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29 de set. de 2012

Refúgio...


Ele a abraçou. Aconchegou a cabeça dela em seu ombro, e apertando com firmeza, carinho e cuidado, sua cintura.
Ela ainda estava triste, mas o medo começou e se dissipar  naquele exato momento. Ela sabia que estava segura.
Algumas lágrimas ainda caíram, mas em pouco tempo ela já estava bem mais calma.
Aquela serenidade que conhecia tão bem a envolvia novamente. E nada nesse mundo lhe fazia tão bem. Não havia, em todo mundo, melhor lugar para se estar, do que aquele abraço. E ela ficou ali, por algum tempo.
Coisas ruins acontecem o tempo todo, a todo mundo e em todos os lugares. Com ela não era diferente. Perder a mãe não estava nos planos. Não ainda. Afinal sua mãe era uma senhora ainda bem jovem. E sempre foi muito saudável. Mas os infartos não escolhem pela aparência. E a escolhida da vez foi a bela mulher de 53 anos.
Foi forte o quanto pode. Cuidou das coisas práticas. Recebeu familiares e amigos. E, apesar da própria dor, procurou confortar seu pai. Mas após o enterro, ao chegar em casa, sentar-se à mesa da cozinha, tomando um copo de água, nesse momento ela se deu conta. Foi só aí que “sua ficha caiu”. E ela chorou desesperadamente.
Ao ouvir seus soluços ele veio. Chegou em silêncio, pegou sua mão, a abraçou, do jeito que sempre fazia. Deixando seu corpo inteiro gritar que ele estava ali, com ela para compartilhar tudo, e para sempre.
Quando se abraçavam assim, nenhuma palavra precisava ser verbalizada. Ambos sentiam a intensidade do amor que tinham um pelo outro, e por si mesmos. Graças ao amor que recebiam um do outro, aprenderam a valorizar o amor que cada um sentia por si mesmo.
Bastava um abraço e, se os problemas não se resolviam, com certeza eles se alimentavam de força para enfrentá-los.
Após 11 anos de casamento, alguns esperariam que isso houvesse mudado. E mudara. Se tornava a cada ano mais intenso, verdadeiro e presente. Se é que fosse possível aumentar as demonstrações de carinho entre eles.
E não importava o que os outros esperavam ou pensavam. Eles sabiam o que sentiam. Dividiam isso de forma tal, que nem pensavam em viver um sem o outro. Era aquele abraço que lhes davam força para enfrentarem problemas, para criarem os filhos, para a rotina de trabalho e, sobretudo, para serem felizes em tempo integral.
Ela, apesar de todo esse tempo, se surpreendia com a capacidade que o abraço do seu marido tinha em lhe dar paz e segurança. E, mesmo nesse momento de dor tão forte, não foi diferente.
Sabia que sentiria a falta da mãe por muito tempo, ou para sempre. Mas, já respirando profundamente, e secando as últimas lágrimas, sabia que sempre teria aquele abraço onde se refugiar toda vez que a dor fosse mais forte.
Ficaram ali, de pé, na cozinha por mais um tempo. Eles nunca sabiam definir se era uma eternidade ou uma fração de segundos, pois passava tão rápido, mas era sempre o suficiente para o efeito terapêutico de que necessitavam.
Ela deu-lhe um beijo no rosto, tomou mais um gole de água e saiu.
Ele sentou-se, olhou para o infinito e chorou em silêncio, não de tristeza. Apesar de sentir a perda da mulher que lhe era como uma segunda mãe. Mas chorou de felicidade e agradecimento.
Ele estava exatamente onde planejou estar desde que era um garotinho desajeitado, com grandes óculos e sem muita coordenação.
Tinha 8 anos, quando, voltando da escola alguns garotos derrubaram suas coisas e ficaram rindo dele. Quando se abaixou para recolher seus livros, percebeu a presença de alguém. Ela não estava zombando dele, como os outros. Colocaram tudo na mochila novamente, e ela deu-lhe a mão para ajudá-lo a levantar-se.
Foi apenas um toque naquela mãozinha tão delicada e macia. Mas foi o suficiente para ele sentir que todo força do mundo estava nela. Nunca mais se afastou.
Não sabia ele, quando criança, que a força que sentiu não estava nela, nem nele. E não existiria hoje, se não estivessem juntos. Pois toda a força do mundo, aquela capaz de resolver todos os problemas, só existia por que eles se completavam.

11 de set. de 2012

Partido-alto



Não houve silêncio.
As pessoas continuaram suas conversas normalmente, provocando ruidoso burburinho. A banda não cessou seu show. Continuou entoando seu partido-alto, meio desafinado, e um pouco atravessado.
A pequena multidão envolvida no clima que lembrava os momentos que antecediam o inicio das orgias romanas. Imersos na contagiante música, e inebriados pelo alto teor de álcool que regava a todos os presentes.
Cervejas e caipirinhas eram trazidas o tempo todo, pelos garçons.
Entre as mesas de latão, que não raro fazia as vezes de tambores e tamborins, homens e mulheres se espremiam, se roçavam e se seduziam, em uma dança altamente sensual para quem estava dentro mas, certamente, estranha para quem observasse de fora.
O álcool, o pouco espaço para tantas pessoas, as roupas provocantes, em alguns casos a quase total ausência delas, o suor, a música, a pouca luz. Enfim, tudo favorecia a pegação geral que estava instalada. Vez ou outra, algum valentão não gostava da forma como o cara ao lado olhava pra sua companheira, ou a forma como se esfregava nela, e ensaiava uma briga, que era facilmente contida pelos mesmos motivos.  
Em um canto, uma das poucas mesas onde se podia ver alguém sentado, duas pessoas pareciam não estar ali. Com pele bronzeada, cabelos artificialmente loiros, na altura do meio das costas, mini-blusa preta, que realçava seus belos seios, e shorts jeans, curtíssimos, que deixava à mostra suas coxas deliciosamente torneadas e delineava, escondendo muito pouco, de o pouco que cobria. Parcialmente coberta, uma tatuagem pouco acima da virilha, mostrava uma bela borboleta azul sobre duas rosas brancas. Nos pés sapatos de salto alto e fino, couro marrom, com tiras enlaçadas nas panturrilhas, até quase os joelhos. Verdadeiramente linda, e altamente desejável.
Ela tentava sorrir e, nesse esforço, exibia seus dentes brancos, com o metálico de um aparelho ortodôntico. Tentava, mas claramente não conseguia.
Ele, negro forte, olhos expressivos, cabelos raspados, conforme exige a moda dos pagodeiros e jogadores de futebol. Pele bem cuidada, corpo malhado, sorriso igualmente belo. Ela falava com ele com carinho e paciência. Ele quase se exaltava, mas apenas a olhava com mais devoção, quase pedinte. Pela expressão o volume de suas vozes era baixo demais para ser ouvido pelo próprio emissor, devido ao volume da música e ao alarido da multidão. Mas eles pareciam estar se entendendo perfeitamente. Na verdade não se pode afirmar que eles estavam ali, naquele local. Se seus corpos não fossem vistos, e se sua mesa não fosse empurrada por quem tentava rebolar ao lado, ninguém os notariam, nem eles seriam trazidos de volta para lá, às vezes.
A sensação era de que se um aquele pequeno espaço composto pelos dois, uma mesa onde havia uma garrafa de cerveja, dois copos, um saleiro e alguns guardanapos, estivesse envolto em algum tipo de isolamento. Que nada externo pudesse chegar até eles. Que não ouviam, nem percebiam sons, toques, aromas nem a temperatura. O clima de sensualidade, então, era totalmente ignorado por eles.
Em algum momento uma lágrima.
Ele chorou, não entendia. Queria dizer que não aceitava, mas não era assim. Sabia que não tinha como forçar. Mas se permitia não entender. Afinal, se ele fez tudo que podia para fazê-la feliz...
Ela decidida, repetiu algumas vezes, de forma firme, enfática e definitiva.
Era o fim do namoro que durara apenas um ano e quatro meses.
Ele esperava que durasse para sempre.
Ela decidiu que já era tempo demais.
Não que estivesse infeliz. Não era isso. Apenas não estava feliz. Gostava dele, mas não o suficiente para prosseguir. Depois de breve análise decidiu que era melhor parar antes que a dor se tornasse maior. E não queria demorar muito mais para experimentar outros abraços, outros beijos, sabores de outras salivas, gametas, suores...
Ele se levantou, atravessou todo o ambiente, sem ouvir a música, sem ver a morena seminua que quase se jogou encima dele. E foi embora, sem sair da cápsula que não mais o protegia, apenas o sufocava.
Ela levantou-se, ajeitou o short, mexeu nos cabelos, tomou um gole de cerveja, e foi sambar atenta, sabendo que iria escolher alguém para ser seu, ao menos por aquela noite...

