Em um sábado ordinário e
preguiçoso, como hoje (04/03/2023), acordei tarde, sem muita vontade de acordar
e, mesmo sem muita motivação, saí de casa. Primeiro destino, a aconchegante e linda
Palavrear. Ambiente agradável e tranquilo. Com boa música em baixo volume.
Pessoas cultas, ou pseudocultas como eu, ajudam a tornar o ambiente mais
agradável (talvez de forma muito artificial). Fui tomar café, e o fiz. Mas
acabei comendo um sanduiche que me serviu de almoço (já era perto de meio dia).
Saindo da cafeteria, fui bater
perna no centro da cidade. Objetivo: comprar algumas coisas parcialmente úteis
e certamente fúteis que eu insistia em acreditar que necessitava. Andei sem
pressa e comprei meio sem precisar.
Quase 13 horas, era tempo de
voltar pra casa. Da região próximo à esquina entre as avenidas Anhanguera e
Araguaia pra casa é uma caminha curta e muito tranquila, mesmo com sol à pino.
Eu segui. Fazia o caminho mais usual, passando pela ponte da Anhanguera, plataforma
Botafogo, seguindo pela rua 229-A, passei pelo local onde, por muitos anos, esteve
estacionada uma carreta, objeto de uma demanda judicial (sempre sinto falta
daquele trambolho que se tornara referência de localização e não está mais ali).
Pequena curva à esquerda, na rua 229 e já entrando na 1ª avenida, onde se
localiza o complexo de prédios do Hospital das Clínicas.
As ruas já estavam vazias. O
comércio desse ponto da cidade já estava todo fechado, inclusive as lanchonetes
e barracas de “ambulantes” montadas na calçada do HC. Poucos carros circulando.
Eu, seguindo preguiçosamente, sem pressa como gosto de caminhar em Goiânia,
especialmente pelo setor Universitário.
Atravessei a 1ª avenida, fora da
faixa e vagarosamente (luxo possível em uma tarde de sábado, como essa). Como
não tinha praticamente ninguém na rua, era possível observar tudo e, detive meu
olhar em uma mulher sentada em um banco colocado junto à grade do novo, moderno
e imponente prédio do HC. Um garotinho brincava com um carrinho de plástico colorido,
junto à mulher. Eles aproveitando a sombra de um desses trailer que funcionam
como lanchonete, e estão espalhados por todo centro da cidade e próximo de todo
estabelecimento que gere aglomeração. A lanchonete, como todo comércio da
região, estava fechada, mas a sombra e o banco serviam muito bem para aquelas
duas pessoas, nesse início de tarde de sábado. Julguei serem mãe e filho. Mas
foi só uma dedução. À medida que me aproximava, ia enxergando melhor o quadro.
Vi melhor as cores do carrinho do garoto. Pude deduzir sua idade, julguei ser 3
ou 4 anos. Também vi que a mulher segurava uma marmita no colo. Ela tinha uma
dessas colheres plásticas na mão direita, mas, desde o momento em que eu os
avistei, não vi ela levar uma única vez, a colher à boca.
Mais próximo, pude ver seu rosto
triste. Percebi que ele enfiava e retirava a colher na comida da marmita, em um
movimento ritmado e contínuo, enquanto tinha os olhos fixos em algum lugar que,
certamente não era ali, nem era naquele momento.
O garoto brincava, em silêncio. A
mãe, calada, gritava uma angustia ensurdecedora.
Pensei em me parar antes. Passar
por trás da lanchonete fechada. Correr pra longe...
Também quis parar naquela sombra.
Brincar um pouco com o garotinho. Falar com a mulher. Tentar adicionar algum
tempero àquela marmita.
Não fiz absolutamente nada do que
me ocorreu enquanto dava meus passos lentos, caminhar desajeitado e respiração
alterada, pelo ar que aquela falta de sabor fazia entrar dolorido em meus
pulmões. Busquei fitar seus olhos, mas não os alcancei, tanto por sua cabeça
baixa e, mais ainda, por eles estarem tão distantes.
Passei entre a mulher e o menino.
Não fiz nada. Ela seguiu com o olhar perdido e revirando sua marmita. Olhei o
prato. Marmita normal, dessas que eu e meus colegas de trabalho devoramos quase
todos os dias.
