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5 de mar. de 2023

Breve crônica de uma tarde sem sabor

 

Em um sábado ordinário e preguiçoso, como hoje (04/03/2023), acordei tarde, sem muita vontade de acordar e, mesmo sem muita motivação, saí de casa. Primeiro destino, a aconchegante e linda Palavrear. Ambiente agradável e tranquilo. Com boa música em baixo volume. Pessoas cultas, ou pseudocultas como eu, ajudam a tornar o ambiente mais agradável (talvez de forma muito artificial). Fui tomar café, e o fiz. Mas acabei comendo um sanduiche que me serviu de almoço (já era perto de meio dia).

Saindo da cafeteria, fui bater perna no centro da cidade. Objetivo: comprar algumas coisas parcialmente úteis e certamente fúteis que eu insistia em acreditar que necessitava. Andei sem pressa e comprei meio sem precisar.

Quase 13 horas, era tempo de voltar pra casa. Da região próximo à esquina entre as avenidas Anhanguera e Araguaia pra casa é uma caminha curta e muito tranquila, mesmo com sol à pino. Eu segui. Fazia o caminho mais usual, passando pela ponte da Anhanguera, plataforma Botafogo, seguindo pela rua 229-A, passei pelo local onde, por muitos anos, esteve estacionada uma carreta, objeto de uma demanda judicial (sempre sinto falta daquele trambolho que se tornara referência de localização e não está mais ali). Pequena curva à esquerda, na rua 229 e já entrando na 1ª avenida, onde se localiza o complexo de prédios do Hospital das Clínicas.

As ruas já estavam vazias. O comércio desse ponto da cidade já estava todo fechado, inclusive as lanchonetes e barracas de “ambulantes” montadas na calçada do HC. Poucos carros circulando. Eu, seguindo preguiçosamente, sem pressa como gosto de caminhar em Goiânia, especialmente pelo setor Universitário.

Atravessei a 1ª avenida, fora da faixa e vagarosamente (luxo possível em uma tarde de sábado, como essa). Como não tinha praticamente ninguém na rua, era possível observar tudo e, detive meu olhar em uma mulher sentada em um banco colocado junto à grade do novo, moderno e imponente prédio do HC. Um garotinho brincava com um carrinho de plástico colorido, junto à mulher. Eles aproveitando a sombra de um desses trailer que funcionam como lanchonete, e estão espalhados por todo centro da cidade e próximo de todo estabelecimento que gere aglomeração. A lanchonete, como todo comércio da região, estava fechada, mas a sombra e o banco serviam muito bem para aquelas duas pessoas, nesse início de tarde de sábado. Julguei serem mãe e filho. Mas foi só uma dedução. À medida que me aproximava, ia enxergando melhor o quadro. Vi melhor as cores do carrinho do garoto. Pude deduzir sua idade, julguei ser 3 ou 4 anos. Também vi que a mulher segurava uma marmita no colo. Ela tinha uma dessas colheres plásticas na mão direita, mas, desde o momento em que eu os avistei, não vi ela levar uma única vez, a colher à boca.

Mais próximo, pude ver seu rosto triste. Percebi que ele enfiava e retirava a colher na comida da marmita, em um movimento ritmado e contínuo, enquanto tinha os olhos fixos em algum lugar que, certamente não era ali, nem era naquele momento.

O garoto brincava, em silêncio. A mãe, calada, gritava uma angustia ensurdecedora.

Pensei em me parar antes. Passar por trás da lanchonete fechada. Correr pra longe...

Também quis parar naquela sombra. Brincar um pouco com o garotinho. Falar com a mulher. Tentar adicionar algum tempero àquela marmita.

Não fiz absolutamente nada do que me ocorreu enquanto dava meus passos lentos, caminhar desajeitado e respiração alterada, pelo ar que aquela falta de sabor fazia entrar dolorido em meus pulmões. Busquei fitar seus olhos, mas não os alcancei, tanto por sua cabeça baixa e, mais ainda, por eles estarem tão distantes.

Passei entre a mulher e o menino. Não fiz nada. Ela seguiu com o olhar perdido e revirando sua marmita. Olhei o prato. Marmita normal, dessas que eu e meus colegas de trabalho devoramos quase todos os dias.

Me veio à mente que, em alguns momentos, basta um “bom dia” gentil; um sorriso; uma demonstração simples de simpatia ou um abraço acolhedor, para aquecer nossos corações e melhorar o sabor de nossas marmitas, de nossos momentos, de nossas vidas.

Porém, em outros momentos, nada disso adianta. Momentos em que nenhum tempero torna o momento palatável. Aquele me pareceu ser um desses.

Ela nem percebeu que passei tão próximo. Ou simplesmente não teve ânimo para demonstrar. Não tinha sabor que fizesse seu olhar voltar lá de onde quer que estivesse.

Não adiantaria eu tentar salpicar qualquer tempero. Nem todo meu estoque do dissimulador e cancerígeno glutamato seria capaz de tornar aquela marmita saborosa, aquele momento apetitoso. É que nem sempre o tempero alheio nos serve mesmo. Às vezes precisamos minerar, nós mesmo, nossa salina. Colher nossas ervas e condimentos com as próprias mãos. Cortar as próprias cebolas, lavando as dores, mágoas, angustias, sentimento de impotência, desanimo e tudo de ruim que nos aflija, no rio de lágrimas insossas e frias que verterem de nossos olhos. Só assim poderemos saborear o banquete que nós mesmo preparamos e que nos colocará de volta à nossa jornada.

Sim, eu sei que em alguns momentos não conseguimos enxergar forças para fazer nada disso. Por vezes, chegamos a acreditar que não recobraremos a fome e que nada mais voltará a ter sabor. Mas a vida já me mostrou que, por mais intragável que seja a refeição, por mais difícil que esteja a vida, tudo isso sempre passa. E, sempre teremos novas iguarias para nos deliciar, e saciar nossas fomes. Sei que isso vale pra mim, pra você e, também, praquela senhora, que remexia sua marmita sem ânimo para comê-la. Saber disso sempre me renova as forças.

