25 de set de 2010

Sobre falsas defesas e verdadeiras causas

Novamente sou forçado a sair em defesa de coisas com as quais não concordo muito.
Já tratei do tema quando abordei o caso do curso de direito do senador Marconi Perillo e quando discuti a proposta de criação de uma lista de mau pagador, para inadimplentes em escolas particulares. Não pretendia fazê-lo novamente. Não queria mesmo, afinal não concordo com o sistema em que vivemos. Mas não consigo me conter, vendo tantas manifestações que, do meu ponto de vista, são incompletas e muito parciais, outras são emotivas e passionais demais e tem ainda as pessoas que aproveitam a circunstancia para aparecer, ainda mais em momento tão conveniente como esse, de campanha eleitoral.
Estou falando da crise entre os cirurgiões cardíacos, e os médicos em geral, com o SUS e o sistema público de saúde de Goiás. Que teve como principal foco a recente morte, na segunda-feira (dia 20-09), de um bebê de apenas 20 dias, a quem a realização de uma cirurgia poderia ter salvado a vida.
Não concordo com o descuido com a vida dos semelhantes, e acho que se podemos fazer alguma coisa para salvar a todos que sofrem próximos a nós, devemos fazê-lo. Por isso me solidarizo com a família dessa criança. No entanto a que está em discussão aqui não é a responsabilidade ou não dos médicos, como alguns tentam nos fazer acreditar.
É muito fácil nesses casos nos posicionarmos de um lado, e acusar os médicos de negligência ou de descumprirem o juramento de Hipócrates. Ou, de forma mais amena, acusar as autoridades de não cuidarem da saúde do povo.
Bem, a segunda acusação faz muito sentido. No entanto a discussão não pode ser simplificada em acusações de negligência e responsabilidades. Seria reduzir muito as causas da maioria das mazelas humanas.
Ora, o que temos visto ao longo de anos? A defesa, por parte da grande maioria das pessoas, da livre iniciativa, autoregulação do mercado, liberalismo e neoliberalismo. O mundo vive exigindo que os governos saiam das áreas econômicas. Que se afastem da produção de bens e da oferta de serviços, para que o mercado possa se desenvolver livremente, e com o dinamismo que, dizem alguns, somente sem a presença atravancadora do governo é que pode acontecer.
Vivemos em um mundo capitalista. E toda idéia contraria é rechaçada com veemência, como se expulsa o demônio nos rituais de exorcismo. Os donos do capital pensam assim, os trabalhadores, de todas as classes sociais e os governantes pensam assim. Até o governo Lula fundamenta seu trabalho no fortalecimento do capitalismo e na livre iniciativa. Mas sempre que algum problema decorrente da própria natureza do capitalismo assombra a sociedade ou o planeta, estranhamente todos, principalmente os donos do capital, reivindicam a intervenção dos governos, como na última grande crise mundial do sistema, que teve seu ápice entre 2008 e 2009.
Meus amigos, precisamos definir, ou somos liberais ou não somos. Pois não é honesto agir sempre dessa forma: Quando tudo está indo bem, o governo fica fora, mas quando acontecem problemas, o governo paga pelo prejuízo. E quando, aqui, digo governo, estou me referendo à toda sociedade, sobretudo a grande maioria que nunca é convidada a desfrutar das benesses. E por “estar indo tudo bem” me refiro ao acúmulo continuo de lucros pelos detentores dos meios de produção.
E esse meus amigos, o lucro, é a locomotiva do sistema capitalista. Ele, o capitalismo só funciona tendo como objetivo único, o lucro. O que define o sucesso dos processos é medido pelo tamanho do lucro que se obtém. E a noção de lucro que se desenvolveu é aquela obtida pela exploração da criatividade e pelo esforço físico de quem realmente trabalha e produz, por aqueles que apenas possui o capital. É assim que é. O capitalismo e, por natureza, desumano e não permite solidariedade. Então se defendemos o capitalismo é incoerente esperar encontrar essas qualidades em quem controla, ou tenta controlar, o sistema. E, se dentro desse sistema ainda somos defensores, e todos os governantes e detentores do capital assim como a grande maioria da população, temos sido, do liberalismo ou ainda do chamado neoliberalismo, aí temos que defender o direito de negociar o valor do seu trabalho, ou do bem que produz, seja por um indivíduo ou por um segmento. É assim que é.
Eu preciso morar, mas duvido que alguém queira me vender um apartamento próximo ao novo parque da cidade, pelo valor que eu estou disposto, ou tenho condições de pagar. Assim também nenhum grande supermercado vai permitir que eu leve os itens da cesta básica (eu disse cesta básica, que é o mínimo que se precisa para alimentar minimamente uma pessoa) pagando, sei lá, R$ 4,73. Não sou eu quem define o valor que vou pagar por qualquer serviço ou bem, mas o próprio mercado. Isso vale para educação, lazer, moradia, cultura, alimentação e, no caso, saúde. Os médicos não acham justo o valor que o sistema público se propõe a pagar por uma cirurgia, e eles estão cobertos de razão em valorizar seu trabalho, e é direito deles, em um sistema capitalista liberal, aceitar ou não aceitar vender esse trabalho por um determinado valor. E não me parece legal, ou mesmo ético, tentar impor que esses médicos atendam forçadamente quem quer que seja. Isso, olhando de forma fria, como frio é o capitalismo, é no mínimo, incoerente.
Claro que não concordo, e fico indignado, ao ver pessoas morrendo em filas de hospitais. Da mesma forma que me causam indignação ver crianças morando na rua, milhares de pessoas morrendo de fome e (que é pior) de sede, ou o grande número de pessoas sem acesso a educação de qualidade ou a manifestações culturais (que no Brasil, e em boa parte do mundo, é relegado à um grupo muito pequeno de pessoas que podem pagar). E não venha tentar mascarar os fatos. A criança morreu por falta de atendimento, e não teve atendimento devido ao desentendimento entre médicos e o sistema público de saúde. Mas o culpado por essa morte e o mesmo culpado por tantas pessoas em todo mundo, de fome, infecções por falta de saneamento básico, falta de educação, atropeladas no transito cada vez mais caótico e pelas guerras, que é a manifestação maior da busca por lucro. Tudo isso é consequência do capitalismo e sua natureza exploradora e desumana, que todos temos defendido.
Não concordo com nenhum tipo de ditadura, por isso e por simples questões conceituais, não posso concordar que a experiência do Leste Europeu, Cuba e China tenham sido tentativas de implantar o comunismo. Da mesma forma não considero que vivemos em uma democracia, da forma como pensou um dia Platão. Por isso tenho tranquilidade em me declarar comunista por princípio. Mantenho em mim a utopia de um mundo mais igualitário e justo. Assumir isso hoje é, para maioria das pessoas, se declarar ultrapassado. Não me importo, podem pensar. Sei que é exatamente isso que esperam a pequena parcela das pessoas que controlam quase cem por cento de toda riqueza que existe. E sei que as experiências infelizes chamadas de comunismo, ou socialismo, colaboram para que tenhamos perdido a esperança. Sendo assim vou usar um outro termo que calha melhor. Sou partidário de um Sistema Solidário. Não me refiro apenas ao que se chama hoje de “Economia Solidária”, isso já seria um grande avanço. Mas me refiro a solidariedade plena como forma de governar. Onde cada um desempenha seu trabalho, baseado em seus talentos, e todos recebem o justo e necessário para viver bem, com plena igualdade de condições e, principalmente, onde ninguém morra de fome ou por falta de uma simples cirurgia.

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