Me veio à mente que, em alguns
momentos, basta um “bom dia” gentil; um sorriso; uma demonstração simples de
simpatia ou um abraço acolhedor, para aquecer nossos corações e melhorar o
sabor de nossas marmitas, de nossos momentos, de nossas vidas.
Porém, em outros momentos, nada
disso adianta. Momentos em que nenhum tempero torna o momento palatável. Aquele
me pareceu ser um desses.
Ela nem percebeu que passei tão
próximo. Ou simplesmente não teve ânimo para demonstrar. Não tinha sabor que
fizesse seu olhar voltar lá de onde quer que estivesse.
Não adiantaria eu tentar salpicar
qualquer tempero. Nem todo meu estoque do dissimulador e cancerígeno glutamato
seria capaz de tornar aquela marmita saborosa, aquele momento apetitoso. É que
nem sempre o tempero alheio nos serve mesmo. Às vezes precisamos minerar, nós
mesmo, nossa salina. Colher nossas ervas e condimentos com as próprias mãos.
Cortar as próprias cebolas, lavando as dores, mágoas, angustias, sentimento de
impotência, desanimo e tudo de ruim que nos aflija, no rio de lágrimas insossas
e frias que verterem de nossos olhos. Só assim poderemos saborear o banquete
que nós mesmo preparamos e que nos colocará de volta à nossa jornada.
Sim, eu sei que em alguns
momentos não conseguimos enxergar forças para fazer nada disso. Por vezes, chegamos
a acreditar que não recobraremos a fome e que nada mais voltará a ter sabor.
Mas a vida já me mostrou que, por mais intragável que seja a refeição, por mais
difícil que esteja a vida, tudo isso sempre passa. E, sempre teremos novas
iguarias para nos deliciar, e saciar nossas fomes. Sei que isso vale pra mim,
pra você e, também, praquela senhora, que remexia sua marmita sem ânimo para
comê-la. Saber disso sempre me renova as forças.
Não conheço aquela mulher. Não
faço ideia sobre o que ela está passando, nem quem tirei seu paladar e levou
seu olhar pra tão longe, deixando aquela expressão de angustia e desalento. Mas
por toda minha caminhada até em casa, e por toda aquela tarde de sábado, em
minha mente uma prece, rogando à todas as divindades e demais figuras
metafísicas que habitam o multiverso das minhas crenças, que agissem em seu socorro,
aliviando seu fardo e devolvendo o tempero de sua vida.
Tenho fé, então, que o tempo de
momentos sem sabores logo passe, e que ela recupere o prazer dos aromas e
sabores e que, por mais simples que sejam, que as marmitas futuras, seja de
comida, de instantes, de dias, da vida, enfim, lhe pareça um banquete, lindo,
colorido, quente e delicioso. E que ela recupere, definitivamente a fome, o
tesão, o desejo. A vontade e o prazer ao se alimentar, comer e ser, de brincar
com seu garotinho, de fazer coisas novas e os afazeres cotidianos, de sorrir.
Enfim, que coloque de volta em seus olhos o brilho e possa saborear a vida.
O bolo amargo continuou na minha
garganta por todo dia. Na verdade, ainda o sinto aqui, me lembrando que a vida
é mais gostosa, quando é gostosa pra todos.
Nazareno de
Sousa Santos – Naza
Professor, poeta e observador da vida
Gosta de compartilhar ideias, textos,
cafés, cervejas e comida (tudo coisa que dá mais sabor às nossas vidas
Para acompanhar essa leitura, recomendo colocar essa trilha de fundo. Nem todos entenderão, mas faz muito sentido... 😔
A vida, meus amigos, é feita de escolhas. Disso, todos já sabemos.
À nós cabe escolher e, em seguida conviver com as consequências de cada escolha. Escolhendo, novamente, no novo cenário e sob as novas circunstâncias, motivadas pelas escolhas anteriores.
Como lidaremos como futuro que cada escolha nos trará, é também uma escolha... Repetição quase enfadonha, mas necessária, para reforçar a ideia.
Escolhas infelizes nos levam a situações, lugares e pessoas danosos, prejudiciais e, igualmente, infelizes.
No entanto, nem sempre podemos ver com clareza, antes da escolha ser feita. E, por vezes, somos levados onde jamais gostaríamos de ir, caso tivéssemos clareza prévia.