3 de set. de 2012

Da série "mulher" - Solventes... -



Existem dois grandes solventes universais. A água e o tempo. Ouvi alguém dizer isso quando ainda era uma menina, e sempre acreditei. Com o passar dos anos, tive oportunidades de verificar, em minha própria vida, ou em vidas próximas à mim, a ação eficiente, e definitiva, desses dois elementos.
Concordo que nem sempre suas ações são tão benéficas assim. Como quando assisti meu pai se tornando cada vez mais isolado e frio, depois de ser abandonado por minha mãe. Aliás, não foi apenas ele que sofreu com esse abandono. Eu também estava lá...
A última vez que vi meu pai com uma companheira eu tinha apenas nove anos. Já faziam então, quatro anos que minha mãe saíra de casa. Ele me pareceu feliz por alguns minutos. Era uma mulher bonita, gentil e me tratou muito bem. Ficou uma noite em nossa casa. No dia seguinte, quando acordei, ela já tinha ido. Meu pai lia jornal, calado. Me sentei próximo, sem dizer nada. Conhecia aquele silêncio. Não demorou muito para ele fechar o jornal, olhar fixo para o horizonte à sua frente, por certo tentando enxergar algum lugar feliz em seu passado, ou descobrir por onde andaria sua amada, e chorar incontidamente.
Foi a última vez que eu o vi com uma mulher. E uma das últimas vezes que o vi chorando. Aos poucos o tempo, esse solvente universal, foi limpando os sentimentos que haviam grudados naquele homem.
Vi outras ações do tempo, e da água, limpando superfícies e manchas profundas. E, não existe nada que seja inalcançável por esses dois solventes. Seja o que for a mancha, basta deixar imerso em água, ou na correnteza do tempo, que fatalmente será removida. Às vezes a limpeza acontece de forma rápida, outras vezes leva-se uma quantidade maior de tempo. Pode até resistir a um igarapé de dias ou um rio de meses. Mas nada resiste aos oceanos de décadas.
Você pode usar alvejante, se tem urgência. Você pode rasgar cartas, queimar fotos, tentar apagar da memória. Mas se a ação é muito rápida, não oferecerá resultado de forma definitiva. Apenas a água e o tempo podem limpar, de fato, todas as sujeiras que existe em nós. Por vezes cria limo, ou lodo, em nós, como forma de nos proteger, o que pode nos impedir de ser tocados novamente, pelo que nos prejudicava, e também, por coisas que nos fazem bem.
Assim como acontece com o tecido, esquecido por muito tempo em alvejantes como o cloro, também a vida poderá ser fragilizada e, mesmo, corroída pela ação da água e do tempo. Há que se tomar cuidado ao se deixar quarar. Não podemos ficar inertes nem na água, nem no tempo.
Sei disso. Aprendi coisas sobre solventes, tempo e chuva. Entendi que mais eficiente que um solvente universal, é a ação dos dois juntos.
Tive alguns amores. Alguns amantes. Alguns namorados. Algumas dores, várias decepções. Mas nenhum sofrimento durou muito. Sempre me lavava pelo tempo necessário, em água corrente.
Mas eis que, assim como meu pai, me apaixonei, verdadeira e profundamente por alguém. Eis que, como ele, me entreguei a esse homem que me apresentava possibilidades infinitas de felicidades. Eis que, um belo dia ele simplesmente não apareceu.
Achei que meu mundo se acabaria. Por um tempo senti meu chão se abrindo. Mas não sou como meu pai. Aprendi com sua dor. Não vou me isolar. Não trancarei meu coração. Não me tornarei frio e infeliz como ele. Conheço os solventes universais.
Vou limpar a dor que agora sinto, e encontrar outras pessoas. Tenho experimentado vários outros homens. Algumas mulheres e outras possibilidades. Alegro-me às vezes. Outras noites, nem tanto. Mas não estou sozinha.
Nas manhãs seguintes, não vou chorar sobre um jornal. Acho mais eficiente ficar aqui, mergulhada nessa banheira, me lavando nessa água morna, por todo tempo que puder. A ação da água e do tempo, misturados às minhas lágrimas, água que faço sair de mim, limpa um pouco meu corpo e minha alma. E me dão forças para acreditar que não acabarei como meu pai, no fundo de um lago, para sempre...

