazes de encontrar soluções se elas estiverem explicitamente descritas em algum livro.
Que sejamos capazes de retirar nossos antolhos e ampliar nossos horizontes.
Que Deus nos abençoe e que Platão nos inspire.
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4 comentários:

  1. A principio achei que foi pessoal, muito pessoal.
    Sei que nada me adianta culpar o sistema se não tentar mudar. Mas encontrei um colega agora a pouco no ônibus e acreditamos que o problema é o "serumano" ser sucetivel a corrupção.
    Daí se não sem muda o sistema, nada se muda nem se deixam mudar.
    Meus filhos não vão pra escola, e eu não vou mais ser professora.

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  2. Outro dia li no Twitter a frase: "Existem 10 tipos de pessoas. As que conhecem código binário e as que não conhecem".
    Isso é verdade, mas veja que o sistema binário é apresentado como um código quase secreto, conhecido por poucos iniciados. Infelizmente é assim mesmo. Quando na verdade deveria ser algo totalmente comum na vida das pessoas, pois nada mais é que um sistema numérico como o decimal, o hexadecimal, o composto pelo símbolos romanos e tantos outros que existem...

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  3. Dessa vez vou comentar o comentário do autor (não li o post).
    As pessoas conhecem aquilo que lhe servem.
    Diga-se, de passagem, o caso da mulher que usa as lâmpadas da casa para indicar a situação do marido ao Ricardo. Ela pode não saber, mas ela usou o tal código, que não é o de ética. :-)

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  4. Agora sobre o post, mas está relacionado de alguma forma com meu comentário anterior.
    A aprendizagem está prejudicada. A rotina das pessoas é outra, paralela às ciências. Aprendemos (informalmente) aquilo que nos resolve o cotidiano e no curto prazo. E o ensino não nos põe, ou esclarece, que muito da ciência está em nosso cotidiano. E uma questão sempre poderá bater na mente preguiçosa: afinal, para quê saber da forma da Terra se é muito mais curtição tomar umas biritas?
    Enquanto não exitir o investimento devido na Educação (sistema de ensino) teremos poucos cientistas e, pior, teremos um povo sem educação (comportamento social).

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