Não conheço aquela mulher. Não faço ideia sobre o que ela está passando, nem quem tirei seu paladar e levou seu olhar pra tão longe, deixando aquela expressão de angustia e desalento. Mas por toda minha caminhada até em casa, e por toda aquela tarde de sábado, em minha mente uma prece, rogando à todas as divindades e demais figuras metafísicas que habitam o multiverso das minhas crenças, que agissem em seu socorro, aliviando seu fardo e devolvendo o tempero de sua vida.

Tenho fé, então, que o tempo de momentos sem sabores logo passe, e que ela recupere o prazer dos aromas e sabores e que, por mais simples que sejam, que as marmitas futuras, seja de comida, de instantes, de dias, da vida, enfim, lhe pareça um banquete, lindo, colorido, quente e delicioso. E que ela recupere, definitivamente a fome, o tesão, o desejo. A vontade e o prazer ao se alimentar, comer e ser, de brincar com seu garotinho, de fazer coisas novas e os afazeres cotidianos, de sorrir. Enfim, que coloque de volta em seus olhos o brilho e possa saborear a vida.

O bolo amargo continuou na minha garganta por todo dia. Na verdade, ainda o sinto aqui, me lembrando que a vida é mais gostosa, quando é gostosa pra todos.

Nazareno de Sousa Santos – Naza

Professor, poeta e observador da vida

Gosta de compartilhar ideias, textos, cafés, cervejas e comida (tudo coisa que dá mais sabor às nossas vidas

11 de jan. de 2015

Aos bons e velhos "butecos copo sujo"

