20 de out de 2010

Sobre as Fênix de cada um...

Essa história do resgate dos mineiros, lá no Chile, mexeu com todo mundo. Por algum motivo todos se solidarizaram com aqueles 33 homens (coincidentemente o mesmo número aceito como a idade de Cristo).

Houve esforço do governo chileno e colaboração de especialistas de vários países. E, por fim eles foram resgatados. E todos ficamos felizes.

Sim, a felicidade foi compartilhada. Mas tem uma coisa que é só daqueles homens. O fato de terem sido resgatados. E é isso que me trás aqui.

Para melhor expressar o que quero dizer, vou trocar “resgatados” por “salvos”. Espero que os leitores não se importem.

É que quero aqui falar dos efeitos que o fato de ser salvo provoca em uma pessoa.

Claro, a minha experiência se restringe a minha própria vivencia e à poucos casos que tive a sorte de assistir.

Muitos já disseram que “as derrotas nos ensinam mais que as vitórias”. Tem muita verdade nessa afirmação. Mas por tudo que passei pela vida, até hoje, posso dizer que o que realmente faz diferença na vida de alguém, é o número de vezes, e as formas que se é salvo.

Mais que as derrotas e as vitórias. Mais que as conquistas ou as decepções. Ser salva muda, verdadeiramente uma pessoa.

Por que posso afirmar isso? Por ter sido salvo várias vezes.

E não estou falando apenas de ter a vida, literalmente (por assim dizer, já que em todos os casos, acho que literalmente caí bem) salva. Mas de ser salvo das mais variadas formas.

Não que eu não tenha sido salvo da morte alguma vez. Fui sim. Por duas ocasiões.

Na primeira eu estava me afogando, lá no córrego do Cedro. Poço pequeno, farra de garotos. Todos pequenos. Eu devia ter entre 9 e 11 anos, não me lembro bem a idade. Mas não vou me esquecer nunca o fato. Lá estava eu, sem ser notado por ninguém, me afogando, quando um garoto grande, o maior que estava lá, até destoando da turma, passou perto de mim com uma câmara de ar. No reflexo eu me agarrei por um instante. Foi rápido. A conta de me mover uns dois passos do ponto onde estava, e já estava à salvo. O garoto brigou comigo, me achando folgado, por me apoiar em sua “bóia”. Ele não faz idéia, mas eu teria morrido ali, em alguns minutos e ele, sem querer, me salvou.

A segunda vez que fui salvo da morte, foi mais trágico. No alto de uma cachoeira de cerca de 20 metros, eu preparava uma corda para um rapel. À minha frente a cahoeira, que tinha, lá em baixo pedras, e nenhum poço onde pudesse mergulhar. Atrás de mim, um barranco de cerca de dois metros, de pedra úmida, com lodo. Difícil de sair, em caso de emergência. E foi nesse cenário que um enxame de abelhas europa achou de me achar. Elas chegaram de repente, e em um momento eu já não conseguia abrir os olhos. Foi uma das piores sensações que eu tive em toda minha vida. Não sei quanto tempo durou aquilo, mas pra mim foi uma eternidade. Eu não conseguia subir a parede atrás de mim. O que me fez pensar em pular lá de cima. Pensei mesmo. Poucas pessoas sabem disso. E poucas pessoas fariam o que fez meu amigo Sávio Roberto. Ele me ouviu gritando por socorro e veio. Enfrentou as abelhas, levou várias ferroadas, mas veio. Ele chamou minha atenção, me estendeu a mão e me tirou daquele barranco. Correu ao meu lado até que nos afastássemos das abelhas. Ao meu lado. Me salvando.

Levei quase uma centena de ferroadas, fiquei alguns dias com dores por todo corpo. E algumas semanas com dores nos rins, que se esforçavam pra limpar meu organismo. E logo estava recuperado. Nós, os garotos do TEBE, fizemos piadas do episódio, rimos muito, e também tentamos tirar algum ensinamento desse fato. Mas eu nunca mais seria o mesmo. E não apenas pelo fato de sermos uma pessoa nova a cada segundo. Mas pelo impacto de mais esse salvamento.

Essas foram as duas vezes que fui salvo da morte. Mas não se resume aí as vezes em que fui salvo.

Na verdade várias foram as vezes que eu fui salvo por outras pessoas.

O Maurício de Sousa que, através de seus personagens, fez enorme diferença em minha vida, me oferecendo fugas de uma realidade dura demais para um garoto pobre, lá da “Baixadinha”, me salvando de um monte de possibilidades indesejadas.

Dona Felisbina, minha mãe, que ludicamente se disponha a ler comigo as deliciosas histórias de fadas, magias, gigantes, bichos falantes, príncipes e vaga-lumes. Ela se divertia de verdade, mas sem que ela soubesse (ou, quem sabe, soubesse bem), criava em mim o gosto pela leitura. Me salvando definitivamente, e para sempre.

Seu Durvalino, meu pai, em todas as vezes em que “ralhava” comigo, e em quase todas as “surras”, me salvava de mim mesmo, impedindo que eu fizesse alguma cagada muito grande.

Mas os pais sempre salvam seus filhos. Isso faz parte da vida normal de uma família medianamente saudável. E acontece ao longo de toda vida.