19 de jan. de 2012

Adão


Em verdade vos digo que nasceu. É bem verdade que não se pode dizer dessa forma: “nasceu”, pois assim não se deu. Um belo dia ele se apercebeu, se é que ele tenha de fato se apercebido de alguma coisa logo que se viu criado. Era, pois o sexto dia da criação quando de repente o homem se viu existindo. Ele não se lembra de nada que seja anterior há esse dia. Não teve infância e nem espinhas, quando se notou já estava ali, adulto, surgido do nada como que por milagre. E mal sabia ele que havia sido mesmo. Ainda sem manual de instrução de forma alguma, para ele nada era anormal. Andava nu num território agradável, que muito mais tarde seria chamado de Éden, não tinha armas para se defender de todas as feras selvagens que rondavam por ali, contudo não havia motivo para temer afinal nada o atacaria. Não que os leões e tigres da época não tivessem a mesma “natureza” que hoje têm, eles tinham sim, apenas ainda não estavam programado para ocupar níveis elevados na cadeia alimentar. Só para que o leitor entenda o motivo do termo “natureza” estar entre aspas na citação acima vou explicar aqui que o pretendido é referir-me à psicologia das feras citadas, e todas as demais que já naquele tempo haviam sido criadas, e não ao ambiente natural que eles tinham, naquele tempo, a seu dispor e não mais há dias. Retomemos o fio de nossa narrativa, quando aqui se pretende conhecer os primeiros anos do dito primeiro homem do Éden. Sim! Do Éden, posto que em paragens distantes seres semelhantes a ele já erguiam vilarejos e praticavam rudimentar comércio, recluso estava ele naquele lugar agradável, pois ele nem imaginava existir fronteiras naquele jardim. Quem não foi criança não aprende a sonhar, sem sonhos não se almeja coisas maiores. Esse homem não era dado a ponderar a existência, pois não tinha sobre o que refletir, não havia saudades a serem lembradas ou lições a serem aprendidas. Ele está ali sozinho, perdido e isso era tudo, seus primeiros momentos neste mundo foram entediantes sem nenhuma consciência sobre nada, foi então que o criador, que milênios mais tarde seria batizado de deus, não por João Batista, é claro, mas por quem achou que seria uma boa idéia fazer a primeira tradução da bíblia do dialeto divino para o aramaico moderno e depois para o latim arcaico do mundo recém saído da pré-história, surgiu pela primeira vez para este maldito homem, impondo a ele algumas regras.
Em verdade vos digo que este homem nem era ainda homem, pois não se chamava assim, na verdade ele não se chamava de nada, não tinha por que se chamar, pois estava sempre sozinho, esse homem que não sabia que o era até então tinha uma vida simples, tranqüila, entretanto com algumas normas a cumprir, como é da “natureza” das regras, elas só existem para proibir alguns prazeres, isso porque é da “natureza” do homem, mesmo, e, sobretudo, aquele que não controlava sua consciência sequer, se achar livre para fazer o que bem aprouver mesmo para exercer o ócio improdutivo sendo este a atividade preferencial de Adão. A primeira regra foi como é da “natureza” das regras, proibi-lo de comer o fruto de pecaminosa árvore. Na verdade esse princípio seria desnecessário se o criador não tivesse recomendado e/ou lançado mão do seu último Fiat. Sobre isso falaremos adiante, num futuro menos distante aqui nesse texto do que foi o espaço entre a primeira manifestação divina para o primeiro homem e o fato dito e não citado. Antes disso, todavia, carece corrigir um erro supra cometido, ao citar o fato da primeira lei, ditada pelo criador ao pai de todos, está grafado que ele, o criador, apareceu para este homem solitário que habitava o Éden, porém isso não corresponde à verdade dos fatos. A criatura nunca viu seu criador, toda manifestação do habitante celeste sempre foi usando apenas a voz que, mesmo sem registro fonográfico, crê-se se tratar de uma voz grave, oscilando entre tenor, quando em repouso e de bom humor e baixo, quando zangado como quando repreendeu a mulher. Mas isso é o custo por ter citado na ordem dos acontecimentos dos fatos, para que esse registro tenha, por assim dizer, validade legal e possa de uma vez por todas compreender a “natureza” da primeira família, e assim, quem sabe, eximir de vez a culpa de Caim de ter cometido o primeiro fratricídio que se tem notícia, contudo convém retomar nossa narrativa do ponto onde paramos. E, estando o homem, como era costume naquele tempo, sentando à margem do rio Tigre, espantando mosquitos que se aproveitavam da falta de vestimentas do desnudo homem, contemplador por falta de opção estética imaterial da beleza do lugar quando a voz grave do criador se fez ouvir sem nenhum aviso prévio. Nenhum sino tocado por qualquer serviçal divino, o assombro daquele quase trovão quase fez Adão cair no rio, tamanho foi o susto. Ele que nem imaginava a possibilidade de existir um ser assim, totalmente onipresente, teve o primeiro lampejo de medo, naquele momento quis voltar ao útero materno, o que seria impossível uma vez que este não teve o privilegio de ter uma mãe, e ele o único filho sem mãe que se conhece. Adiante se viu intrigado pela proibição que lhe foi imposta. O criador por sua vez, arrotou sua regra e foi logo cuidar de algum problema doméstico da residência dos seres celestes ou, sei lá, olímpicos, deixando o homem fazendo sua primeira meditação. Na verdade isso se deu de forma muito rápida, o homem pensou “não devo comer o fruto da tal árvore, ta bom”, ele não comeria mesmo, não por que lhe sobrava obediência ou faltasse vontade, mas por que a localização da mencionada árvore era distante demais de onde tinha definido como sua área de vida. Não pense o leitor que Adão fosse afeito a definições científicas, definitivamente não era mesmo, apenas era adepto do menor esforço, depois de escolhido sua árvore dormitório, ele não se afastava dali além do raio maior que uma jornada de sábado, locomovia-se mais nas primeiras horas da aurora e nos instantes que antecediam o crepúsculo. Aquele inusitado regulamento, o primeiro de todas, em nada alteraria sua rotina, voltou-se a se sentar à margem do Tigre, tomando cuidado com os ramos de modo a não lhe arranhar o traseiro e os ainda inutilizados testículos desnudos.
Em verdade vos digo que a vida percorreu sem alteração mais algum tempo, e Adão, apesar de não esboçar fáceis sorrisos, começara a gostar da vida que levava. Numa lassidão a dar inveja a Dorival Caymmi não movia os músculos virgens para nada, não que ele não gostasse da preguiça antes, é que não sabia o que seria gostar, ou deixar gostar. Seu mundo sensível se resumia aos sentidos primários e aos poucos percebia que inenarráveis coisas lhe agradavam. Na extensão aproximada de um stadium romanus, do pé de mangueira usada para dormir, ele já conhecia quase tudo que havia e com tudo já se dava bem. Se não ria era por que não tinha para quem mostrar o terceiro molar e não por ser ou estar infeliz, no entanto eis que um belo dia, enquanto voltava de um passeio do outro lado do universo o criador passou os olhos pela sua Terra recém criada e viu Adão com seu jeito acomodado e muito sisudo, um pouco mais adiante um casal de cervos saltitava alegre, deus então cismou de decidir que o homem estava triste e solitário, e como é da “natureza” de deus, por ser onisciente, achou desnecessário consultar sua cria. Tudo bem que não tenha perguntado, pois que Adão por certo jamais fora dado a palestras, já que responder questões, assim como pensar sobre sua vida e fazer esforços não era da “natureza” do homem até aquele saudoso momento. Com o fito de mudar o quadro que vislumbrava, deus lançou mão do último Fiat. Sem perceber nada que acontecia, Adão caiu em sono profundo, coisa que pare ele não representava nenhuma estranheza, uma vez que acostumado estava, o assombro foi acordar com uma forte dor no abdômen, e uma pequena marca de corte em decorrência de ter sofrido a primeira cirurgia sinistra registrada nos anais dos horrores inexplicáveis da medicina. O criador retirou uma inútil ripa de costela do solitário homem e, com ela criou uma figura parcialmente semelhante ao próprio homem, no entanto com deliciosas e desejadas diferenças que mais tarde se mostrariam culpadas pelas mazelas da humanidade. Sem o aprazível corpo de fêmea Páris jamais teria furtado a paixão de Menelau e Aquiles não passaria noite eloquentes entre os braços e pernas de Briseida, a ninfa de Apolo no reino de Heitor, evitando assim a tragédia de Tróia. Por estar com fortes dores e ainda sob efeito do anestésico etidocaína, o ser solitário nada percebeu da novidade que estava ao seu lado, para tanto foi preciso que deus novamente usasse sua voz-trovão e chamasse a atenção do macho distraído. Ao fazer essa apresentação deus, que na época ainda não era conhecido por esse codinome, achou por bem distinguir uma criatura da outra, foi assim que aquele primeiro bípede sem penas, com poucos pêlos e possuidor de polegar opositor, foi chamado genericamente de homem, e patenteado no cartório de registros divinos, como Adão. Extraída abaixo da última costela flutuante do recém batizado Adão, deus que é macho por ausência de escolha, chamou de mulher, por ser da mesma raça que o homem, e ela de Eva, para que se sentisse razoavelmente importante, e não fosse apenas mais uma fêmea no jardim. Pronto. Estava definitivamente concluída a criação. Para Adão, que buscava se acostumar com regras, e agora com seus monossilábicos nomes, a figura da mulher pouco representou ou significante foi nos primeiros meses. Ele, como é da “natureza” dos homens, demorou muito para começar a notar as finalidades da existência daquele ser que se parecia com ele, mas que possuía algumas alterações físicas que ele, aos poucos, passou a admirar sem, contudo, fazer a menor idéia de quais vantagens teria. A mulher, por ser da sua “natureza” muito rapidamente tratou de puxar prosa com Adão. A indiferença de Adão e a impaciência de Eva esfriaram a relação, com o tempo se aproximaram do que Machado de Assis chamaria de amizade de criança. Notem que o termo cai muito bem para o caso, no entanto quando o homem resolveu dar atenção à mulher esta resolveu se afastar um pouco, Eva havia feito outras amizades, e assim como em nossos dias, nem todas as amizades são aconselháveis, foi uma dessas que motivou a maldição do primeiro casal, resultando na condenação de todas as pessoas, inclusive dos que já, naquela época, viviam em outras paragens.
Em verdade vos digo que numa bucólica tarde de quinta-feira, estando Adão em sua tarefa predileta, de sentar-se às margens do rio Tigre e atirar pequenos frutos aos peixes que se aglomeravam próximo à barranca, eis que Eva veio ter para com ele, e trouxe-lhe um delicioso agrado. Ela chegou animada, tesa na certeza de que seu gesto agradaria em cheio o único homem do paraíso, e quem sabe assim ele resolvesse, de uma vez por toda conhecê-la. Ela estava testemunhando a história narrada nesse alfarrábio, mas o que ela queria há algumas semanas era explicitamente conhecê-lo no sentido bíblico. Eva aproximou sorrateira, com feição marota estendendo as mãos, ofereceu-lhe aparentemente um delicioso e suculento fruto vermelho. Ele a principio assustou-se lembrando da proibição intrínseca à primeira regra, tentou a recusa, mas a mulher, como é da “natureza” das mulheres, o convenceu com grande facilidade. E ele comeu. Até hoje não se sabe exatamente qual era esse fruto maldito. Especula-se se tratasse de suculentas maçãs, mas não há evidencias históricas. Acredita-se que deus tenha ordenado a extinção da referida árvore do Éden, e como se tratava se espécie endêmica, isso teria eliminado a fonte do pecado da face da terra, mas o fato de não saber de que fruto se tratou não muda nada, tampouco ameniza os fatos seguintes, posto que, imediatamente a ingestão não mais que a primeira nesga do referido fruto, Adão, que desde que fora expelido sabe-se lá de onde, zanzava nu pelo jardim sem nenhum pudor, nem a presença de Eva, criada tempos depois, o perturbava. Na verdade ela também nunca houvera usado nenhum modelito da grife Armani ou um vestido de noiva de Ronaldo Ésper para cobrir seu libidinoso corpo moreno, afinal somente o diabo veste Prada, por isso fico a imaginar se deus veste Saint Laurence. Sem perder o foco voltemos a ela. A vaidade fora criada antes da mulher assim apenas aquelas inatas celulites a incomodavam, mas o fato que importa era que, sem motivo aparente, ambos ficaram envergonhados por estarem nus, possivelmente pelas imperfeições que passaram a notar em si e no outro. Intuitivamente alcançaram as primeiras folhas enquanto ia mordendo o vermelho fruto se cobriam com as partes vegetais da palmeira, entretanto, vejam que fatalidade, o