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3 de mar. de 2024

Seu sabor

 E, nessa manhã,

Meio que “do nada”

e sem motivo

Seu sabor veio me visitar

Como se em minha boca fosse sua saliva

 

Escova e creme dental,

O enxaguante bucal

só reforçaram a sensação

Saudade de daqueles beijos matinais

 

Preparei um café forte

De nada adiantou,

         Cafés sempre estiveram presente em nós

Acordei inda mais

E o sabor ganhou aroma.

 

Comi

bebi

e você seguiu em mim

agridocemente atormentando

 

Banho, tomei

Andar, caminhei

Liguei o rádio

Ouvir músicas

Li notícias e futilidades

Ouvi sobre as guerras

Até trabalhei,

Tentei me iludir

E te ludibriar

         Em vão

 

Por fim, desisti

Parei de tentar fugir

Aceitei ser (metafisicamente) sua morada

Como sempre gostei de ser

E, assim, abri uma cerveja

Para harmonizar

 

Combinação perfeita

Desde quando me emprestava seu calor

E, após o desencontro,

Tornou-se mais presente hábito

Afagando minha alma

Amenizando minha dor

Clareando minhas lentes

E Realçando seu sabor...

Palavras Soltas

Palavras soltas

Imaginação a esmo

Sensibilidade à flor da pedra

Pedradas sonhos,

                desilusão

Ano novo

Mesma vida

Novos lances

Outros passos

                Tão cansados

Mesma jornada

E as histórias?

Outras tantas

                Repetidas

Mas seguimos

Quase todos

Quase juntos

                Meio longe...

No ocaso

Vista embotada

Cansaço, poeira e lágrimas

Objetivos embaçados

                Pouco nítidos

Normalidade pós tantas curvas

E assim eu sigo

De maio em maio

Nessa viagem,

                seguindo o touro

Essa gentil-faminta constelação

10 de set. de 2023

Quase fuga

O sol brilhante, queimava

A claridade, cegava parcialmente os olhos fechados

A ar quente penetrava, com facilidade e desconforto, os pulmões

No coração, uma estranha dor

Na mente, uma confusão caótica.

Sons,

Cores,

Aromas...

Nada era verdadeiramente real.

Mas não sonhava

Seus sentidos estavam despertos

Apenas confusos

Bagunçados

Perdidos.

Tentou escapar

Sair voando

                (desejou voar, o louco)

Saltou.

Alguns centímetros acima daquele chão que o sustentava

E despencou.

                (não se pode escapar)

E mergulhou, novamente, na escuridão inerte.

Silencioso

Insipido

Monocromático...

Breve ilusão de liberdade

Mas está de volta à mim.

 

Solidão aromática

Borbulhante, a água ferve

Sem pressa, preparo meu café.

O aroma preenche o ambiente.

Em mim, um vácuo impreenchível

Vastidão sombria

Silêncio ensurdecedor

Nem calor, nem frio

Inércia de sentimentos

Respiro,

              Estou aqui

Apenas eu,

              e todos os meus fantasmas

Que observam,

              entre a pena e o escárnio.

Nem se metem mais.

Eu, sozinho, faço tudo

Inclusive esse café delicioso

Que,

              por ora,

é o que anima essa minha desprezível vida.


Reconstrução

Aqui estou, outra vez

Refazendo o exercício de me sentir em casa

Em lugar totalmente estranho.

Como os próprios sentimentos, às vezes.

E, outra vez, minha velha vida tenta se disfarçar de nova.

Pra me surpreender ou assustar.

E novamente ela consegue.

As novas ausências,

Agora muito presentes,

Preenchem,

Doem

Sangram...

Dor outras vezes sentida.

Lagrima matando, novamente, essa sede indesejável.

Quase reconheço o novo trecho

do caminho já trilhado.

Novamente o nó

O amargo

O salgado

O soluço

A solidão.

Miseravelmente experiente

Sei que o escuro vai passar

O ar, voltará aos pulmões

A leveza, aos momentos

E, quem sabe, aí

Nesse momento,

Nova entrega

Como quem não aprende a lição

Tantas vezes ensinada

Ou como quem assume,

Por escolha,

A opção pelo amor

O gosto pela paixão

E essa preferência

Pela certeza da imprecisão.

Novamente não foi pra sempre.

E, será um dia?

Queimando, como queimou

Tão intenso

Extraordinário

Infinito

Admirável foi o tempo que durou

Esse metafísico combustível

Me trazendo novamente aqui.

Onde nunca estive tantas outras vezes

De onde espero não sair

Mas, sabendo ser impossível,

Pra onde desejo não voltar...

Novo estágio

Não me cabe mais, a roupa que agora visto.

Completamente roto,

O reflexo no espelho.

Esse cabelo, não era meu até a pouco.

Uma barba me cobre a face que sempre carreguei.