2021 chega ao fim. Estamos vivendo suas últimas horas. E aqui estou, nesse exercício habitual de fazer, e compartilhar, meu balanço do ciclo que se encerra.
Exatamente um ano atrás, poucos amigos (ou pessoas que eu julgava amigas) receberam um texto onde eu contava como 2020 havia me deixado doente. Eu estava muito mal. E, naquele momento, eu julgava ter sido aquele, o pior ano que poderia existir.
Mas 2021 chegou, e tudo foi superado e preciso redefinir a régua que mede anos ruins, para tentar encaixar esse que agora finda.
No entanto, para mim, o que fecha agora não é apenas o ciclo de um ano. Encerro hoje um período que se iniciou com uma escolha infeliz. Provavelmente a mais infeliz que fiz em toda minha vida, até aqui. E que foi tomada em 2016. Hoje eu encerro, então, um ciclo de 5 anos. Isso mesmo, meia década em que as consequências de uma escolha infeliz foram se acumulando, e gerando novas escolhas infelizes com mais consequências desastrosas.
A exatos 5 anos eu ia embora de Goiânia. Fui acreditando numa possibilidade que se apresentava como interessante e bastante favorável. Escolha infeliz, mas feita conscientemente.
Tudo deu errado, na nova cidade. As possibilidades não se concretizaram, a família que existia, se desfez. Os amigos mais próximos, também se foram logo (na consequência de uma escolha infeliz, corrigiram o curso, e optaram por escolhas mais felizes, diferente de mim, que insisti em permanecer). Os prejuízos se acumularam. Prejuízos financeiros também, mas, especialmente emocionais, sociais e espirituais.
Absolutamente tudo que podia dar errado, de fato deu. Mesmo assim, ao longo de cerca de 4 anos, eu procurava me apoiar em suportes ilusórios, refúgios traiçoeiros e falsos oásis. Até me permiti sonhar. Mas, quando não há verdades, mesmo o mais bonito dos sonhos ruirá tragicamente.
2020, tragicamente coroado, apenas começou trazer à tona a doença que já me acometia. Trouxe à tona, também, incompatibilidades geradas pelo desrespeito e pela ausência da verdade. Era doente, o ambiente onde eu buscava cura. Nunca foi refúgio, onde eu tentava repousar.
Nem tudo, ao longo desses 5 anos foram desgraças. Em meio a tudo, alguns encontros e reencontros foram realmente favoráveis e benéficos. E, algumas amizades valeram, realmente a pena, serem feitas. Poucas, que provavelmente caibam em minhas mãos, mas que espero levar comigo pelo máximo de tempo possível.
Mas, se nem toda estrada é caminho, também nem todo encontro, por mais que pareça salutar e feliz, realmente o é.
Escolhas infelizes nos levam a situações, lugares e pessoas danosos, prejudiciais e, igualmente, infelizes. E, por vezes, nos cegam e comprometem nossa capacidade de análise e julgamento. O que nos leva a mais escolhas infelizes. E, assim, o que eu julguei ter sido a melhor coisa que me aconteceu nesse período ruim, ao se desnudar e se mostrar completamente, se apresentou como a pior coisa que me aconteceu, não nesses 5 anos, mas em toda minha vida. E as feridas abertas sangram e doem muito mais ao fazer constatação tão dura.
“Ainda vai levar um tempo, pra fechar o que feriu pro dentro”, Lulu Santos.
“É natural que seja assim”. Sei que as feridas ainda irão sangrar por um tempo. E algumas cicatrizes nunca sumirão completamente. Mas o pior ano do pior ciclo da minha vida está acabando e eu estou aqui, escrevendo esse balanço/desabafo, o que significa que sobrevivi. E, teve momentos em que eu pensei que não sobreviveria. Em alguns, cheguei mesmo a desejar a morte, por estar tão perdido e não enxergar horizonte possível. Mas estou vivo. E já escalo as paredes desse poço, cujo fundo eu andei cavando um pouco mais.
Ao escolher, optei pela vida. E algumas mãos se estenderam para me resgatar. À todas elas, sou muito grato, e nomearei até o final desse texto.