Eu, tendo crescido na boa e velha Baixadinha, quase na barranca das nascentes do Rio Araguaia (sim, para nós, goianos, esse rio escreve-se assim mesmo, com "R" maiúsculo, dado sua importância social e antropológica), na periferia de Mineiros (periferia de Mineiros, no início dos anos oitenta, imagina...), não poderia ser diferente. Só poderia dar nesse cara que sou hoje. Um cara nada intelectual e,  sim, meio de esquerda.
Não por ser meio de esquerda, mas por ter crescido lá, em meio a aventuras nos campos cerrados, que ficavam a poucas quadras de casa, brincadeiras nas ruas, e, claro, frequentando uns butecos nada recomendados para menores. Por isso concordo plenamente com o Antônio Prata, "Bar ruim é lindo,bicho!".
Não sou o que se pode dizer de boêmio inveterado, nem de alcoólatra sem solução. Não é pra tanto mesmo. Mas gosto, sim, de uma mesa de bar.
E preciso esclarecer que esse texto se trata exatamente sobre isso: Bebidas. Confesso já que tive pretensões maiores de escrever sobre isso, de forma mais abrangente. Mas tanto já se falou sobre, que eu não me arrisco mais. No entanto me sinto obrigado a ressaltar que, além da água, líquido essencial à vida como nenhum outro, aqui nos limites da pátria tupiniquim (e das enormes limitações de minha humilde compreensão da vida), são duas as outras bebidas com uma importância social e antropológica (tal qual nosso Rio). E ambas são importantes pelo mesmo motivo, mas com razões bem distintas. Uma é o café, a outra, a cerveja. Tudo bem, sei que muita gente aprecia demais um bom vinho. Outros não abrem mão de um ótimo whisky. Tem os que não vivem sem refrigerante e aqueles que ingerem apenas suco natural, sem gelo e sem açúcar. Tem quem perde a linha com uma boa tequila, e aqueles que só funcionam com energético. Tudo bem. Eu sei disso. E, com exceção do refrigerante, eu também tomo, raramente quase todas as outras bebidas. Inclusive, entre os destilados, a preferência é pela boa cachaça brasileira (e nisso Mineiros sempre foi muito bom), e quem nunca brincou com os duendes coloridos que uma garrafa de absinto te apresenta, não se divertiu completamente, e ainda não pode morrer feliz.
Apesar de tudo isso, em minha opinião, as bebidas se dividem em alguns grupos. E, analisem comigo (e não se esqueça, estou falando dos hábitos de nós, brasileiros). Vinho é uma coisa de casal, de ambiente romântico. De conquista, ou reconquista. Muito intimista. O Whisky então, é solitário. O cara chega em casa, depois do trabalho, senta no sofá, tira os sapatos, afrouxa a gravata e relaxa com uma dose (e, por favor, que seja cowboy). Ou nem chega em casa, escritórios e gabinetes, não raro, tem whisky. É uma coisa quase protocolar. Tequila e vodka, cá pra nós, é coisa da azaração. É o que enlouquece a mulherada. Até se toma em grupo, mas não confraternizando. Quase sempre que se tem uma tequila na mesa, existe ali intenções pra depois, que normalmente envolvem lençóis amarrotados e roupas pelo chão. E, nossa cachaça vive uma séria crise de identidade. Ela continua sendo apreciada pelas classes menos endinheirada, como sempre foi, desde sua origem. Mas agora a coitada recebeu carimbo de cult, por parte de um seguimento da sociedade. E virou objeto de apreciação rebuscada. De degustação. Passando, com isso, a ter um comportamento muito semelhante ao do vinho e do whisky juntos.
Agora, a cerveja e o café não, meu amigo. Essas duas bebidas cumprem o importante papel social de agregar pessoas. Os colegas de trabalho querem se reunir pra conversar, o que eles fazem? Vão pra copa tomar um cafezinho, ou pra um bar, tomar uma cerveja (ou sua variação, o chope). Quer reunir a galera, mesa de bar com a boa loira gelada. No meio da tarde, pra uma pausa relaxante e agradável, senta-se com os amigos em uma cafeteria e relaxa-se com aquele aroma maravilhoso. Chega visita, o que todos querem servir, um bom cafezinho. O churrasco dos amigos, o que tem? E para criar um ambiente aconchegante com a família, mesmo que seja para discutir algum  sério problema?
Cada uma dessas duas bebidas tem sua própria vocação. Mas as duas cumprem essa tarefa que nenhuma outra cumpre. Que é de reunir as pessoas. De agregar. De aproximar.
Feito esse longo desvio, podemos voltar ao verdadeiro objetivo desse texto.
Gosto de ter pessoas por perto. Apreciou a companhia dos amigos, e sou grande apreciador de café e de cerveja. Sim, eu tomo essas duas bebidas de forma solitária e/ou apenas com minha própria companhia (agora mesmo, enquanto escrevo esse texto, estou saboreando uma delas). Mas com as cervejas, o ambientes propício para o consumo, são os bares.
E eu, tendo frequentado os muquifos da Baixadinha de minha adolescência, é normal que não tenha, digamos, enorme predileção pelos caros bares da moda.
Isso não significa, também, que eu me contente com porcaria. Realmente não é isso. E até me considero uma pessoa com relativo bom gosto.
Mas, tem coisa que não se encontra nos ambientes chiques de nenhuma cidade.
Ainda nos tempos de Mineiros, quando reuníamos os amigos, por vezes queríamos algo mais refinado. Nesses casos nos esforçávamos pra nos contentar com os ditos "melhores ambientes" que a cidade oferecia.
Parêntese para dizer que, como toda cidade do interior de Goiás (e não sei se em outros estados isso é diferente), em Mineiros bares são as únicas opções de lazer para a grande maioria dos jovens, mesmo assim, e apesar disso, nunca teve grande diversidade, fecha parênteses.
Mas quando queríamos curtir de verdade, sem frescuras e completamente livres, buscávamos os ambientes que minha queridíssima Lílian chamava de "xexela". Ora, meus amigos, a cerveja mais gelada da cidade era servida em um bar ao lado da casa da minha mãe, que atendia pela alcunha de "Daynner Bar", uma dessas maravilhosas xexelas, que cresceu muito rapidamente graças às qualidades que quero acentuar aqui. Calma, já estou chegando lá.
Goiânia, onde moro desde alguns poucos anos, se orgulha de dizer que é uma das capitais brasileira com o maior número, proporcional, de bares. Ficando atrás apenas da irmã mineira, Belo Horizonte.
E aqui realmente a vida noturna consegue agradar, com relativa qualidade, todos os gostos, de todas as tribos. Há sim, algumas segmentos mais bem representados. Mas, da galera roquenrou aos apreciadores do melhor samba, passando por todos os estilos, encontra-se ambientes que agradam. É mais fácil encontrar ambientes sertanejos, é verdade. Mas velho, estamos em Goiânia. Se nasceu, ou escolheu viver aqui, aceita esse fato e seja feliz.
No entanto não é desses botecos todos que estou falando. Eles são bons. Vou em um ou outro de vez em quando. Mas, se esqueça, estou falando das xexelas. Dos chamados bares "copo sujo". É desses que estou falando.
E estou falando não pra ressaltar a falta de qualidade e a bagunça. Pelo contrário. É exatamente para ressaltar qualidades que não se encontram nos bares e restaurantes chiques e caros que a cidade oferece.
Claro, alguns butecos não são recomendáveis nem aos inimigos. Mas existe uma categoria de bares copo sujo em Goiânia que merece, e precisa ser ressaltada. São bares que estão abertos há muitos anos. Butecos que servem ótimas cervejas geladas e deliciosos petiscos. Mas que servem, principalmente, a cordialidade e a amizade dos proprietários, a todos que atendem.
Butecos onde os "fregueses" são amigos e, até viram gerentes. Onde o Deputado e o Juiz sentam junto ao pedreiro e ao mecânico, e comem linguiça enquanto discutem amenidades como a rodada de futebol, o sexo dos anjos ou os destinos do país. Butecos onde você vai sem medo, pois tem certeza que a cerveja está sempre gelada, o atendimento e a cordialidade, sempre quentes. Lugares onde se pode ir com a nova namorada, ou com a família toda, que não terá problema nenhum. Onde se come torresmo com as mãos, e a pimenta está sempre à mesa.
Lugares abertos há mais de três ou quatro décadas (muito antes da maioria dos atuais lugares da moda pensarem em existir, e antes também da proliferação das bancas de espetinho com jantinha, que hoje estão em todas as esquinas), e continuam atendem da mesma forma, e com clientes fieis desde a abertura.
Temos alguns desses no centro, e vários nos bairros mais antigos da capital. Mas também existem nos bairros mais distantes, e bem menos tradicionais.
Se você vive em Goiânia, ou está passando por aqui, é muito fácil encontrar guia de bares, boates e restaurantes bacanas (que são bons de verdade). Mas você pode passar a vida sem saber onde comer o melhor peixe frito ou a melhor costela com mandioca. Ou ainda nunca conhecer preciosidades como o famoso "Pica-paú".
É para ocupar essa lacuna, e prestar esse verdadeiro serviço de utilidade pública que um grupo de amigos, todos lá do interior, e todos apreciadores do ambiente dos bares copo sujo, resolveu se reunir e criar um guia. Poderiam chamar de "Guia o melhor do pior de Goiânia" mas isso não seria justo com os bares, nem honestos conosco, os fiéis frequentadores. Poderia ser "Guia Lada B de Goiânia", mas lembraria muito mais movimento musical, e suas lembranças. E em alguns ótimos butecos nem tem música.
Então será chamado mesmo de "Guia dos butecos copo sujo de Goiânia". Sem ofensas nem discriminação. Apenas sendo, assim como esses adoráveis ambientes, tradicionais.
Então esse grupo de amigos, no qual, por sorte, me incluo, se dará ao trabalho de visitar esses estabelecimentos. Experimentaremos suas bebidas e suas comidas. Provaremos o que cada um tem de melhor. E contaremos tudo em um blog que em breve será lançado.
Aguardem.