Meus olhos, já não me servem, como antes.

Mesmo assim,

Com cuidado,

Me reconheço nesse estranho ser.

Deve, mesmo, ser eu, pois me sinto nele.

Os caminhos que o trouxeram de mim.

Caminhei com outros pés,

Antes vívidos, rápidos, confiantes e seguros.

Hoje, trôpegos, lentos, incertos e inseguros.

Na testa, o pó de tantas estradas.

No bolso, lembranças, saudades.

Memórias de uma vida.

De várias vidas,

Já vividas, registradas em cada marca no rosto.

Em cada sinal do tempo.

No cansaço visível,

Nas lágrimas felizes pelo amor da infância e pela última grande paixão.

E por todos os amores vividos entre esses.

E em toda resignação de quem já não briga com a vida.

Nem se assusta com a proximidade da morte.

Resultado das duras jornadas.

Roto,

Cansado,

Empoeirado.

Cabelos albinos e olhos embotados.

Assim o vejo.

Quase não reconheço

Mas aqui estou eu,

seguindo,

cada vez mais lento,

para o próximo que ainda serei.


23/05/2021

Livre

Solidão aqui

Em tudo.

Escura, a noite pesa.

La fora, o vento gelado aquece um pouco o frio em mim

Insetos

Anfíbios

E alguns pássaros noturnos quebram o silêncio.

E a saudade

E a vontade de me aquecer em você

E esse desejo de beijar seus lábios.

Grandes e vermelhos lábios

E de aspirar seu hálito

E beber você.

La fora, a negra imensidão assusta

Aqui, essa cama infinita.

Vazio imenso.

Desejos, saudade, medo...

Tesão, carinho, abrigo, riso fácil, aconchego...

Tanto tudo agora

Sensação, sentimento, emoção, desolação.

E segue fria e escura, a noite

Infinita noite.

Eu, perdido

Você, longe

E o calor de seus grandes lábios não me aquece agora.

E me sufoca, todo esse ar.

E me prende,

E tortura,

A liberdade que,

Como sabemos,

É apenas uma agridoce ilusão.


Recanto da Família Matos

Bonfinópolis, GO

Maio/2021

Abismo

Cansada, ela procura repouso.

Busca em si mesma,

Em lembranças recentes

E em histórias distantes.

O velho sofá ainda meio confortável

A velha cama, ainda acolhedora,

Mas, agora, assustadoramente grande

E o sono se perde.

Solitária, ela vasculha gavetas e pastas, em busca de algum sinal de companhia.

Encontra vazio.

E a certeza de que certos encontros não trazem nada, além de mais vazio.

Angustiada ela chora.

E suas lágrimas também molham minha face.

Minhas feridas ainda doem.

Algumas ainda abertas.

Em sua lâmina, ainda escorre meu sangue.

Mesma lâmina que a faz sangrar agora.

E sua dor, apesar da minha, doe também em mim.

 E causam outras dores.

Misto de tantas coisas.

Profusão de sentimentos.

Certeza da distância

Aceitação do fim

Negação de verdades...

E, se nem toda estrada é caminho

Da mesma forma, nem todo caminho é paralelo

Ou se cruza novamente.

Mas ela chora

E eu escolho acolher

Compartilhar

Procurar entender

E não mais julgar.

Abraçar.

Mesmo à distância

Mesmo que longe pra sempre.

Mas abraços são refúgio,

E por tudo, e tanto,

O meu estará sempre aqui.

Sempre aberto.

E, do meu lado

Sigo torcendo para que o tempo de chorar termine logo

E não volte nunca mais.


Com carinho, Naza

À sombra da coroa

O silêncio pesa,

Ensurdece,

Congela.

Na garganta, um balão flutua,

Sufocando,

Impedindo o ar,

O choro,

A vida,

            Matando.

Meu abraço, preso.

            Talvez pra sempre.

Presos, todos nós.

            Em casa,

            Em nossos medos

            Em cegueiras absurdas

            Em esperanças incertas.

E a coroa se impõe,

            Subjuga,

            Oprime,

            Mata.

Mais uma vez uma coroa mata.

Dessa vez, sem bandeira

Sem distinção,

Sem fronteira a defender

            Nem a ampliar.

Apenas mata.

Meu lar virou fortaleza.

Minha quietude, resistência.

Ficar em casa, a melhor ação.

E meu silêncio grita,

Ecoa alto...

Por uma fresta, com pouca luz,

Fito lá fora, que o velho mundo não existe mais.

Independente das vontades,

            Da minha ou da sua.

À sombra da coroa o mundo muda.

Aqui, rumino meu balão

E tento sobreviver ao peso desse silêncio...


Caiapônia, GO

12/05/2020

Kamikazes

Enganosamente aparente, a calmaria

Camufla sangrenta guerra em curso.

Pacífica falsa realidade.

Artificial paz.

