26 de jun de 2009

Melhor que divãs e terapias, são as togas e os martelos


Como todas as crianças, minha infância foi marcada por vários momentos de certezas sobre o que “queria ser quando crescer”. Tive a fase ceramista, músico, motorista, mecânico, professor, dono de bar (na verdade, de “butiquim” mesmo, pois era o que eu conhecia), alfaiate, padre, ator (mesmo correndo o risco de ser chamado de “veado”, como era comum se rotular naquela época e naquele lugar) e, sobretudo astrofísico. Mas quando não estava tentando me aperfeiçoar em minha escolha profissional da vez, eu gastava meu tempo entre os livros da pequena biblioteca da Escola Municipal Otalécio Alves Irineu (onde me iniciei nas magias das letras e dos números) e as brincadeiras com os outros garotos da minha rua. Boa parte das minhas horas era ocupada com subidas nas grandes mangueiras, abacateiros e mexeriqueiras (não aquelas minhas vizinhas fofoqueiras, mas os espinhosos pés de “mexerica fuxiqueira” que haviam nos quintais da boa e velha “baixadinha”), brincadeiras de polícia e ladrão, calmom (nunca entendi essa expressão, mas a brincadeira era muito divertida), guerra-bandeira (pra nós era “bandeirinha” mesmo), futebol de rua. Mas o que eu mais gostava mesmo era de ir para o mato. Sempre com estilingue no pescoço, eu adorava ir nadar nos pequenos riachos que haviam, pescar no Rio Verde, e comer araçá, buscar araticum (na época, “articum”, e de preferência o “cagão”), boca-boa, ingá ou mesmo manga comum, la da “chácra véia”.


Mais tarde fui escoteiro, vendedor de picolé, colecionador de selos e lavador de copos em bares. Mas não deixei de gostar de sempre ir para o campo. E não deixei de ir.


Por fim me formei em Ciências da Computação pela FIMES. Mas nunca me achei um “Cientista da Computação”, primeiro porque não me soa bem o termo, por isso me intitulo “Analista de Sistemas”. Mas isso também não sou. Até fui, por um curto período, mas logo percebi que o gosto pelo mato tinha um apelo maior, e me rotulei “ambientalista”. Aliando minha formação com essa vocação me enveredei pelos caminhos do geoprocessamento. Me tornei um “fazedor de mapas”.


No entanto uma outra paixão sempre esteve comigo. Aqueles velhos livros de fadas, gigantes e heróis, da pequena biblioteca do “Otalécio” (vários deles lidos em companhia da grande dona Felisbina) nunca me abandonaram. E, desde cedo, mesmo que não considerasse, o gosto pela leitura despertou o gosto pela escrita. Me percebi poeta.


E a poesia veio acompanhada por outros textos, sem rimas, com erros ortográficos e vocabulário limitado ao meu universo. Mas que sempre me renderam alguns elogios. Por isso meus pequenos contos, crônicas e ensaios (so descobri que existia essa classificação literária muito mais tarde) também começaram a estar cada vez mais presentes em minha vida, fazendo de mim um pretenso escritor.


Ainda em Mineiros fui, por um período, editor do “Jornal da Juventude Católica”. Depois, por um mandato, do “Boletim do Rotaract Club” daquela cidade. Nesse período colaborei também com o “Imprensa Livre”, outro jornal local.


Agora estou em Goiânia. Continuo sendo ambientalista e fazendo mapas. Também continuo escrevendo minhas poesias e crônicas e meus contos. Apesar de três obras prontas (dois romances e um livro de poesias) ainda não consegui romper as barreiras que separam os anônimos do restrito mercado literário. Não publiquei ainda, por isso não posso me chamar “escritor”. Não me tornei astrofísico. Mesmo que eu queira, não sou mais criança, afinal já se passaram vários anos desde que dona Felisbina me pariu.


Nas últimas semanas tenho mandado, insistentemente, alguns textos para a democrática seção “Opinião” do Diário da Manhã (e não há nenhuma ironia quando digo “democrática”, de fato considero esse o espaço mais aberto da imprensa goiana). Mas todas as manhãs, quando abro o jornal, na edição digital, sempre vejo os mesmo articulistas e colaboradores, e nenhum dos meus textos foi ainda publicado (afinal não sou membro da UBE-GO, Deputado, Vereador, Psicólogo, Advogado nem, tampouco, conhecido e toda democracia tem limites – aqui um pouco de ironia).


Mas tenho postado neste blog, e distribuído textos por e-mail.


Por isso, e com as bênçãos do STF agora acho que definitivamente resolvi minha eterna crise de identidade profissional.


Está decidido, de hoje em diante sou JORNALISTA.



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