5 de dez. de 2012

Sobre marcas eternas e referências perdidas


Me mudei pra Mineiros quando tinha cerca de cinco anos.
Moramos, eu e meus pais, com minha avó materna por alguns meses. Poucos meses. Depois em alguns barracos na cidade, até chegarmos onde passei a maior parte da minha infância e toda adolescência. Na verdade só saí da "baixadinha" depois de adulto.
Quando chegamos não existia casa. Era só um terreno pequeno, em um loteamento que ainda estava sendo vendido. Minha mãe se esforçou muito pra conseguir garantir o nosso. O loteamento era dos padres beneditinos, e eu acompanhei minha em sua "via crucis", indo diariamente à casa paroquial da cidade, enfrentando uma fila enorme, de outras mães e pais de família, igualmente sem casa própria. Como era longe, e a igreja dizia que o loteamento era para ajudar famílias sem condições de comprar suas casas, o processo de análise foi rigoroso, demorado e chato. Mas enfim, minha mãe conseguiu.
Não tardamos a tomar posse, efetivamente, do nosso quinhão.
Meu pai ergueu, em um dia, um barraco constituído de três grossas toras de madeira, duas servindo de colunas centrais e uma fazendo a vez de viga, na cumeeira. Daí foi só espalhar algumas tabuas fixadas com pregos, desenhar uma porta e uma pequena janela, cobrir com telhas francesas, em duas águas, e estava pronto o que seria nosso lar por alguns anos. Vários anos. Era um único cômodo, não ocupava mais que 12 metros quadrados, mas foi mais que suficiente para suprir a falta de segurança que meus pais tinham, durante o tempo que os barracos eram alugados. Eu não entendia nada disso, lá por volta dos meus seis anos, mas esse fato deve ter trazido um bom aporte de dignidade e autoestima para minha família.
O loteamento foi, aos poucos sendo ocupados por outras famílias, em outras casas. Maioria, maiores e mais "bonitas" que a nossa. Mas e daí? Pra mim eram apenas casas. Todas eram. Mais tarde, na adolescência, fase em que, ao sairmos do mundo mágico das fantasias reais de criança, isso me incomodou um pouco, mesmo já não existindo mais o velho barraco de madeira, e sim uma grande casa de alvenaria, simples e inacabada. Por sorte a adolescência é só uma fase, e a minha passou rápido.
A "baixadinha" não tinha asfalto. As ruas eram de terra batida, como o chão do nosso barraco. Nelas nós, as crianças que aos poucos iam se mudando pra bairro, podíamos passar o dia inteiro brincando de qualquer coisa. De futebol, com golzinhos marcados com pedras e tijolos, a guerra-bandeira, passando por polícia e ladrão, caça ao tesouro, competições de saltos, e outras brincadeiras que nos fizesse a correr sob o sol o dia todo. Também tinham as pipas, digo, papagaios, feitos com qualquer papel que se conseguisse, varetas feitas por nós mesmos, de bambu e coladas com piche que buscávamos no centro da cidade. Nós não comprávamos. Bastávamos esperar um dia de sol bem forte, e com uma lata usada de qualquer coisa, ou mesmo uma colher, conseguíamos arrancar porções generosas de um trecho do asfalto.
Outro passatempo muito apreciado era as aventuras no mato. Com uma caminhada de dez minutos, já teríamos deixado a cidade cerca de dez minutos distante. Poucos quilômetros e tínhamos vários córregos e riachos, com cachoeiras, onde gostávamos de ir.
No limite da "baixadinha", logo da própria cidade, tinha o maravilhoso "esbarrancado". Era uma grande erosão que cortava quase toda extensão do bairro. Indo do ponto mais alto até chegar no córrego "da bosta". Cerca de seis quadras. O esbarrancado não era muito fundo, mas era comprido e, como éramos crianças, ele tinha o tamanho exato para um sem fim de infinitas aventuras.
A família Carrijo morava na última rua da "baixadinha", ao lado do esbarrancado. Eles já moravam lá quando nos mudamos. Eles já moravam lá antes do loteamento dos padres. Acho que eles sempre moraram lá. Em pouco tempo fiquei amigo dos mais novos da família. O "Nenêgo" já era adolescente quando eu ainda era criança. Mas ele, e toda família eram muito gente boa. Ainda são, apesar de eu não os ver, nem falar com eles há anos.
Abaixo da casa da família Carrijo tinha os Fialho, que eu adotei como uma segunda família por muito tempo. Eles também moravam no limite do bairro. Era só atravessar uma estreita rua de cascalho, pra chegar ao esbarrancado.
Entre a casa do "Nenêgo" e a casa dos Fialho tinha uma estrada que ia para as chácaras e fazendas vizinhas. Só mais tarde, quando já estava grande, lá pelos nove ou dez anos, é que eu me aventurei um pouco mais por essa estrada. Antes disso o limite era mesmo o esbarrancado.
No início dessa estrada, bem no iniciozinho mesmo, tinha uma árvore seca. Ela já estava seca na primeira que eu a vi. Ao menos é assim que eu me lembro. Ela ficou lá, seca, por alguns anos, o que para uma criança equivale a quase décadas. Era uma referência de localização: "Onde nós vamos nos reunir na volta pra casa?", "uai, lá na árvore seca".
Aquela árvore estava morta, eu tinha certeza.