Foram 5 anos de espero superar logo. Desses, 2021 se esforçou para ser o pior, e conseguiu. Mas, se a pandemia ainda não passou, posso garantir que estou bem melhor que estava no réveillon passado. E, aos amigos e a todos que gostam de mim, tranquilizo afirmando que minha opção é pela vida e por continuar sendo o mais honesto e verdadeiro em tudo que faço, tentando seguir o exemplo dO outro Nazareno.
A escolha de 2016 foi infeliz por vários motivos, que escaparam de nosso controle. Não estávamos preparados para a empreitada proposta. Os demais envolvidos também não estavam. Nem estavam verdadeiramente intencionados. Mas reforço, eu escolhi ir. Decisão compartilhada no pequeno núcleo familiar que havia. Então toda colheita é de minha responsabilidade. Fui eu quem continuei escolhendo permanecer onde não me fazia bem. Eu que escolhi fechar os olhos para verdades que se mostrava facilmente. Eu plantei. E a colheita quase me matou, mas a culpa foi toda minha. Ninguém, além de mim, deve se sentir responsável. Nem espero que alguém deixem de ser quem são, apenas por eu querer acreditar que vão superar deficiências construídas ao longo de toda uma vida. Princípios e caráter não se formam por decreto.
Também não vou carregar o peso de tirar lições de cada acontecimento. Decidi que, certas dores são só isso mesmo, dores. E nem toda cicatriz trará ensinamento. Onde houver, vou me esforçar para aprender. Mas sem pressão. Pra mim, não é mais verdade definitiva as máximas de que: “O que não te mata, te fortalece” nem “em cada ferida uma lição”. A maioria do que encontramos pela vida não nos mata, nem nos fortalece. Apenas não nos mata mesmo. E, ficar tentando aprender com as feridas pode ser mais dolorido que a própria ferida. A vida apenas segue e vamos aprendendo onde as lições verdadeiramente existem.
Aos amigos que ficaram, espero tê-los por perto, e encontra-los em muitos momentos. E, a Casa do Naza (em reconstrução), estará sempre aberta para cada um de vocês. Às crianças, não se esqueçam nunca que eu, verdadeiramente amo vocês e seguirei, mesmo que apenas de longe, observando e cuidando de vocês. Aos parceiros de criação poética e musical, que sejamos terrenos férteis e colhamos bons frutos de nossas parcerias. Aos escritores goianos, tenham um pouco mais de paciência. Em breve o Concurso Literário Deriva voltará a ser realizado, agora em novo endereço, mas com a mesma proposta. E a participação de todos continuará sendo bem vinda e esperada.
A todos, eu desejo que, no ano novo, e por toda vida futura, que a vida nos seja recíproca, nos devolvendo, na mesma proporção, a maneira que nos comportamos e tratamos os outros. Observando, em especial, nossos valores e princípios, como respeito, honestidade e verdade.
Aos que me foram resgate, minha eterna gratidão (Tarcísio Barreiro, Manoel A. B. Neto, Hélio Benito, Ary Soares, Muriel Félix, Euzainy, grupo Garra, turma Aff, Rúbia Resende, Ednaldo (Marelo), Eduardo Costa, Valdira Rosa, P. H. Power, Carol, Marco Túlio, Pedro, Lílian Cardoso, Família DF e Casa 09).
Que bom que 2021 se encerra e, com ele, esse infeliz ciclo de 5 anos. Que em 2022 tenhamos muito mais escolhas felizes seguidas de mais escolhas felizes...
Como
sabem, cá estou eu, em processo de reconstrução. Tentando me reencontrar após
praticamente dois anos muito difíceis e o fim de mais uma relação.
Voltei
para Goiânia. Voltei perdido, muito perdido. Ainda estou. Mas vou me
reencontrando um pouco a cada dia, a cada momento com os velhos amigos e com os
novos que vão surgindo aos poucos. Também a cada nova sessão de terapia, a cada
lágrima que ainda insiste em cair, às vezes.
Foi
um fim. E todo fim é sempre complicado e por vezes dolorido. Esse último foi o
mais dolorido até aqui. Por vários motivos.
Sei
que em algum momento a dor dará lugar à outros sentimentos e, em seu lugar
ficarão lembranças, boas e ruins e algumas lições (eu espero). Até lá, percorro
o caminho do reencontro e da reconstrução.