criador, como é da “natureza” de deus, naquele instante olhava para sua belíssima criação, e percebeu que estavam descumprindo sua primeira regra, eis que sua voz foi novamente exposta. Ao ser questionado sobre o que fazia, Adão saiu de detrás dos arbustos que usou para esconder-se, uma vez que agora sentia vergonha e, com seu jeito introvertido tentou justificar o inescusável. Isso após se engasgar até quase sufocar, mas assistido por Eva, que instintivamente deu tapinhas em suas costas foi obrigado a utilizar do seu inalienável direito da réplica soltando o verbo contra deus. Como que por castigo, o homem entalou-se com o pedaço do fruto que tinha na boca, de tal forma que quase fica mudo para todo o sempre, após um tempo incomensurável, Adão conseguiu dizer algumas palavras justificando que fora a mulher que lhe dera o fruto. Ele poderia ter usado a verdade, e quem sabe assim o criador os tivesse perdoado, pois que a regra fora ditada uma única vez, tempos antes de Eva ter sido subtraída de sua costela do lado esquerdo do tronco, portanto ela não fora informada de tal imperativo. Certamente deus poderia dizer que era responsabilidade de Adão, mas como pode um ser superior esperar cardinalícia responsabilidade e discernimento de alguém que ainda estava aprendendo amar, viver e sofrer? Deveria deus ter manifestado a bula primitiva para Eva ele mesmo quando a ela lhe deu a vida, pensou Adão, mas só pensou, e disse apenas que a culpa era dela, então a voz virou-se para Eva, esta disse que fora sua amiga serpente que havia feito à propaganda dos benefícios afrodisíacos da fruta e como não sabia que não podia, ela não percebeu nenhum mal em apreciá-la. Argumento não aceito. Totalmente irado, mais pela desobediência que pela conseqüência prática de terem comido o referido fruto maldito, o criador, como é da “natureza” dos progenitores daquele tempo, expulsou os dois do Éden, também chamado de paraíso sobrando para a serpente à maldição de ter que rastejar sobre o próprio ventre, eternamente. Tal castigo abriu uma questão que atormenta a todos desde aquele tempo até nossos dias afinal como se deslocavam antes as serpentes? Rastejar sobre o ventre não parece ser a coisa mais natural da “natureza” das serpentes? Bem sobre isso nunca teremos respostas, pois quem soube fora apenas Eva, e por capricho, vendo a curiosidade de Adão, não revelou a ninguém, nem mesmo os vários filhos e as futuras mulheres.
Em verdade vos digo que não fora apenas à expulsão, o castigo de deus para Eva e Adão, por terem comido o fruto da árvore da ciência do bem e do mal. Ele também cuidou para que ambos fossem acometidos de infortúnios, sempre relacionados com alguma característica que lhes fossem mais cara. Eva, por exemplo, foi condenada a sentir dores no parto. Mas o que é um parto? Pensou Eva, também se tornarás inimiga mortal de sua amiga serpente e, a cada mês sangrarás o equivalente a mesma quantidade que comeste desse fruto e por fim, engordarás. Isso sim, fez Eva muito infeliz. Para Adão, apenas dois outros castigos, ser obrigado a se esforçar na lida, para retirar seu sustento, o que para o homem parecia ser totalmente contra sua “natureza”, e teria que conviver com as crises da mulher, que ocorreriam a cada mês, antes que o fruto fosse novamente expedido. Adão nem de longe imaginou, naquele momento, a gravidade desse castigo.
Em verdade vos digo que partiram escoltados até os limites do Éden, em seguida ordenou o senhor, com voz trovoada alguns querubins que fossem postos em sentinela nos portões, para evitar o retorno dos exilados do jardim. O primeiro casal, protegido por pesados casacos de couro de animais (por certo abatidos em sacrifício servindo à tropa de arcanjos e querubins), presente recebido do criador, minutos antes da copiosa exclusão, se protegiam dos arbustos similares à caatinga, mesmo estando muito distante, ou não, já que naquele tempo tudo era Pangéia, exceto a Oceania que já era um mundo totalmente à parte. Mas isso em nada interessava aos primeiros exilados políticos da brava e sanguinária, história da humanidade. O Éden ficou vazio. A denúncia de terem comido o tal fruto foi o fato do contato com a ciência do bem e do mal, contudo a história mostra que essa parte da acusação não procedia, posto que, nem nos milênios seguintes, muito menos nos tempos de vida daquele pobre casal, houve nenhuma demonstração de uma mudança mínima de consciência nas relações entre si e a natureza. Passaram a viver miseravelmente, por desígnios irascíveis do criador comendo as poucas ervas encontradas nos arredores, de abrigo, se instalaram na primeira caverna que encontraram, não deixando nenhum rabisco pictográfico, devido o analfabetismo e por analogia a conclusão de que o criador também o é. Não demorou e, mesmo na dureza da vida, uma pesada rotina tomou conta da vida deles. Desconheciam sua própria, e contraditória, natureza humana, ignoravam o tal do bem e do mal, de que foram acusados de se apoderarem indevidamente. Adão se ocupou em observar os animais desenvolvendo toscas técnicas de caça e procurando identificar os frutos que mais lhe parecia palatáveis e não letais mas, por medo, o cardápio crescia de maneira quase imperceptível. Eva, sem amigas, passava seus dias muito aborrecida cuidando dos poucos afazeres na caverna, quando estavam juntos falavam sobre ocorrências frugais, como a nova árvore de frutos comestíveis encontradas adiante, ou o novo igarapé que havia encontrado, nada realmente interessante. Não é por não haver registro que o tempo não tenha havido. O tempo seguiu seu prumo entre o banimento do Éden e a noite de lua crescente, em que, preparando uma lebre na fogueira, na porta da caverna, Adão olhando a silhueta de Eva sentiu uma reação estranha em seu corpo e, finalmente entendeu que poderia fazer muito mais do que apenas conversas sem sentido, então eles se conheceram, da forma que Eva já havia desejado ainda nos distantes tempos de estada no Éden. Gostaram de fornicar e os dias tornaram-se menos entediantes. Como consequência Eva emprenhou-se, primeiro de Caim e depois de Abel. Gravidez seguida, sofrimento seguido para a mulher que teve que parir ali mesmo, sem auxílio de obstetras ou parteiras, na verdade foi muita sorte que os dois rebentos tenham sobrevivido. Após a gravidez de Abel Eva, a contragosto de Adão, não mais permitiu que ele a conhecesse isso durou muito, muito tempo. A chegada dos filhos reforçou uma intima revolta em Adão, talvez pelo fato de ter nascido já adulto sem ter passado por etapas que lhe parecia muito mais agradável que a dureza que ele sempre teve que encarar, também por não ter apreendido os segredos de educar filhos essa foi sem dúvida nenhuma a mais difícil tarefa que ele, juntamente com sua esposa (pois que já se conheciam, achou melhor assumir o romance publicamente) tiveram que desempenhar. Devemos reconhecer que se saíram razoavelmente bem, transmitindo os escassos conhecimentos e quase nenhum princípio, que tinham. As crianças cresceram saudáveis e felizes, apesar de não mais conhecer Eva, Adão se julgava um homem realizado. Naquele tempo de duradouras secas foram forçados a procurar região com mais confortos. E, com esforço descobriram um vilarejo pras bandas de Bagdá, e se mudaram para um sítio próximo. Com o tempo os irmãos passaram a ajudar o pai na lida diária, Caim com o arado e Abel com o pastoreio das ovelhas, se tornando este o primeiro veterinário e aquele o primeiro agrônomo da humanidade. Eram amigos, os irmãos, e davam muito orgulho aos pais. Tudo ia bem até que um dia, o dia acabou, e os filhos não voltaram para casa. Eva não dormiu e chorou de preocupação aquela noite toda, Adão tentava convencê-la que era coisa normal da idade, e que deviam estar em alguma diversão, por sorte na companhia de garotas, quem sabe até conhecendo-as, mas o nascer do sol trouxe aflição até ao coração do jovem pai, Adão tentou acalmar a esposa, com algum chá que dispunha saindo em seguida à procura dos filhos. Custou a acreditar quando, por volta de dez da manhã, encontrou Abel em um campo afastado, caído em uma poça de sangue com a cabeça esmagada, ao lado uma queixada de jumento, que se acusava como a arma de devastador crime, sem entender o que via, Adão correu para o filho e o abraçou, erguendo o tronco até a altura do seu peito, na esperança de que ele se mantivesse de pé. Chamou repetidas vezes, primeiro como sempre fazia, mas depois chorando e gritando loucamente. De uma só vez Adão, que não teve o prazer de ser criança, nem a alegria de ter amigos com quem correr pela relva ou nadar nos riachos, que aprendeu a amar a única mulher que lhe foi apresentada, sem direito à escolha ou o desafio da conquista, que foi acusado de ter roubado algo do qual nunca se aproximou sendo condenado ao exílio, sem que tenha para isso se rebelado contra o status quo, esse homem recebeu sem piedade as piores sensações que alguém jamais deveria sentir. O homem conheceu a morte, algo com a qual nunca tinha se deparado, e que não fora preparado para lidar, assim como foi preparado para nada acerca da vida que lhe foi dada de formas inesperadas. Agora descobrira que poderia perdê-la sem nenhuma elaboração, assim como a recebeu, e ao pai a dor de perder um filho lhe proporcionou algo inexplicavelmente profundo. Como pode isso ter acontecido com alguém tão generoso? Ele tentava entender enquanto carregava o corpo sem vida do filho para casa. Eva entrou em choque ao ver o filho morto, precisou ser amparada por vizinhos. Prepararam um funeral simples, como simples era a vida e choraram tanto quanto, é da “natureza” dos pais que enterram os filhos, alterando o curso natural as coisas. Ainda havia a preocupação de todos com Caim, que não retornara para casa. Os pais não perdiam a esperança de que não havia acontecido com o primogênito o mesmo que com o irmão pastor. Enterraram Abel. O tempo passou e Caim jamais voltou para casa. Correu boato que fora Caim o assassino do próprio irmão, os pais nunca acreditaram nisso, conheciam os filhos, sabia o quanto eram unidos, um não feriria o outro, isso jamais. Em todo caso Caim jamais retornou.
Em verdade vos digo, que após vagar como vagam os fugitivos, Caim encontrou as terras de Node e por lá, uma bela e libertina jovem achou que seria boa idéia casar-se com aquele forasteiro e casaram-se, em breve tiveram o filho Enoque. Apesar de possuir a consciência tão pesada quando aquela queixada de jumento que usara para matar o irmão, Caim prosperou e criou uma cidade, batizando-a com nome do primeiro filho. Vivera uma longa vida, pois fora protegido do senhor, por que este se achava conscientemente cúmplice do primeiro homicídio.  Mas não nos interessa o fim dos dias de Caim, e sim a vida que seus pais tiveram após seu crime e partida. A vida na casa simples em que vivia a primeira família, que por anos tinha sido repleta de alegrias, com dois saudáveis e felizes garotos brincando por todo canto, tornou-se insuportavelmente triste. Adão e a esposa caíram em forte depressão e por muito pouco não desistiram de viver também, foi à solidariedade dos amigos que os reergueram, mas isso após muitos anos depois do ocorrido, mesmo assim não sorriam, nunca mais sorriram, nunca mais saiu daquele lugar, nunca mais Adão pastoreou ou cultivou. Passou a dedicar-se ao comércio, negando a todo momento as lembranças das atividades que os filhos tanto gostavam de fazer. E, por uma dessas coisas comuns na “natureza” dos pais, todas as tardes, ambos ficaram horas olhando para o caminho à frente de casa, na esperança de verem Caim regressando. Esperavam. Dormiam chorando. Um dia, mesmo sem muito desejo, mas para se sentirem vivos novamente esperando que pudessem ter um pouco de alegria no fim de suas vidas, eles reiniciaram o coito eis que, estando mais maduros, geraram Sete. O advento dessa criança trouxe de volta fragmentos da alegria e da vida que lhes tinham sido subtraídas há muito e Adão procurou estar mais próximo deste filho do que estivera dos anteriores, pois não queria perder um só minuto sequer. Viveu Adão mais oitocentos anos após o nascimento de Sete, e teve a felicidade de ver o filho prosperar constituindo longeva descendência feliz e morreu com novecentos e trinta anos, ainda com razoável lucidez, mas com nenhuma destreza física. Vez ou outra se lembrava do tempo vivido num lugar chamado Éden dominado por uma voz de trovão impositora de regras sem sentidos e com frutos proibidos que nada trazia a quem comesse, exceto punições injustas e sem direito de defesa, no entanto, o que mais o atormentara até a morte era a enorme dúvida sobre como se locomoviam as serpentes antes do episódio do fruto proibido, em que elas foram condenadas a rastejar sobre o próprio ventre.