Anos mais tarde, continuávamos brincando no esbarrancado, e eu já andava por quase toda extensão da estrada do seu Sete. Só não ia, ainda, até a pedreira que ficava no final dela. Lá era um tipo de local proibido. Um belo dia, lá pelo mês de novembro, quando voltava lá das bandas da chácara da dona Dórva, eis que eu me deparo com uma coisa totalmente inusitada. A árvore seca estava completamente coberta de folhas verdes. Com novos galhos. Plenamente saudável. Me assustei. Parei admirado, e sem entender.
Me disseram que era uma aroeira. Eu não tenho certeza. Era apenas uma criança, e não era engenheiro florestal, nem mateiro. A bem da verdade, hoje eu também não sou nem um, nem outro. O mais próximo de mateiro que cheguei foi quando pensei em ser botânico, ou quando era criança mesmo. O Fato é que a velha árvore nunca mais secou. Não se tratava de uma espécie caducifólia. Ela não perdia as folhas no outono, ou no inverno, pra recuperá-las na primavera. Ela simplesmente ficou seca por anos e, um belo dia me apareceu refeita.
Durante muito tempo aquela árvore continuou sendo referência para mim, mas não mais apenas como referência de localização, mas de força e poder de regeneração.
Eu Já era jovem quando o asfalto chegou na "baixadinha", e quase adulto quando o esbarrancado deu lugar à uma avenida de duas pistas, e foi batizada de avenida contorno. Eu não usava mais piche para fazer meus papagaios. Na verdade, nunca mais empinei uma pipa, depois que passei pela adolescência (é, talvez ela não tenha passado, assim tão rápido, por mim). Mas continuava frequentando a casa dos Carrijo (os Fialho se mudaram depois de alguns anos, pro outro extremo), e a velha árvore continuou lá, verde, forte e viva por todo tempo que eu continuei frequentando aquela parte da "baixadinha".
No dia três de novembro de 2012 meu amigo Demerval, um paranaense que viveu em Alto Araguaia e Alto Taquari, no Mato Grosso, que eu conheci em Mineiros, e que hoje vive em Cachoeira Paulista, não por razões de fé, mas pelos mistérios da ciência, se casou (espero que pelas razões misteriosas do amor). O Enlace foi em Mineiros. Eu fui padrinho. Então estive lá, depois de vários meses. Acho que uns 18 ou 20.
Me hospedei na casa da irmã que ainda vive lá. Não mais na "baixadinha". Ela nunca gostou, e eu entendo.
Visitei alguns amigos, outros não encontrei.
Como não podia deixar de ser, passei um tempo com dona Pequena, sempre o melhor momento dos esporádicos retornos àquela cidade, que ainda gosto muito. Mas que já gostei bem mais.
Antes do casamento do Demervas, resolvi fazer um passeio pelo meu antigo reduto. Quis saber como está a boa e velha "baixadinha".
Qual não foi minha surpresa ao ver que os loteamentos já chegaram à velha pedreira, e que a estrada do seu Sete agora é uma avenida asfaltada. Tem asfalto até quase a "chácara velha", local onde, no tempo certo, íamos buscar manga comum, pra comer, fazer doce ou deixar perder em nossos quintais.
Agora tudo é asfalto, casas, comércio...
Ao menos parte da família Carrijo continua lá. O Nenêgo, não sei por onde anda. Mas está vivo, disso eu sei.
Uma coisa, porém, novamente me abalou, ao entrar na estrada que começa logo abaixo da casa dos Carrijo, antes da casa onde moraram os Fialho. A velha árvore não está mais lá. Ela que era pra mim sinônimo de força e sobrevivência, não resistiu à força do progresso. Sucumbiu na luta do homem por avanço e modernidade.
O casamento do meu amigo foi divertido, desconsiderando minha dificuldade de entendimento com a moça escolhida pra me acompanhar no apadrinhamento. Me diverti bastante. Encontrei bons amigos. Dancei, cantei, comi, bebi, trabalhei e cortei o colete. Mas a sensação de ter perdido mais uma referência esteve comigo o tempo todo. Está aqui ainda, e agora mesmo.
Dona Romana já não está entre nós. O Povoado do Cedro está sendo alcançado pelos loteamentos e condomínios. Logo perderá o pouco de suas características originais, que ainda possui. E, ali, espremida entre as mansões do Bairro Martins, outra referência minha vai perdendo forças. Seu pequeno quintal ainda é um tipo de oásis de simplicidade, simpatia, a conchego e biodiversidade vegetal. Ela não tem lá uma aroeira, ou seja lá que árvore era aquela. Mas, como ela, vem resistindo às pressões do progresso, sobretudo do mercado imobiliário. Mas, até quando?
Em breve ela não estará mais entre nós. Afinal as pessoas vivem menos que as árvores, se essas não forem derrubadas prematuramente.
Da velha árvore da "baixadinha" não restou nada. Da dona Pequena pode restar a coleção de plantas, o conhecimento, as histórias e os causos. Só precisa que a cidade reconheça a importância do seu legado. Ainda há tempo para catalogar conselhos, receitas e ensinamentos. Gravar prosas e boas estórias. E, o auge da minha vontade, e dessa campanha, tombar a pequena casa da esquina das Avenidas sete com Segunda Avenida, e transformá-la em um museu, dedicado à memória de dona Pequena.
Em alguma parte de mim, junto com algum torrão de piche, grudado para sempre, está a lembrança da boa surpresa que uma velha árvore, que eu sabia morta, pode causar a uma criança, pelo simples fato de manifestar, tão explicitamente a vida. Aquele é um dos momentos que nunca sairão de mim. Ela não está mais lá na "baixadinha", mas ainda é uma referência.