Já
atravessei esse trecho antes. Tenho boa noção do que o caminho me oferece. Sei
que dói, mas escolho viver o mais intensamente esse percurso.
Estou
morando sozinho. Já consegui refazer alguns dos laços de antes de me mudar para
o interior. E já encontrei novas companhias de jornada. Algumas bem saudáveis,
outras tão ou mais feridas quanto eu estou. Mas todas me são apoio. Amizades
sempre são. Tenho uma nova gata, carinhosa e carente, que me faz companhia
quando estou em casa. Mas, moro sozinho. Não estou dividindo a casa com nenhum
outro humano.
E,
em alguns momentos, isso potencializa a força da solidão, realçando a forte
presença das novas ausências. E, para mim, momentos de arrumação da casa são
especialmente doloridos. Minha mente sempre dá um jeito de ficar comparando
como estou fazendo isso agora, com como “nós fazíamos” antes. E isso dói. Sinto
saudade. Quero compartilhar, discutir sobre onde cada coisa deve ficar.
Discordar, aceitar...
Ontem
pela manhã foi um desses dias. Precisei reorganizar a cozinha para organizar
melhor minha produção de donuts (essa é umas coisas boas que eu trouxe na velha
mochila). Enquanto empurrava, sozinho, a geladeira, minha pequena mesa de vidro
e um armário, novamente essa saudade bateu mais aguda. Como sempre um turbilhão
de lembranças me vindo à mente. Cenas de tantos momentos alegres, outros nem
tanto, mas compartilhados, portanto, felizes, passando em minha cabeça.
Novamente o nó, o amargo, a lágrima. Sentimento de falta, de frustração, de angústia,
de fracasso...
Porém,
dessa vez uma coisa foi diferente e pode ter mudado para sempre minha vida ou, no
mínimo, os momentos. É que, não sei bem por qual motivo, eu prestei mais
atenção nas imagens projetadas em minha mente, e das quais eu sinto tanta
saudade. E, ao fazer isso, uma chave foi acionada aqui dentro. Eu percebi que
minhas lágrimas não são apenas por meu último casamento. E nem o tem como
motivação, e sim, apenas o fim de relacionamentos com namoradas/esposas. O que
me dói, o que verdadeiramente me dói, e a saudade de mim mesmo. De todas as sensações
e sentimentos que eu experimentei em todos os momentos em que eu acreditei que
uma dimensão da minha vida estivesse resolvida. Exatamente essa dimensão que,
normalmente está relacionada com a presença de uma pessoa com quem se divide a
vida, mas não necessariamente depende da existência da “alma gêmea”. Que é a
dimensão que engloba a estabilidade doméstica. De moradia e agenda ligada à
casa. Está ligado muito mais diretamente ligada à existência de um lar, sendo
ele compartilhado, ou não, com um cônjuge.
Por
isso sinto saudade de quando me mudei pra casa da Cohacol, lá em Mineiros,
quando pela primeira vez, passei a ter um lugar que era meu. Na maior parte do
tempo eu não tinha namorada. Mas tinha minha casa, onde me sentia seguro,
livre, confortável, pleno. A casa estava sempre cheia de amigos. Era perfeito.
Minha vida estava resolvida. Durou menos de 3 anos e eu precisei ir embora. Foi
uma opção minha, desfazer aquele mundo perfeito. Apenas precisei partir.
Quando
me mudei para a velha casa 266 da Rua 239, aqui mesmo, no setor Universitário,
após alguns meses em outro endereço onde não me sentia tão bem, também me
trouxe a sensação de que as coisas estavam resolvidas. E foram 10 anos felizes,
com alguns momentos de menor alegria.
E
teve a subida ao altar, no início de 2008, iniciando um período curto dessa
segurança, Casamento que durou pouco, até começarmos a descobrir as diferenças
e não sermos capazes de nos adequar.
Depois
a relação intensa com a moça que foi comigo para o interior, mas que precisou
voltar. Não teve briga, não teve decepções nem comportamento sacana de nenhum
de nós. Apenas a relação chegou ao fim e ela precisava partir de lá. Doeu,
claro, mas era fácil entender e aceitar o fim.