28 de nov. de 2010

Inexorável Rota Insana

O despertador não dá trégua. Toca, toca, toca. Insistente, barulhento, ecoando pelos quatro cômodos da pequena casa situada no Jardim Novo Mundo, em Goiânia. Melhor não resistir, apesar do desejo enorme de não sair da cama. São seis da manhã, e a professora precisa encontrar forças em alguma parte do seu ser para enfrentar mais uma semana que, certamente não será diferente das demais. Está cada vez mais presente o forte desejo de parar de vez com o magistério. A total falta de interesse da maioria dos seus alunos somada à duradoura desvalorização, e desrespeito da classe pelos governantes, e donos-vis de escolas, funcionam cada vez mais como desestimulantes. Mas parar como? O que poderia fazer agora, se lecionar é o que ela tem feito por longos 23 anos? Não tem saída, vai resmungando como sempre faz todas as manhãs, sobretudos nas segundas-feiras, mas vai resignadamente se dirigir à escola municipal ministrar aulas de geografia e história as séries finais do ensino fundamental. “Só mais alguns anos e me aposento”, é o pensamento que tem servido como falso refúgio para acalmar sua alma que já não se excita com mais nada nessa vida. Na rua os carros sonorizam o início da rotina, as buzinas ditam o ritmo frenético, por toda parte diversos sons urbanos preenchem os espaços, nos lembrando que já é mesmo hora de acordar. Afinal o dia já começou, e é segunda-feira. A desiludida professora, sem um pensamento feliz que seja, se veste sem empolgação, escova os dentes amarelados pela nicotina, prende o cabelo com uma liga bastante gasta, pega sua bolsa com os diários desse ano, os livros que há cinco anos usa algumas páginas fotocopiadas e saí. Segue para o terminal do Eixo Anhanguera, se aperta no ônibus que a levará até quase atravessando completamente a cidade, numa viagem de quase meia hora, para chegar ao terminal Padre Pelágio. A escola em que trabalha fica próximo à rodovia dos Romeiros, que leva à Trindade. “Lá vou cumprir mais uma penitência social”. Pensa consigo!

Muito longe de Goiânia, no Mato Grosso, às margens do Rio Taquari, próximo à cidade de Alto Taquari, existe um povoado, distrito de Alto Araguaia. Lugar chamado de Vila do Buriti, há lá uma mercearia, uma escola com poucos alunos, um boteco, um telefone público, ou dois, e não mais que duas centenas de moradores. É lugar tranquilo, com pessoas acomodadas, para se chegar lá, é necessário descer a perigosa Serra Preta, se está indo das bandas de Alto Taquari, ou enfrentar a estrada com intermináveis bancos de areia, se o aventureiro vem dos lados de Alcinópolis e Coxim, no Mato Grosso do Sul. Nesse lugar, no mesmo momento que professores de Goiânia seguem em ônibus lotados para suas salas de aulas, uma velha senhora está de pé, preparando um café cujo aroma pode ser sentido não só na cozinha, mas no quarto pequeno e no banheiro úmido e lodoso, que compõem sua pequena morada. Ela também não sorri. Não conversa. Não reclama. Não faz planos pra hoje. E não se lembra de quase nada. Mas isso foi uma escolha feita há vários anos. Ela apenas passa seu café em seu velho coador de pano borrado, senta-se sozinha, como faz todos os dias e toma seu café sem nenhuma pressa. Afinal não faz a menos diferença que dia é hoje. Na verdade ela nem sabe que é segunda-feira. A única coisa que ela vai fazer em mais esse dia é esperar. Esperar que anoiteça e, principalmente, que uma certa visita finalmente venha lhe ver. Teve cansaço, irritação, ressaca, dores de cabeça, corrida aos bancos, para cobrir os gastos do final de semana. O transito foi, como sempre, infernal. O dia pareceu maior do que realmente é. Tudo isso por que é segunda-feira. A noite encontrou uma professora desiludida, corrigindo provas em sua casa na periferia de Goiânia. Na Vila do Buriti, uma velha sozinha, com sua TV de 20 polegadas com seletor e válvulas em preto e branco, não mostra nada interessante. Ela não recebeu a visita que tanto deseja. Não recebeu cartas, não recebeu notícias de quem quer que fosse. Não chorou nem sorriu. Apenas esteve ali, em mais um dia. Uma segunda-feira.
Às treze horas uma jovem e bela enfermeira, em início de carreira verifica os sinais vitais dos pacientes de sua ala, no Hospital Albert Einstein. Mineira de Araguari, morena, 21 anos, formou-se há menos de 4 meses conseguindo o que considera o estágio dos sonhos. Autoconfiante sabe que terá uma carreira brilhante devido à profissão que escolheu. Morar sozinha em São Paulo, não mais depender da mesada que seus pais ainda mandam é uma demonstração clara de que estava no caminho certo. Tem também o novo namorado, jovem e promissor engenheiro, que a trata como sempre imaginou. É uma pessoa realmente feliz e está num bom momento de sua existência. Nada, nem mesmo o fato de ter que limpar excrementos de pacientes idosos, é capaz de estragar seu dia. Nenhum dia. Inclusive nessa terça-feira. No Mato Grosso, a aziada velha, moradora da Vila do Buriti, como acontece em quase todos os dias, não sai de casa. Sequer vai ao seu portão. Só vê a luz do sol pela janela de madeira, que abre para deixar sair um pouco o mau cheiro do seu banheiro imundo. E, novamente, nenhuma visita vem lhe ver. Nada muito interessante, nesse dia. A bonita enfermeira prossegue otimista, vivendo amando e aprendendo. Enquanto a lastimosa velha vê passar mais um dia. É assim. E assim foi mais uma terça-feira.
Noite de jogo. Escalado pela primeira vez como titular, o zagueiro está ansioso, apesar disso confiante. Jovem, filho de agricultores extrativista, sempre gostou muito de futebol, como todo garoto. Quando criança era apenas diversão. Mas sua ginga despertou interesse no treinador da escolinha do Andirá Esporte Clube, onde começou nas categorias de base. Agora está ali, vestindo o uniforme verde-negro. O Estádio José de Melo não está exatamente lotado, tampouco é decisão. A temporada do campeonato acreano está no início más, para ele que inicia jogando pela primeira vez, a sensação é de que todos os torcedores de Rio Branco estão lhe olhando. Ele termina de amarrar a chuteira e, antes da preleção final do treinador, procura um canto do vestiário e, sozinho, faz sua prece silenciosa.
No vale do Taquari, a noite encontra aquela resignada velha que novamente passou o dia como se não o fizesse. Ela se deita, sem esboçar sorrisos e sem chorar. Não vê motivos para nada. Nenhum sentimento lhe toca. Sente aquela sensação de ataraxia defendida pelos filósofos estóicos de Atenas. Apenas deita. Se deita apenas por ser noite, afinal não tem vontade. Foi mais um dia sem a sinistra visita que aguarda. Em Rio Branco o jogo prossegue. A atuação do jovem zagueiro é modesta, mas ele acredita que agora pode se firmar como titular. Certamente não acabará sua vida como seus pais, coletando açaí e castanha. E quem sabe poderá até conseguir alguns contratos com times do Rio, o de Janeiro ou São Paulo, se assim fosse ficaria rico. Ser convocado para a Seleção. Morar na Europa. Tornar-se pop star. Ficar rico. Agora seus dias não mais seriam iguais. Ao contrário dos dias da amarga velha da Vila do Buriti. Para ela, mais um dia chega ao fim. Um dia qualquer. Para ele, esse dia ficará marcado para sempre. Afinal é dia de futebol. É quarta-feira. Foi quarta-feira.
Corrupto, o velho Senador com 79 anos da novíssima República se esforça para aprovar seu projeto que beneficia diretamente um grande empreiteiro, de quem receberá uma generosa propina. É quase um Cícero na tribuna. Tem grande capacidade de persuasão sendo ardiloso articulista. Para ele não é difícil convencer seus pares da CCJ afinal 3/5 dos insignes parlamentares lhe devem favores pessoais. Para ele é uma grande vitória, e acredita que no plenário não terá problemas também. Numa ligação, ele fala com seu corruptor obtendo a confirmação de que os milhões acordados serão transferidos para as contas das pessoas por ele indicado. Após o almoço passa no gabinete assinando documentos, passando instruções aos assessores. Do aeroporto JK embarca no meio da tarde para o Maranhão, uma vez que o expediente da semana já se encerrou. Afinal é quinta-feira. Na vila do Buriti, a casmurra mulher lava as poucas roupas que possui, sem capricho, sem preguiça, sem vontade. Sem nada. Apenas lava. A maldita visita não veio hoje, e ao que parece não vem mesmo. Naquele final de dia o Congresso Nacional está praticamente vazio. Nenhum Deputado e tampouco Senadores estão mais em Brasília, por fim no Planalto Central a semana termina na quinta-feira. E tanto no DF quanto na divisa do planalto do Cerrado com a planície pantaneira, a sisuda velha vive sozinha, sendo proprietária de apenas uns poucos trapos para lavar, ela encara a si mesma de forma totalmente díspar de um senador corrupto, hoje é quinta-feira.
Ah! A sexta-feira, dia internacional da cerveja. Dia em que os jovens iniciam a odisséia dionisíaca do final de semana quando acontece the best in happy hour the city. Todos esperam parar mais cedo indo logo p`rum bar começando ainda com sol a azaração. Na Avenida Cesário de Melo, nº 3226, em Campo Grande, no Rio de Janeiro, no entanto um experiente segundo sargento bombeiro está de serviço, e sabe que o dia será carregado de ocorrências, urgências e emergências. É assim todas as sextas-feiras, muitos acidentes e o grupamento do Auto Socorro de Emergência não tem folga. Os poucos momentos entre um salvamento e outro é preenchido na tentativa de manter o controle emocional relaxando o mínimo possível conforme o estado de sempre alerta.
Quando o sol começa a se por, e a noite começa a se apresentar, a situação se torna muito mais tensa. Irresponsáveis motoristas bêbados se matam. Matam pessoas que nem participaram de sua comemoração, ou de sua mágoa, que não beberam com eles. Desiludidos que resolvem não querem mais viver. Tem aqueles que imaginam ter o direito de interromper a vida de outros. “Balas perdidas”, reação a assaltos, guerra da polícia contra traficantes. A criança que se engasga com qualquer coisa que mal caiba na boca, e não passa pela garganta. O gatinho que ficou preso no alto de alguma árvore. Tudo isso torna as sextas-feiras dias muito cansativos para os bombeiros. E nesse dia não é diferente. O segundo sargento não reclama, a menos que não consiga salvar uma vida, mas não vê a hora de deixar o turno, quando a noite de sexta-feira acabar. Enquanto isso não acontece, segue ele atendendo todas as chamadas com presteza, eficiência e boa vontade. Na Vila do Buriti, a pacata velha dorme, depois de um dia intensamente vazio quanto os demais. Um brinde. Afinal é sexta-feira!
O Sol nasce, e um chicleteiro chega em casa na manhã de sábado, depois de uma noite inteira passada ao som de muito axé e centenas de beijos na boca. Beijos rápidos, sem envolvimento em pessoas de quem ele não sabe o nome, e certamente nunca mais saberá. Cheio de tanto vazio, ele chega pra dormir. Está feliz. Ele mereceu, depois de uma semana cheia de trabalho no escritório de contabilidade onde é escriturário, a festa no Bairro da Liberdade foi um ótimo programa. E agora, mesmo morando ali, pertinho da praia de Jaguaribe, não quer saber de mar. Ele cai na cama e logo adormece. Provavelmente passará o dia na cama. Pode, até mesmo, emendar com a noite que virá. Não tem, e não quer obrigações nesse dia, afinal é sábado. A cordata velha da Vila do Buriti não se importa se é sábado ou inverno. Ela faz as coisas de sempre. Toma seu café passado no coador de flanela. Assiste o dia passar, sem esboçar sentimentos, novamente nenhuma peculiar visita. Em todo canto de Salvador se ouve música. A capital baiana é uma festa, de vários ritmos, para todas as tribos. Mas aquele contador-chicleteiro não vai sair da cama. Afinal é sábado.
Em Juazeiro do Norte o domingo é dia de missa, para muitos fiéis de visita à estátua de Padre Cícero. Devotas e devotos de todas as idades, cidades e intimidades aproveitam o dia para demonstrar sua fé. Agradecer por graças recebidas e pedir novas intervenções do santo cearense.
Em Goiânia aquela vassala professora desejando apenas se aposentar, perde seu tempo vendo programas na televisão. Uma jovem enfermeira e seu namorado visitam o MASP e depois caminha pela cidade que está vazia, e sem chuva. No Acre um jovem zagueiro está no banco de reservas do Andirá Esporte Clube, mas sabe que entrará no segundo tempo da partida contra o Plácido de Castro enquanto o ímprobo Senador da República pelo Maranhão, recebe alguns companheiros de partido, empreiteiros e membros do Palácio dos Leões para um churrasco, regado à cerveja alemã e azeite lusitano, claro com a presença de algumas bonitas mocetonas, monetariamente atraídas para “animar” a festinha. No Rio, um segundo sargento bombeiro aproveita o domingo de folga para ir com a esposa e o filho adolescente remar na lagoa Rodrigo de Freitas. Em Salvador, no Mangue Seco de Tieta, os salva-vidas não conseguem socorrer um jovem arrastado pelas ondas. Ao ser retirado do mar, o chicleteiro escriturário já não respira. Ninguém sabe como pode ser, já que ele era excelente nadador. Não farão necropsia, e jamais saberão que foi seu jovial coração que decidiu parar de bater, naquela tarde de domingo.
Enquanto isso, a macambúzia velha vivente sozinha na Vila do Buriti, vê o dia arrastado passar. Ela não se importa com nada. Às vezes se lembra do marido morto há alguns anos, e do filho que se mudou ainda garoto, para Campo Grande, sem jamais dar notícias. Conformou-se logo, com a idéia entendida como sina das mulheres a condição de ficar sozinha quando se envelhece. Seu filho se foi pra longe, e não lhe deu nenhum neto. Ele tornou-se pai de dois filhos, entretanto nunca trouxe nenhum deles para conhecer a solitária avó. Ela vive ali, sozinha. Não vai à igreja. Não quer mais saber de conversar com os vizinhos. As poucas saídas são pra ir à mercearia quando precisa comprar mantimento. Além disso, não arreda pé de casa. Não quer correr o risco de sua visita aparecer e não encontrá-la. Nessa tarde ela está lá, sentada, olhando pela janela, enquanto espera o dia passar, e a visita aparecer.
A noite chega. Algumas pessoas vão pra rua, aproveitar os últimos instantes do final de semana, outros continuam perdendo tempo de frente à TV, outros choram os entes perdidos. Nas igrejas poucos fiéis oram, rezam, estudam, pedem e agradece. Mas na Vila do Buriti o cheiro de gordura do jantar simples se mistura com o do banheiro imundo e com o sempre presente aroma de café. Enquanto se prepara para deitar a acabrunhada velha, em um raro momento, deixa escapar um pensamento, que nos faz entender o sentido que sua vida tem agora: “Ô meu Deus, até quando ainda terei que esperar para que a morte venha me visitar?”. É domingo!
Daqui a pouco será segunda-feira novamente. A semana recomeça e a rotina se repete. A vida continuará seguindo seu curso, inclusive na Vila do Buriti, para a amargurada velha já muito cansada de viver a espera do corte do fio das Moiras.