12 de out. de 2011

Ereção

Eu aqui falando de coisas de homens e eis que me vem à mente uma das que é a mais tipicamente “coisa de homem”. Estou falando da ereção.
Bom, vou dispensar a frescura e as formalidades, e falar de forma simples e direta.
Ereção é coisa de homem. E, geralmente, é bem vinda e motivo de alegria e prazer. No entanto há momentos em que ela ocorre, que nos causa desconforto e constrangimento. Claro, se não ocorre quando se espera, também causa frustração para o casal, e constrangimento para a maioria de nós, homens.

Algumas coisas nos provocam o erguimento do membro fálico. Quase todas elas estão ligadas à excitação sexual.
Ouvir obscenidades, beijos quentes, carícias ousadas, uma bela mulher empenhada em nos provocar são alguns motivos provocadores de ereção, no caso bastante esperada e desejada.
Uma mulher bonita que passa provocativa; a lembrança de uma boa aventura sexual; recados obscenos; aquela colega de trabalho, gostosa, que inesperadamente nos aborda no meio da tarde, cheia de segundas intenções. Esses são outros motivos que podem levar ao intumescimento. Ler de contos e ver filmes eróticos e/ou pornográficos também pode causar o inchaço da glande. Tem ainda a boa e natural ereção causada para conter a urina, quando a bexiga quer expulsar e não temos como promover a liberação (fato que faz com que acordemos com paudurânça quase todas as manhãs).
Todos esses são motivos ligados diretamente a sexualidade, ou defesa biológica. E é normal que os vasos sanguíneos e corpo cavernoso desse membro masculino sofram alterações em todas essas situações. Mesmo que, por vezes nos coloque em saia justa (Humm, se estou falando de coisa de homem, e não estamos na Escócia, melhor usar outra figura de linguagem. Que seja...), nos deixa de calça curta.
Até aqui nenhuma novidade, certo? E, mesmo nos momentos mais impróprios, quando ocorre pelos motivos supramencionados, é aceita com certa naturalidade.
Há porém uma situação, em se tratando de eventos relacionados à paudurescência, que é incomodo, desconfortável, indesejado, sem propósito, descabido, fora de contexto e idiota. Mas bastante recorrente (estou sendo redundante para tentar aproximar do quão desagradável a situação é).
Estou falando das ereções homéricas que nos acomete quando estamos na platéia de uma aula, palestra, seminário, apresentação e alhures, e que a coisa está insuportavelmente chata, causando aquela sonolência quase incontrolável. Ficamos lá, sentados, não conseguindo ouvir nada que a pessoa está dizendo ou mostrando. Lutando heroicamente para não sermos vencidos pelo sono e, para piorar muito, nós homens temos que conviver com potentes ereções. Daquelas que todos aqueles e-mails chatos, que lotam nossas caixas de entrada, prometem nos vender.
Vocês, mulheres, não tem idéia do que seja isso. Se o evento enfadonho for longo, e a sonolência não for passageira, o pobre cidadão sairá do auditório sem ter captado nada que possa ser útil em sua vida, pois estava praticamente dormindo, e com uma possível dor. Sim, dor mesmo, pois não estou falando de uma ereçãozinha qualquer. Não se trata de ficar meia-boca, como dizem. E sim, doe.
Ah, e não importa quem esteja falando. Se homem, mulher, jovem, velho, hétero, gay, gostosa ou baranga. Tanto faz. Basta não conseguir empolgar a turma, e tornar a apresentação/aula, cansativa.
Tenho certeza que algumas professoras, ao tomar conhecimento desse fato, vão desejar provocar na cama, em seus parceiros, o mesmo efeito que causam em seus alunos, durante suas aulas.
Não sei se todos os homens já se observaram nesses momentos, e se perceberam essa ocorrência enrijecente. Claro, não posso afirmar que acontece com a totalidade absoluta dos homens. Mas, desde que, graças a meu amigo Ednaldo Barros, o Marelo, eu descobri que esse fato acontecia não apenas comigo, venho fazendo uma observação cientificamente descompromissada, mas dedicada. E, com base na declaração de todos os homens a quem me ocorre perguntar, posso dizer que esse mal acomete à grande maioria de nós.
Acho, inclusive, que uma boa forma de aferir a qualidade de aulas, palestras e afins, seria monitorar a quantidade de ereção provocada na platéia.
Portanto, se durante uma apresentação sua, você perceber que alguns homens da platéia estão portando uma espada em riste, não se anime. Apesar de ser por sua causa, pode não ser pelos motivos que você desejaria. Ao invés de interessante, você pode estar sendo muito, mas muito chata mesmo.

20 de out. de 2010

Sobre as Fênix de cada um...

Essa história do resgate dos mineiros, lá no Chile, mexeu com todo mundo. Por algum motivo todos se solidarizaram com aqueles 33 homens (coincidentemente o mesmo número aceito como a idade de Cristo).

Houve esforço do governo chileno e colaboração de especialistas de vários países. E, por fim eles foram resgatados. E todos ficamos felizes.

Sim, a felicidade foi compartilhada. Mas tem uma coisa que é só daqueles homens. O fato de terem sido resgatados. E é isso que me trás aqui.

Para melhor expressar o que quero dizer, vou trocar “resgatados” por “salvos”. Espero que os leitores não se importem.

É que quero aqui falar dos efeitos que o fato de ser salvo provoca em uma pessoa.

Claro, a minha experiência se restringe a minha própria vivencia e à poucos casos que tive a sorte de assistir.

Muitos já disseram que “as derrotas nos ensinam mais que as vitórias”. Tem muita verdade nessa afirmação. Mas por tudo que passei pela vida, até hoje, posso dizer que o que realmente faz diferença na vida de alguém, é o número de vezes, e as formas que se é salvo.

Mais que as derrotas e as vitórias. Mais que as conquistas ou as decepções. Ser salva muda, verdadeiramente uma pessoa.

Por que posso afirmar isso? Por ter sido salvo várias vezes.

E não estou falando apenas de ter a vida, literalmente (por assim dizer, já que em todos os casos, acho que literalmente caí bem) salva. Mas de ser salvo das mais variadas formas.

Não que eu não tenha sido salvo da morte alguma vez. Fui sim. Por duas ocasiões.

Na primeira eu estava me afogando, lá no córrego do Cedro. Poço pequeno, farra de garotos. Todos pequenos. Eu devia ter entre 9 e 11 anos, não me lembro bem a idade. Mas não vou me esquecer nunca o fato. Lá estava eu, sem ser notado por ninguém, me afogando, quando um garoto grande, o maior que estava lá, até destoando da turma, passou perto de mim com uma câmara de ar. No reflexo eu me agarrei por um instante. Foi rápido. A conta de me mover uns dois passos do ponto onde estava, e já estava à salvo. O garoto brigou comigo, me achando folgado, por me apoiar em sua “bóia”. Ele não faz idéia, mas eu teria morrido ali, em alguns minutos e ele, sem querer, me salvou.

A segunda vez que fui salvo da morte, foi mais trágico. No alto de uma cachoeira de cerca de 20 metros, eu preparava uma corda para um rapel. À minha frente a cahoeira, que tinha, lá em baixo pedras, e nenhum poço onde pudesse mergulhar. Atrás de mim, um barranco de cerca de dois metros, de pedra úmida, com lodo. Difícil de sair, em caso de emergência. E foi nesse cenário que um enxame de abelhas europa achou de me achar. Elas chegaram de repente, e em um momento eu já não conseguia abrir os olhos. Foi uma das piores sensações que eu tive em toda minha vida. Não sei quanto tempo durou aquilo, mas pra mim foi uma eternidade. Eu não conseguia subir a parede atrás de mim. O que me fez pensar em pular lá de cima. Pensei mesmo. Poucas pessoas sabem disso. E poucas pessoas fariam o que fez meu amigo Sávio Roberto. Ele me ouviu gritando por socorro e veio. Enfrentou as abelhas, levou várias ferroadas, mas veio. Ele chamou minha atenção, me estendeu a mão e me tirou daquele barranco. Correu ao meu lado até que nos afastássemos das abelhas. Ao meu lado. Me salvando.