Isso é importante sim. Mas quando somos salvos por outras pessoas, é diferente, pois nem sempre é esperado.

E eu fui salvo em vários momentos, por diversas pessoas, e pretendia falar sobre todos os salvamentos nesse texto. Mas ficaria um pouco longo. Por isso farei isso em outros textos futuros. Pois o que eu quero aqui é reforçar os impactos que sofremos sempre que somos salvos de alguma forma. Assim como a Rose foi salva por Jack Dawson. Não apenas de pular do navio, mas salva da vida que levava e que a estava matando (sei que é piegas, mas ainda acho linda a cena do final do filme, quando ela responde Rose Dawson, quando um guarda perguntou qual era o nome dela).

O fato é que nunca saímos de uma situação de salvamento da mesma forma que entramos. Pode ser que com o tempo, as coisas voltem a ser como eram antes. Pode ser até que não se reconheça alguns salvamentos importantes.

Mas, se não formos egoístas ou ingratos, ser salvo é o que melhor pode nos acontecer.

Podemos esquecer um namoro terminado quando se estava achando o melhor momento. Podemos esquecer aquele emprego que não conseguiu. Podemos esquecer o concurso no qual fomos reprovado, ou um tapa que alguém nos deu um dia. Também podemos esquecer o beijo naquela garota linda, que viu naquela ótima festa, ou o prêmio conquistado em algum sorteio e aquela conquista. Tudo isso pode ser esquecido. Tiramos algum ensinamento de tudo, é claro.

Mas nunca esquecemos de alguém que tenha nos salvado. Nem da circunstancia. Sempre nos lembraremos, com detalhe, do exato momento em que fomos salvos. Sempre me lembrarei do Sávio Roberto, e do desconhecido com a “bóia”, ou da dona Biura, assim como os mineiros chilenos jamais esquecerão daquele 13 de outubro, nem de cada pessoa que estavam lá, na saída daquela cápsula. Assim como Rose jamais poderia ter esquecido Jack Dawson.

Quando uma pessoa nos salva, fica gravado em nós para sempre. Para, assim, nos lembrar que não somos totalmente autosuficientes, e que não podemos viver sozinhos.

E você, amigo leitor, quantas vezes já foi salvo? Ainda é grato por isso?

5 comentários:

  1. LER E ESCREVER, TER AMIGOS E FAMÍLIA; ISSO ME SALVA.
    Gratidão, reconhecimento, agradecimento. Não importa as palavras que você use, todas querem dizer a mesma coisa: FELIZ.
    Nós deveríamos ser felizes, gratos pelos amigos e família. Ser Feliz só de estar vivo (você gostando ou não).
    Talvez gratidão, não tenha nada a ver com alegria. Talvez, estar grato signifique reconhecer o que você tem e para que serve. Apreciar pequenas vitórias, admirar o esforço que nos leva a sermos humanos.
    Sejamos gratos pelas coisas familiares que temos e sejamos gratos pelas coisas que nunca conheceremos.
    No fim do dia, o fato de ainda estarmos de pé é razão suficiente para comemorarmos.

    ResponderExcluir
  2. Nossa.. adorei esse texto, Naza.. Me deu um nó na garganta.. Eu já fui salva diversas vezes tbm.. Mas nada muito trágico.. =) Nunca estive muito perto da morte, mas já estive perto de procurá-la.. Ninguém sabe disso.. Às vezes, uma palavra nos salva..
    Ahhh.. Seu comentário foi lindo.. Peço licença para colocá-lo no próximo post, com os devidos créditos..
    bjoO

    ResponderExcluir
  3. oi, naza.
    manda um texto pra eu colocar no blog do bar do escritor.
    giovani.iemini arroba gmail.com

    []s

    ResponderExcluir
  4. Comentando o que eu queria ter comentado na quinta.
    Sinto saudades de vc, e gosto quando estamos juntos (complexa essa frase), mas o fato é que tem coisas que de tão bem que te faz acaba te fazendo mal.
    Sei que vc nunca quis isso, o fato é que aconteceu.
    Como eu disse, não posso pensar nem sonhar. Essas duas cosias me fazem muito mal (logo essa resposta vai ser curta para eu não pensar).
    Estive algumas não muitas (que eu me lembre) perto da morte. Uma vez eu dormi e quando eu acordei no meio da noite achei que eu tivesse morta, isso por conta dos cravos que te pedi, mas eu tinha pedido música na verdade e foi o que fizeram, mas eu estava viva, ou acho que estava viva e na verdade eu estou morta até agora, ainda não consegui reviver.
    Das duas vezes que eu me lembro que cheguei perto da morte, eu estava com as mesmas pessoas, e a cena continha os mesmos itens e a mesma situação. Não gosto de lembrar dessas coisas que me faz pensar o tudo que poderia ter sido diferente.
    E das coisas que eu poderia não estar fazendo hoje.
    O fato é que se algo me salvou foi algo sobrenatural, como não acredito nisso. Estou aqui por que não era a hora de morrer.

    ResponderExcluir
  5. Gostei imensamente deste texto, salvou meu dia!
    Um beijo

    ResponderExcluir