19 de out. de 2010

Da série de contos "ai, deu medo" - O último trago

Sentou-se no velho sofá, ligou a tv e tomou um gole de seu whisky barato. Já passava das quatro da manhã e ele estava totalmente acordado, mesmo sendo essa a terceira noite seguida sem dormir. Estava suado, tinha manchas de sangue por toda sua roupa e estava todo sujo de terra e lama.

Tomava um gole atrás do outro. Não via nada na televisão. Sequer olhava para a tela que só servia para clarear um pouco o ambiente, enquanto sua mente acelerada revia os últimos acontecimentos e repassava os planos futuros.

Já nem lembrava direito como e quando tudo começou, mas sabia claramente o porquê. E agora não dava mais para voltar atrás.

Na estante a foto da filha. Ele olhou como sempre olhava, com saudades da pequena que lhe foi tirada, morta em um assalto com apenas seis anos.

Foi o assaltante? Foram os policiais? Nunca ficará sabendo. Mas isso agora não faz a menor diferença. O que conta era que aquele assalto em uma casa lotérica pôs fim à sua paz. Paz que ele estava tentando recuperar a duras penas.

Levou tempo até consegui se erguer. Quase três anos após a morte da filha ele ainda não havia reagido. Perdeu o emprego, perdeu a esposa que, enlouquecida, se matou. Perdeu os amigos, que se afastaram, em clara demonstração de terem desistido dele. Perdeu a casa, perdeu a saúde e por fim, perdeu a fé.

Não acreditava mais que a polícia iria descobrir os culpados. Não acreditava, na verdade, se havia uma investigação. Não acredita que a justiça seria feita. Não acreditava que poderia voltar a sorrir, não acreditava mais em Deus. Acreditava sim, que a vida é injusta (não Deus, Esse não existia mais para ele). Acredita que devia morrer logo, para encurtar seu sofrimento. E um belo dia, que ele não se lembra exatamente quando, passou a acreditar em uma coisa nova. E vestiu de vingança.

Do primeiro lampejo de vontade, até a primeira ação foram mais de seis meses. Tempo usado para levantar informações, planejar cada etapa, arrolar os envolvidos e preparar os instrumentos necessários. Ele que passava mais tempo na cama, como um cadáver, aos poucos foi se levantando. O sol voltou a tocar com mais freqüência seu corpo debilitado.

Jardinagem e biscates diversos foi o que resolveu fazer, para voltar à vida, e ganhar o mínimo para a sobrevida.

O velho corcel marrom, quase sem pintura ainda lhe valia de transporte.

Mas sorriso era coisa que não se via em seu rosto.

Cortar grama, cortar árvores, consertar encanamento, limpar caixas d’água. Essas suas tarefas mais corriqueiras.

Gostava das plantas. Tinha especial predileção pelas rosas brancas e pelos lírios, as flores preferidas da pequena Teresa.

Trabalhava duro, todos os dias. O dia todo. E voltava sempre pra casa. Não ia a bares, não procurava mulheres, não falava com amigos (na verdade não os tinha mais havia um bom tempo) e não atendia ao telefone após as 18 horas. Tornara-se quase uma máquina. Uma triste e solitária máquina.