Levei quase uma centena de ferroadas, fiquei alguns dias com dores por todo corpo. E algumas semanas com dores nos rins, que se esforçavam pra limpar meu organismo. E logo estava recuperado. Nós, os garotos do TEBE, fizemos piadas do episódio, rimos muito, e também tentamos tirar algum ensinamento desse fato. Mas eu nunca mais seria o mesmo. E não apenas pelo fato de sermos uma pessoa nova a cada segundo. Mas pelo impacto de mais esse salvamento.

Essas foram as duas vezes que fui salvo da morte. Mas não se resume aí as vezes em que fui salvo.

Na verdade várias foram as vezes que eu fui salvo por outras pessoas.

O Maurício de Sousa que, através de seus personagens, fez enorme diferença em minha vida, me oferecendo fugas de uma realidade dura demais para um garoto pobre, lá da “Baixadinha”, me salvando de um monte de possibilidades indesejadas.

Dona Felisbina, minha mãe, que ludicamente se disponha a ler comigo as deliciosas histórias de fadas, magias, gigantes, bichos falantes, príncipes e vaga-lumes. Ela se divertia de verdade, mas sem que ela soubesse (ou, quem sabe, soubesse bem), criava em mim o gosto pela leitura. Me salvando definitivamente, e para sempre.

Seu Durvalino, meu pai, em todas as vezes em que “ralhava” comigo, e em quase todas as “surras”, me salvava de mim mesmo, impedindo que eu fizesse alguma cagada muito grande.

Mas os pais sempre salvam seus filhos. Isso faz parte da vida normal de uma família medianamente saudável. E acontece ao longo de toda vida.

Isso é importante sim. Mas quando somos salvos por outras pessoas, é diferente, pois nem sempre é esperado.

E eu fui salvo em vários momentos, por diversas pessoas, e pretendia falar sobre todos os salvamentos nesse texto. Mas ficaria um pouco longo. Por isso farei isso em outros textos futuros. Pois o que eu quero aqui é reforçar os impactos que sofremos sempre que somos salvos de alguma forma. Assim como a Rose foi salva por Jack Dawson. Não apenas de pular do navio, mas salva da vida que levava e que a estava matando (sei que é piegas, mas ainda acho linda a cena do final do filme, quando ela responde Rose Dawson, quando um guarda perguntou qual era o nome dela).

O fato é que nunca saímos de uma situação de salvamento da mesma forma que entramos. Pode ser que com o tempo, as coisas voltem a ser como eram antes. Pode ser até que não se reconheça alguns salvamentos importantes.

Mas, se não formos egoístas ou ingratos, ser salvo é o que melhor pode nos acontecer.

Podemos esquecer um namoro terminado quando se estava achando o melhor momento. Podemos esquecer aquele emprego que não conseguiu. Podemos esquecer o concurso no qual fomos reprovado, ou um tapa que alguém nos deu um dia. Também podemos esquecer o beijo naquela garota linda, que viu naquela ótima festa, ou o prêmio conquistado em algum sorteio e aquela conquista. Tudo isso pode ser esquecido. Tiramos algum ensinamento de tudo, é claro.

Mas nunca esquecemos de alguém que tenha nos salvado. Nem da circunstancia. Sempre nos lembraremos, com detalhe, do exato momento em que fomos salvos. Sempre me lembrarei do Sávio Roberto, e do desconhecido com a “bóia”, ou da dona Biura, assim como os mineiros chilenos jamais esquecerão daquele 13 de outubro, nem de cada pessoa que estavam lá, na saída daquela cápsula. Assim como Rose jamais poderia ter esquecido Jack Dawson.

Quando uma pessoa nos salva, fica gravado em nós para sempre. Para, assim, nos lembrar que não somos totalmente autosuficientes, e que não podemos viver sozinhos.

E você, amigo leitor, quantas vezes já foi salvo? Ainda é grato por isso?

6 de out. de 2010

Uma madrugada fatídica (mas que ainda rimos disso, rimos sim)

Ah as boas histórias de Mineiros.

Já contei várias aqui. E ainda tem um monte.

Hoje me lembrei de mais uma que teve como cenário o bom e velho “Top-Lanches”, que ficava na Praça Dep. José Alves de Assis, em um tempo muito bom. A noite tinha aulas de contabilidade no “Instituto”, magistério e agricultura no Colégio de mesmo nome que a praça. E tinha uma turma impagável que estava sempre lá. O proprietário Toninho Gomes, contava com o auxílio do Negão (naquele tempo era normal chamar o Osmar de Negão, e ninguém dizia que nos processaria, inclusive o próprio Negão se chamava assim. Na verdade ele ainda se chama...) e, eventualmente do Necivaldo e desse cronista.

Sempre estavam por ali o Nei, o Kelson, Radimak, o Josimar, digo, aranha, a turma do 1º B, alguns participantes da JUBES e alguns que a memória propositalmente (como sempre faz as memórias) me faz esquecer agora.

Naquele universo cheirando a gordura e embalado por boa música (o bom gosto do Toninho e singular), comia-se as sanduíches com tempero da queridíssima Dona Pequena, e ria-se muito. O papo era sempre animado, e sempre se fazia piadas uns com os outros. Claro que todos eram sacaneados e todos sacaneavam. E íamos pra casa, já tarde da noite, leves e felizes.

Ali aconteceram muitas passagens que renderiam (e renderão) boas crônicas. A história que me traz aqui hoje foi um acontecimento um tanto trágico. O mais trágico que se passou (depois do roubo das caixas acústicas, que ficavam presas do lado de fora, protegida por grade metálica, formando o que parecia orelhas de coalha naquele trailer metálico).