Em
seguida, em meio à turbulência que estava minha vida, pela partida daquela
companheira, chegou a face mais presente em minhas saudades. Teve certa
intensidade. Foi bom. Trouxe a segurança e a paz que tanto me agrada. Novamente
acreditei que minha vida estivesse resolvida. Mas, dessa vez só eu vivi a
história dessa maneira. Mesmo assim, até que durou e acabou de forma dolorosa e
um tanto desagradável. Mas foi certeza para mim, então sinto falta. Sinto
saudade e, apesar de tudo, sinto que tenha terminado.
Em
todos esses momentos esteve presente minha felicidade e alegria em acreditar
que essa dimensão da minha vida estivesse resolvida, seja com uma companheira
ou sozinho, mas com um lar.
Gosto
de me sentir em casa. Gosto de ter a segurança de ter um porto seguro. Sim,
gosto de sair, de viajar, de ir. Mas gosto disso especialmente por ter pra onde
voltar. Ter a segurança de saber que, quando a aventura não for mais divertida,
ou o trabalho for concluído, existe uma porta que se abre com minha chave e
esse lugar está sempre pronto a me acolher. É disso que sempre senti falta,
saudade.
Gosto
das pessoas? Claro. Amo/amei cada mulher que esteve ao meu lado, ao longo dessa
minha vida simples? Pode apostar que sim. E sigo amando cada uma, de maneira
carinhosa e saudável. E sim, sinto saudade dos bons momentos que passei com
cada uma. Mas o que percebi ontem é que nunca foi exatamente isso que me tira
lágrimas. Minhas ex-companheiras estão em lugar seguro, dentro de mim, de
maneira a continuarem me ensinando as lições de cada etapa, mas sem me ferir,
nem ser ferida por mim.
Mas
a sensação de LAR, que construí com cada uma, e que não existe mais, é o que me
dói. Assim como a mesma sensação que criei sozinho, em alguns momentos.
E
perceber isso é libertador. Me liberta da mulher que empresta o rosto aos meus
momentos de solidão e angústia, nesse momento. Pois o que eu realmente busco
não é ela. É o ambiente, a atmosfera que criamos, no caso da última relação,
que eu acreditei, sozinho, que existia.
Essa
percepção também liberta a pessoa, pois me leva a liberá-la de toda
responsabilidade e culpa pela dor que eu possa estar sentindo.
Entendo
as mudanças. Gosto da perenidade da inconstância que a vida é, e precisa ser.
Mas também gosto de algumas certezas e seguranças. É importante ter pra onde
voltar. Ter alguém esperando dá um conforto extra, que torna a vida bem melhor.
Mas a vida sempre encontra alguma encruzilhada e muda as histórias. Nos faz
querer ir, ou ter que ir mesmo sem vontade. Por vezes, temos que deixar o porto
e navegar em águas turbulentas, ou com extrema calmaria, quase sempre
parcialmente desconhecidas e, quando não há porto pra onde se pode voltar e
atracar, qualquer navegante se sente perdido, à deriva.
O
problema de hoje não é estar sozinho na casa em que estou. É não ter, ainda,
construído a atmosfera de lar. Ainda não me sinto completamente em casa aqui e,
até que isso aconteça, vou continuar sentindo essa saudade que usa rosto,
perfume, textura de pele e tom de voz, para me enganar, pois, na verdade, sinto
saudades de mim mesmo, dos momentos em que soube, ou acreditei, que eu tinha um
LAR.
Enquanto voltava
pra casa, ontem a noite, de um bar aqui perto, onde fui comer alguma coisa, fui
obrigado a cruzar com uma mulher, acho que bonita. Acho que jovem. Acho que
morena. Não posso afirmar nada disso com certeza, pois não pude observar. Tive
que apresar o passo e me distanciar o máximo que pude.
Novamente o
constrangimento e o enorme desconforto, que me tem acometido com frequência,
sempre que uma mulher passa por mim.
Para que todos
saibam, sou homem, branco, hétero e cristão. E a cada dia tenho sentido mais
constrangimento e desconforto ao cruzar com mulheres.
Isso já acontece
faz um tempo. Mas vem se agravando.
Sim, isso parece
mesmo mais um “mi mi mi” de alguém que pertence à maioria socialmente aceita. E
pode ser sim. Mas, o fato é que está cada vez mais difícil conviver com
mulheres, em ambientes públicos ou privados, a menos que as mulheres em questão
sejam conhecidas e você seja um homem confiável.