Sem qualquer vida social, suas únicas ocupação eram dar vazão à sua mente adoecida, embriagar-se com whisky barato e ficar na frente da tv, sem ver nada.

Há duas semanas passou a sair toda noite, sempre após as 23 horas, voltando tarde na madrugada. Os vizinhos nem se deram conta dessa nova rotina. Ninguém se importava mesmo com ele, e o barraco onde morava agora ficava em um bairro onde a normalidade é composta por coisas anormais.

A cada noite cumpria parte do seu plano sinistro.

E, na sua loucura, se sentia um pouco aliviado, sempre que voltava para casa.

Estava cada vez mais forte, e percebia que a cada madrugada crescia um pouco mais sua coragem para o último e mais importante passo que precisa dar.

Agora, enquanto tomava mais um gole do seu whisky barato repassou seu plano. Faltava apenas quatro noites, se nada saísse errado. E nada deu errado até aqui, por isso ele sentia que tudo aconteceria perfeitamente como planejara.

O alarme do relógio sinalizou 5 horas, ele deu mais um trago, e foi se lavar. Durante o banho, suas constantes lágrimas se misturaram mais uma vez com o resto de sangue que a água do chuveiro e o sabão retirava de sua pele. E ele tentava se animar, lembrando que em cinco dias estaria tudo acabado.

Quando sentirem falta dos desaparecidos, e começarem a buscá-los, e se encontrarem os 39 corpos, amarrados em grupos de 3 ou 4 à pesos metálicos, jogados no rio Meia Ponte, entre as Rodovias GO-19 e GO-20, certamente já terá passado bastante tempo. E se desconfiarem dele, ou não, e alguém ir à sua procura, não o encontrarão vivo.

Seu corpo estará sozinho, no velho barraco, sentado de frente à uma tv ligada, sem ver nada, como quase sempre foi. Ao lado haverá uma garrafa de whisky. Nada mais.

A velha e eficiente cicuta já estava diluída em uma das três garrafas de whisky que tinha no armário da cozinha. A única garrafa de um bom whisky 12 anos.

23 de set. de 2010

O Serial

O telefone toca, insistente, no meio da madrugada. O detetive Ribeiro atende sonolento e ouve do outro lado a afirmação “temos mais uma vítima aqui, detetive”.
Ribeiro abre os olhos e pula da cama. A informação o faz despertar completamente, mesmo sendo 4:47 da manhã, ele tendo ido dormir quase duas. Ele se veste rápido e segue para o local informado pela voz do outro lado da linha.
Era do outro lado da cidade. Ele chegou rápido, nessa hora o transito é relativamente tranqüilo. Alguns policiais militares isolavam o local. Quase não havia curiosos. Apenas uma meia dúzia de pessoas assustadas, entre eles a moça loira que ligara para a polícia, aos gritos, dizendo que sua colega de apartamento estava morta. Bethânia ainda estava em choque, e era auxiliada por atendentes do SAMU que também estavam no local.
Ao chegar Ribeiro é recebido pelo cabo Oliveira, que o havia acordado com o telefonema.
“O que temos aqui?”
“Mulher, 26 anos, morena, solteira. Foi encontrada pela colega com quem dividia o apartamento”.
“Mesmas características?”
“Sim! Pulsos e garganta cortados e vagina costurada”.
“Meu Deus, quando isso vai parar?”
“Quando você pegar esse doente, detetive”.
Chegaram ao quarto da vítima, a cena do crime. O cheiro de sangue fresco preenchia o ar. O corpo de Letícia sobre a cama. Totalmente nu, como se estivesse sentada com as costas apoiada no travesseiro, e este na cabeceira da cama, pernas cruzadas, e braços cuidadosamente ajeitados, com as mãos se encontrando logo abaixo do umbigo.
“Nossa, ela era linda”, Ribeiro não se conteve ao ver o rosto bem cuidado emoldurado por longa cabeleira negra que se estendia até quase tocar o colchão.
“Um tremendo desperdício, não acha?” Concordou Oliveira, tentando ser engraçado.
“Que hora ela foi morta?”
“O legista ainda não disse nada, mas pelas características foi por volta de meia noite. A colega chegou por volta das duas da manhã e estranhou quando viu a porta do quarto aberta, luzes acessa e o som ligado, quando entrou no quarto encontrou isso”.
“Deve ter sido um susto e tanto. Coitada”.
Ribeiro, detetive experiente em colher evidências em cenas de crimes, ficou ali por quase duas horas observando, fotografando, coletando tudo que pudesse dar informações sobre o que aconteceu naquele quarto. Muito esforço e pouco resultado. Quase nada lhe pareceu fora do lugar. Quase nada que dissesse alguma coisa sobre o assassino. Outra vez ele havia sido cuidadoso, “limpo”, sem deixar rastros.
As 7:23 ele liberou a cena do crime para que os legista levassem o corpo da vítima para o IML, para depois. Ribeiro pediu para ser informado o mais rápido possível de tudo que descobrissem naquele corpo.
“Betão, estou indo. Bom dia”, se despediu do amigo Roberto de Oliveira, o cabo PM responsável pela segurança do local, e saiu passando pela pequena multidão que já se aglomerava no corredor do 6º andar daquele prédio situado no Setor Balneário Meia Ponte, e seguiu direto para o Cidade jardim, para a Delegacia de Investigações de Homicídio.
Pegou uma caneca grande de café, sentou em sua mesa e pegou todas as informações sobre a sequência de crimes que vem investigando há oito meses, e no qual a morte da jovem Letícia.
Doze vitimas nesse período. Todas jovens mulheres, bonitas, solteiras, estudantes ou recém-formadas. Quatro moravam com os pais, e foram mortas em quarto de motel, com registro feito no nome delas. As demais moravam sozinhas ou com amigas, e morreram em seus próprios quartos. Em comum o corte na garganta e nos pulsos, e o detalhe mais macabro, todas tiveram a vagina costurada com fio cirúrgico. Cinco pontos, amarrados bem apertados e sem cortar as sobras do fio. Como sujeira apenas o sangue das vítimas.
Outro ponto comum entre as vítimas, e que só foi descoberto mais tarde. Todas tinham romances secretos com homens casados. Mas isso não parecia ter nenhuma ligação com os crimes.
Desde o primeiro crime da série, Olavo Ribeiro, experiente investigador criminal assumiu o caso. Não imaginava que enfrentaria um serial killer.
Todos os especialistas forenses já se envolveram. De legistas a psiquiatra, todos tentando traçar o perfil do assassino. Nenhum avanço considerável até o momento. Uma coisa com a qual todos, inclusive a impressa e a comunidade é que se tratava de um doente psicopata. A essa altura a cidade já dava sinais de pânico, sobretudo os pais de jovens moças e as próprias, é claro.
Ribeiro não fazia outra coisa a não ser trabalhar no caso. Mesmo por que estava vivendo sozinho, depois de ter sido abandonado pela esposa, semanas antes do primeiro crime ocorrer. E, para suportar a dor da separação se dedicava ao trabalho quase vinte e quatro horas por dia, todos os dias. Não dormia direito. Não andava comendo direito. Um sorriso então, era coisa que não se via nele. Andava amargo. O Delegado, e o próprio secretário de segurança, já haviam decidido após concluir esse caso o detetive sairia de férias. Na verdade sairia antes disso, se o caso se arrastasse muito mais tempo.
Mas isso não lhe ocorria agora, precisa rever tudo. Estava perdendo alguma coisa. Não era possível que perderia para esse maníaco. A cada morte ele parecia se sentir culpado, por ainda não ter conseguido pegar quem estava matando essas mulheres.
A segunda morte aconteceu um mês após a primeira. Mas agora estavam acontecendo em menores intervalos. Era sexta-feira, e a ocorrência anterior havia sido na segunda-feira dessa mesma semana.
O Dia foi cheio. Entrevistas do comando da polícia. Do secretário de segurança. Até o governador foi à imprensa falar sobre o que estava sendo chamado de “O caso das costuradas”. O delegado reuniu com a equipe para repassar toda a preocupação e escalou mais alguns investigadores para auxiliar no caso. O Próprio Ribeiro foi procurado por vários repórteres dos telejornais locais para dar detalhes sobre as investigações e, principalmente, para responder a pergunta que todos faziam: “Quando essas mortes vão parar?”.
Não tinha resposta. Não tinha explicações que acalmasse, um pouco que fosse, a opinião pública.
Após o intervalo do almoço, tempo que passou ali mesmo na delegacia, tentando ler informações onde antes não tinha visto nada, o legista o chamou. Passou as mesmas informações que havia passado nas mortes anteriores.
“Ele morreu devido a hemorragia provocada pelos cortes, e teve a vulva costurada ainda viva, mas provavelmente não sentiu muita dor, pois ingeriu um forte anestésico. Deve ter bebido junto com alguma bebida, sem saber”.
“Nada novo? Nenhuma diferença mínima que seja? Um fio de cabelo, um pouco de pele debaixo da unha dela, que possa ser do culpado?”
“Nada, estava totalmente limpa, como todas as outras”.
Ribeiro, que já estava chateado, pareceu desiludir-se.
A Tarde percorreu nesse ritmo. Análises, tentativas, depoimentos. Mas nada que desse uma pequena pista que fosse.
“Como pode isso acontecer. Alguém entra no prédio, mata uma pessoa e ninguém viu nada. Não é possível”.
No final da tarde, Ribeiro foi para casa. Tinha úlceras provocadas pelo nervosismo e por não se alimentar. Não conseguia dormir, apesar de todo cansaço que sentia. Seu corpo quase não respondia mais aos poucos comandos do cérebro.
A ausência da esposa ficava cada vez mais presente em sua vida. Naquela casa então era insuportável. Ela estava presente em tudo ali. Mesmo quando tentava ver televisão, seu pensamento estava nela. Nos bons momentos que passaram. Ele nunca se perdoaria por ela tê-lo abandonado. Ela o amava, disso ela não tinha dúvidas. Mas, mesmo ele, concordava que o motivo que ela teve para ir embora era forte demais.
“Como pude ter sido tão idiota” era o que mais pensava nesses quase nove meses sozinho, ao lembrar que tudo estaria bem se ele não tivesse se deixado envolver por aquela jovem bonita e sedutora que lhe apareceu, em um dia comum de trabalho, e com quem passou a ter um tórrido romance que lhe parecia ser a melhor coisa do mundo. Mas sua esposa, a bela Clara, descobriu logo e, como ele já sabia, pois era o acordo que havia entre eles, não aceitou a traição, e sequer quis tentar refazer. Apenas foi embora.
Ele achou que ficaria bem, mas dias depois já percebia que a jovem aventureira não pretendia nada com ele além dos momentos de sexo que tinham. Quando ele propôs viverem juntos, ela também se afastou. Só aí ele percebeu a gravidade do que havia feito, e reconheceu, meio a contra gosto, a importância que Clara tinha em sua vida. Na verdade ela era a vida dele. Até mesma a alegria que levou aquela jovem a se interessar por ele, era responsabilidade dele.
“Por que certas pessoas não respeitam a felicidade dos casais, e se envolvem com um deles, provocando o fim de casamentos felizes?” era a pergunta que ele passou a se fazer. “Isso é muito errado, e quem age assim devia ser punido”.
Uma hora após chegar em casa ele ligou seu computador, entrou em uma sala de bate-papo procurando alguém com quem pudesse conversar. Logo estava com uma conversa picante com uma jovem que se identificou como Amante com Cara de Anjo. Conversaram quase meia hora, até trocarem telefone. Ela queria se encontrar com ele. Ele se apresentou de verdade, disse que queria muito também, apesar de ser casado. Ela não se importava com isso. Disso, inclusive, que seria uma ótima experiência transar com o famoso detetive.
Uma ligação rápida para acertar detalhes. Ela morava sozinha, e ele pediu para que ela não comentasse com ninguém, afinal era casado. Ela concordou.
Ele tomou um banho rápido, colocou uma roupa discreta, seu perfume favorito. Deixou a arma e o distintivo na mesa do quarto, pegou as algemas, fetiche da “... Cara de Anjo”, um pequeno frasco com líquido incolor, luvas cirúrgicas e uma agulha em meia lua, bastante utilizada, e saiu para seu encontro. Sabia que seria acordado no meio da madrugada novamente...
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21 de jun. de 2010