Bem, voltando à história trágica, vamos aos fatos. Em uma noite tranqüila, sem muito movimento, de domingo. O avançado da hora já nos fazia pensar em encerrar o expediente. Estávamos eu, Toninho, Negão e mais uma ou duas pessoas, apenas. Eis que chega um amigo nosso, aqui chamado de “Sr. Fanta” para preservar sua identidade. Ele cumprimentou-nos, ficou uns dois ou quatro minutos de bobeira, conversando sobre nada, e resolveu se refrescar, ou matar a sede, não sei. Para isso pediu uma Fanta. Naturalmente eu peguei no freezer horizontal e, quando fui retirar a tampinha, com um abridor normal o Sr. Fanta interfere com sua voz muito grave, quase semelhante ao vozeirão do Henrique Gontijo

“precisa abrir não”, ele disse.

“Tudo bem”, respondi entregando-lhe a garrafa de vidro.

Ele pegou, fez um movimento com a mão, em uma pantomima como se limpasse a tampa da mesma. Claro que aquele movimento não limparia nada, ainda mais que usou a própria mão, sem tê-la levado antes. Mas isso não interessa agora. Ele fez o movimento e levou a garrafa até a boca, colocando a tampinha entre os dentes, com um movimento brusco, o típico movimento feito por quem abre garrafas, especialmente de cerveja, com os dentes, ele tentou abrir aquela garrafa.

O movimento brusco foi acompanhado de um som seco. Um tipo de “Cruc”. Vejam que não se ouviu o “tchiiiiiiiii” típico do escapar dos gazes de quando se abre uma lata ou garrafa de bebida gaseificada. O que se ouviu foi um “cruc”, nada mais.

O tempo foi curto, não mais que um minuto, mas imagino que para ele tenha sido uma eternidade, até que ele tenha tomado coragem de colocar a garrafa de volta no balcão e dissesse, meio sem jeito,

“Preciso achar um dentista”.

Lembro que era domingo e já passava da meia noite.

Não sei qual é o costume onde o leitor vive, mas lá em Mineiros, na época feliz do “Top-Lanches”, acredito que uma madrugada de domingo fosse um péssimo momento para se quebrar um dente abrindo uma garrafa de Fanta.

Claro que esse fato rendeu muitos risos e por muito tempo foi motivo de gozação entre os impagáveis frequentadores da boa e velha Praça José de Assis.

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10 de out. de 2009

Histórias da coxia...Casos do teatro mineirense

Ah o teatro mineirense...

Sim, em Mineiros se faz teatro! Na verdade sempre se fez. E de boa qualidade.

Nunca teve uma casa de espetáculos decente (e Teatro nunca mereceu atenção, muito menos prioridade, da direção do Centro de Treinamento Santo Agostinho. Nem agora, que virou “Frank Green”), nem o merecido apoio do poder público ou do comércio. Mas isso nunca impediu que alguns “malucos” se dedicassem à nobre arte.

E não são poucos, esses “malucos”. Ainda bem. Senão, quem salvaria a cidade?

E, desde os tempos do “Teatração”, até os dias atuais, os grupos de teatro de Mineiros montam espetáculos de todos os gêneros. De boas comédias à discussões filosóficas.

Sim, acima eu disse “grupos”. Assim no plural mesmo. Teve “Teatração”, “GTE&C”, o grupo da Dona Mery e tem o “Theaomai”. Sem contar os grupos esporádicos, como o da JUNAC, que chegou a fazer uma pequena turnê regional com a montagem de “Meu padim segura o tacho, que a quentura vem pru baixo”, nem o grupo da Mocidade Espírita, em que esse missivista ousou dirigir por um tempo, e que montou alguns pequenos espetáculos (e chegou a escrever, coletivamente, dois bons textos).

Ou seja, vários grupos, e todos sempre contaram com grandes talentos. E também com algumas figuras que nem precisam de personagens.

Caso do grande amigo Cleudiomar, que vestia o personagem que fazia em “Meu padim...” como uma luva, como se tivesse sido escrito pra ele. A Fabiana, grande talento do grupo da Mocidade, que poderia ter se profissionalizado. E o Fábio Rocha, a Dayane, Breno, Lidi Vilela, Marnúbia, Tutuca (que teve uma passagem rápida pela cidade, mas que contribuiu muito), o diretor Toninho Gomes, e tantos outros.

Mas hoje acordei rindo à toa, me lembrando de dois integrantes do Theaomai, de quem há muito não tenho notícias. Kelson e Antônio.

Grandes talentos e cheio de trejeitos capaz de transformar qualquer texto sem graça em ótimas comédias.

Separados eram faziam todo mundo rir muito. Quando os dois estavam juntos em cena, então, era impagável.

É que o Antônio, cheio de “cacoetes” e com uma memória que às vezes falhava. E o Kelson, um super talento, raciocínio rápido, ótimo senso de humor e muito, mas muito mesmo, gozador (soube que está morando no RJ, e que já apareceu até em novela da Globo). E adorava pegar no pé do Antônio. Prometo narrar alguns encontros dois, em breve.

Mas a cena que me fez acordar rindo hoje, teve o Kelson como protagonista. Na cena em questão, uma pessoa estava no palco, e o Kelson entraria, assim que o primeiro colocasse fogo em um pedaço de papel (devia ser uma carta, bilhete ou coisa assim). Kelson tinha que entrar dizendo o texto: “Humm, que cheiro de papel queimado”. So que nesse dia a contra-regra (que era todos do grupo, já que lá todo mundo faz de tudo) esqueceu de colocar o fósforo, ou o isqueiro, onde deveria estar. Quem estava em cena, não sofreu muito. Não tendo como queimar o papel, o jeito foi rasgar.

O Kelson, que estava atento na coxia, entendeu a deixa e entrou, conforme estava no script. Mas, espirituoso como é, e rápido no gatilho, soltou, no tempo certo da piada (que fique bem claro): “Hummm, que cheiro de papel rasgado”...