Posso ter acabado
de denunciar o real teor da minha aflição. Mesmo assim, me permita expor, de
forma explícita e completa.
Vejam, eu sou um
cara normal. Não sou tão feio, que cause pavor devido minha aparência. Também
não sou tão lindo, que gere furor e assédio, por parte das mulheres. Então
nenhum desses é o motivo do meu desconforto ao cruzar na rua com mulheres.
O que me deixa
desconcertado é ver no rosto, no jeito de andar e em toda atmosfera próxima, o
medo que eles sentem, pelo simples fato de eu ser homem, ou por elas serem
mulheres.
Como disse,
percebo isso faz um tempo. Mas ao retornar para Goiânia, após alguns anos no
interior, e tendo que caminhar pelas ruas da cidade, com vários pontos mais
escuros, com pouca ou nenhuma luz e, inevitavelmente, cruzar com algumas
mulheres em vários momentos, esse sentimento, nelas, passou a ser mais
perceptível para mim.
Elas sentem medo.
Elas ficam assustadas. Elas querem passar logo, se distanciarem o mais rápido
possível. Chegar em segurança ao próximo ponto com luz. Ao próximo local com
mais pessoas. Em casa.
Não, meus amigos,
a culpa não é delas. Elas estão assustadas assim, com razão. Por culpa nossa.
Nós homens, em especial nós, héteros, brancos, cristãos e aparentemente “gente
boa”, fizemos com que a situação chegasse onde chegou.
Elas, as mulheres,
estão com medo de serem agredidas, de serem estupradas, de serem espancadas e
assassinadas, só pelo simples fato de serem mulheres. E esse medo tem base
muito sólida em todas as estatísticas de violência contra mulher que é feita e
publicada.
Sou poeta, faz
parte de mim gostar de observar pessoas. Gente de todas as classes, cores,
credos, alturas, matizes, gêneros e tudo mais. E, claro, também gosto de
admirar as diversas belezas possíveis nas mulheres. Mas isso não é mais tão
possível, pois minha observação pode significar uma análise para futuro ataque.
Para um estupro ou outra forma de violência que nem consigo imaginar.
Eu sei quem sou.
Mas elas não sabem. E, mesmo quem convive minimamente comigo, que segurança
pode ter, de que não sou um psicopata?
Quero poder voltar
andar livremente pelas ruas da cidade. Mas, para isso, é preciso que, antes, as
mulheres possam fazer isso também, a hora que quiserem, com a roupa que se
sentirem mais confortável, portando a bíblia cristã ou um título da Anaïs
Nin...
Isso se dará,
basicamente, com uma grande mudança na forma de educar/formar nossos meninos.
Sei que nos últimos tempos, algumas mulheres vêm se dedicando à tarefa de
transformar seus filhos em homens que saibam reconhecer seu verdadeiro lugar,
respeitar as diferenças e, especialmente, respeitar as mulheres como seres
independentes, livres e senhoras do próprio destino. Mas, quando eu era
criança, o comum era as mulheres da época se esforçarem para fazer de mim, e
dos outros garotos, verdadeiros garanhões, grandes pegadores.
Citei as mulheres,
no papel de educadoras, no parágrafo acima, pois elas são as vítimas da
formação machista que elas mesmas nos incutiam. Claro que os homens tem grande
parcela de culpa na formação das crianças. Mas, se ainda não conseguimos curar
a nós mesmos, esperar que sejamos capazes de gerar outros homens saudáveis, é
esperar um pouco demais de nós. Ao menos das gerações que estão no papel de
educadoras nesses dias. Mas, claro, precisamos evoluir pra isso.
Claro que temos
pequenas e isoladas ilhas de bom senso e verdadeira maturidade, entre os homens
contemporâneos. Não pretendo aqui desmerecer o esforço que alguns homens
maravilhosos tem feito para a criação de um mundo melhor. Mas esses ainda são
uma minoria tímida e, quase imperceptível.
Meu
constrangimento, por força, vai me educando um pouco mais a cada encontro
desconfortante. Eu sigo esperando ter a confiança de todas as pessoas que
passarem por mim. Mas reconheço que, especialmente, para elas, o medo e a
desconfiança ainda é sim, a melhor saída.