Da série "microcontos" - Viajante

Parou cansado.

Fitou, indeciso, as encruzilhadas do tempo à sua frente.

Não seguiu.

Sentou-se e ficou observando os lugares a passar.

20 de mai. de 2010

Ja que a Copa vem aí, uma volta à 1994 - Da Série Pequenos contos...

O Melhor do Tetra

O Sol da tarde ardia forte. Sentado na barranca do riacho, com os pés dentro d’água ele parecia pescar.

Estava ali a mais de duas horas segurando a vara, com o anzol submerso. Prestava pouca atenção na pescaria. Era mais interessante olhar a paisagem a sua volta.

Uma mata pequena, o “próprio” riacho, que ele julgava ter as águas mais cristalinas do mundo inteiro, sua pequena roça, que agora era de feijão, uma grande horta, o quintal com vários “pés de fruta”, com pouco de cada, mas muitas variedades. Mais acima sua casa, um rancho de pau-a-pique coberto de palha e com quatro “cômodos” apenas, mas que pra ele era um castelo.

Morava ali há quase vinte anos e, todas as vezes que via esse quadro sentia uma grande onda de felicidade e satisfação.

Sua distraída concentração foi quebrada pela voz de seu filho de oito anos. Único filho.

– “a mãe mandô falá que já vai cumeçá”, disse o garoto e, no mesmo instante, voltou a brincar com brinquedos feitos ali mesmo. Troncos de madeira, corda, arame, papel.... Nada de eletrônicos que brincam sozinhos. O garoto tinha saúde, amor, boa alimentação, estudava na escola da fazenda vizinha e era livre.

O moço olhava o filho brincar e quase não era suficiente para caber todo orgulho de si mesmo, da família, da pequena porção de terra onde vivia (adquirida com muito trabalho) e do seu país, o Brasil.

Ele era muito feliz e chorou sorrindo. Faria daquele garoto senão um doutor, pelo menos um grande homem, pra engrandecer ainda mais sua gente.

Passou água no rosto, recolheu o anzol e pegou o “jiqui” com os peixes que havia pescado. Ele sorriu e seguiu em direção a casa. No quintal apanhou um punhado de milho para pipocas, que secava. Entrou, pediu pra esposa “tratar” do peixe, e foi estourar as pipocas. Depois de prontas, pegou um copo com aguardente, sentou-se à mesa rústica, de madeira e aumentou o volume do rádio à pilha que já estava ligado.

– “Rola a pelota aqui nos Estados Unidos da América”, disse o locutor antes que ele se ajeitasse direito no tamborete de três pés.

Era dia 17 de julho de 1994, domingo, 5:00 horas da tarde. O mundo estava voltado pros EUA, pra final da Copa 94 de Futebol. O nosso futebol, apesar da copa ser lá. No gramado, dois dos países mais tradicionais neste esporte, Brasil e Itália.

O moço vibrava a cada lance narrado com mais empolgação pelo locutor. Ficou nervoso, bateu na mesa, comeu pipocas e tomou cachaça. Já ia pedindo pra que Deus ajudasse o Brasil ganhar quando, apoiado em sua humildade e total ausência de egoísmo, se lembrou que o Deus que o havia criado é o mesmo que criou os italianos e, por isso não “empurraria” nenhum lado.

A cada minuto ele ficava mais tenso e mais relaxado. Adquiria mais confiança e medo.

Em meio a tanta agitação ela tentava imaginar como seria a Itália. Como os italianos eram e falavam.

- “será que eles tamém bebe pinga?”, pensou.

Apesar dos seus quarenta e oito anos e fartos conhecimentos acerca de tudo que diz respeito à terra, e à produção agrícola, Sebastião Oliveira nada conhecia sobre geografia e a divisão política mundial. Nunca freqüentou uma escola e, o mais distante que foi de, onde nasceu era a casa onde estava morando (8 léguas). O único estrangeiro que conhecia era o Japonês Hiroshito, “Seu xito”. Famoso na região por sua produção de legumes.

O tempo ia passando lentamente e o “sofrimento” parecia não ter fim. O tal gol, teimoso, não saia.

Terminou o tempo normal. Terminou a prorrogação. Terminou as pipocas e o Sol se pôs. Ia ser pior ainda.

Quanta vibração e decepção com os pênaltis perdidos. A cada nova cobrança prendia a respiração. Sua esposa lhe trouxe o jantar. Arroz, feijão, salada e peixe frito. Tudo produção própria. Ele não comeu. Esperaria o final sem perder um lance.

Já era noite quando o “melhor jogador do mundo” se preparou.

Ele torceu.

O craque errou.

O pequeno barraco não coube aquele homem que, mesmo sem saber o tamanho do mundo, nem mesmo do Brasil, mesmo sem conhecer política, geografia ou economia ou mesmo futebol (não torcia pra clube algum), vibrou com tanta intensidade, abraçou a esposa e o filho. Pulou, gritou, sorriu e, mesmo crendo na imparcialidade Dele, agradeceu a Deus.

Tomou banho, jantou, sentou-se no “terreiro” e contemplou a beleza da noite, com suas sombras e sons e as estrelas. Sempre com muita fé e humildade, voltou a agradecer ao Criador por seu país ter conseguido mais essa vitória. Orou pedindo paz e pão para o povo de seu país, e para todos os povos da Terra.

O orgulho de ser brasileiro no peito deste homem não é de agora, nem tem no futebol sua causa maior. Ele sempre teve esse orgulho e a causa era bem mais simples: ele é brasileiro, e pra ele este era o melhor país do mundo. Em tudo, e sempre.

Ele brincou com o filho e beijou-lhe o rosto. Beijou sua esposa e fizeram amor, como sempre faziam, com muito amor.

Falaram do dia, dos porquinhos que nasceram, da nova roseira que desabrochava e de outras coisas corriqueiras, como estas. Quando estavam quase dormindo se falaram, como em todas as noites dos últimos 27 anos, a frase mais bonita que ambos conheciam, mas falaram e falam, não por ser bonita, mas por ser a que mais se aproxima (embora seja de longe) de seus sentimentos. Disseram um ao outro – “eu te amo”, e dormiram felizes, como sempre dormiam.

Segunda-feira, 18 de julho de 1994, após as 6 da manhã qualquer pessoa que passar por ali verá a cena mais comum da região. Verá um garoto brincando com brinquedos simples, uma mulher cuidando da casa ou da horta (no campo os afazeres domésticos são maiores), e um homem na árdua lida com a terra.

Eles trabalham muito, mesmo assim o cansaço é sempre menor que a alegria. Muito do pouco que produzem é vendido na feira livre do vilarejo mais próximo, e nada os satisfazem mais que a sensação de estar ajudando a matar a fome de sua gente.

Quem olhar verá que tem pele bronzeada, corpo suado, cuidado com a natureza e sentimento nobre neste povo, que não é apenas “tetra”, mas sim, eternos campeões.