Trincheira em toda parte

Combate em várias frentes.

 

Nos enganamos,

Fingimos não só a paz,

         Mas, tranquilidade,

Harmonia,

Bucolismo.

 

Combatentes, todos nós

Inimigos, todos mais.

E um além,

         Invisível,

         Implacável.

         Silenciosamente mortal.

 

Na busca do autoengano

Tentamos uma egotrip

Viajando para dentro,

Circunstancial kamikaze

Buscando autoconhecimento.

 

Levados pelo clima de agora,

Não percebemos o grande risco.

Pilotamos nossas naves em angustiosa viagem.

Como destino, o próprio ego.

 

Mas não seguimos em planador,

Balão de gás

Ou zepelim.

Pilotamos, cada um, nosso próprio Enola Gay

Levando a bordo, o adulto em conflito,

Acariciando adormecida criança

Prestes a acordar.


Caiapônia, GO

23/06/2020


Pretérito do passado

Olho agora o futuro com desalento

Confuso, o nosso agora

Insana realidade.

Verdades negadas

Certezas combatidas

Mentiras exaltadas

 

O Brasil de agora

Vive o passado do velho mundo

É 2020, devia ser a pós contemporaneidade

Mas me sinto como se vivesse na Constantinopla turco-otomana

         Logo após a tomada.

 

Negam a ciência

Negam a peste do momento

Negam a morte de milhares

Negam tudo

         Negacionistas.

 

Há um vírus

Uma doença

Uma pandemia.

 

Aqui, na Terra do Pau vermelho,

Falta líder

Faltam leitos

Falta rumo

 

O futuro,

         Sempre incerto

Agora tenebroso.

Pois nesse presente insano

Não somos capazes de aprender

Com o passado de outros povos

 

Assim, sigo trôpego

Inseguro,

Amedrontado

Estarrecido.

 

Nos olhos, desesperança.

E, é falso o riso que esboço

Por trás dessa máscara!


Caiapônia, GO

24/07/2020

Crises

Crise de identidade.

Crise de honestidade.

De valores,

De princípios,

Financeira,

Na saúde...

 

Falta de bom senso.

Falta de empatia

De solidariedade

De liderança...

 

Excesso de ódio.

De mentiras

De maldade

De ego

 

Tempo estranho.

Nebuloso,

Obscuro/obscurantismo.

 

Assustador, o horizonte.

Tormenta por todo ocaso.

Abalando, toda existência.

 

Inseguro o amanhã.

Incerto, qualquer futuro.

Incerta felicidade.

Incerteza de prosseguir.

Incerto o meu sorriso.

Certo mesmo, só a incerteza.

 

O silêncio pesa dentro de mim.

            E a primavera ainda nem chegou...


Caiapônia, GO.

13/07/2020


16 de mar. de 2019

Fulminante


Um dia qualquer,
preguiçoso
sem amor
sem motivos
sem tesão.
Apenas seguia
       meio que por obrigação
muito mais por falta, que por opção.

Mas, de repente,
como um estalo
uma pontada
um tiro certo.

Foi fulminante
No inverso de um infarto
acometido por vida súbita
E, ainda jovem
o velho homem,
inesperadamente,
       e de repente,
sentiu-se vivo.

16 de fev. de 2019

Despedida


Vestiu-se de simplicidade
Esboçou um sorriso irônico e divertido
            Como quem curte o momento
            Como quem curte com a gente
Ele gelado,
Minha alma vazia.
Ao longo das horas, poucas lágrimas caíram.
Dor
Tristeza
Alívio
Arrependimento
            E os sentimentos afloram,
Misturam
Se fundem.
Confundem.
Gritamos no silêncio
Nos calamos nos ruídos.

Ele, elegante
Simples
Irônico
Gelado...
Permaneceu indiferente ao burburinho
Não se moveu, mas enchia o ambiente.
Não falou, mas foi ouvido como nunca.
Estava ali, mas era a maior ausência.

Ele, sereno, impassível.
Eu, inquieto, não preguei os olhos
Aproveitei cada segundo das últimas horas.
Eu, filho tantas vezes ausente,
Nessa noite não arredei pé.
Nem ele.

Simples,
elegante
E com sorriso irônico.
Foi assim que, na noite entre os dias 13 e 14 de fevereiro de 2019
Seu Durvalino, meu pai
Se reuniu pela última vez com os seus.
Ouviu declarações,
Choro,
Devaneios,
Pirações.
Deu a todos nós mais uma chance.
A última, intempestiva.
Sem pressa e sem reação, ouviu.

Pela manhã, às 10
Embarcou em sua viagem
Sem mala
Sem bens
Sem riqueza nem pobreza
Escala? talvez, quem sabe?
E, para nossa dor, alívio, arrependimento, vazio (...)
Definitivamente sem volta.

Siga em paz, seu Durvalino
Muito obrigado...