12 de out. de 2011

Ereção

Eu aqui falando de coisas de homens e eis que me vem à mente uma das que é a mais tipicamente “coisa de homem”. Estou falando da ereção.
Bom, vou dispensar a frescura e as formalidades, e falar de forma simples e direta.
Ereção é coisa de homem. E, geralmente, é bem vinda e motivo de alegria e prazer. No entanto há momentos em que ela ocorre, que nos causa desconforto e constrangimento. Claro, se não ocorre quando se espera, também causa frustração para o casal, e constrangimento para a maioria de nós, homens.

Algumas coisas nos provocam o erguimento do membro fálico. Quase todas elas estão ligadas à excitação sexual.
Ouvir obscenidades, beijos quentes, carícias ousadas, uma bela mulher empenhada em nos provocar são alguns motivos provocadores de ereção, no caso bastante esperada e desejada.
Uma mulher bonita que passa provocativa; a lembrança de uma boa aventura sexual; recados obscenos; aquela colega de trabalho, gostosa, que inesperadamente nos aborda no meio da tarde, cheia de segundas intenções. Esses são outros motivos que podem levar ao intumescimento. Ler de contos e ver filmes eróticos e/ou pornográficos também pode causar o inchaço da glande. Tem ainda a boa e natural ereção causada para conter a urina, quando a bexiga quer expulsar e não temos como promover a liberação (fato que faz com que acordemos com paudurânça quase todas as manhãs).
Todos esses são motivos ligados diretamente a sexualidade, ou defesa biológica. E é normal que os vasos sanguíneos e corpo cavernoso desse membro masculino sofram alterações em todas essas situações. Mesmo que, por vezes nos coloque em saia justa (Humm, se estou falando de coisa de homem, e não estamos na Escócia, melhor usar outra figura de linguagem. Que seja...), nos deixa de calça curta.
Até aqui nenhuma novidade, certo? E, mesmo nos momentos mais impróprios, quando ocorre pelos motivos supramencionados, é aceita com certa naturalidade.
Há porém uma situação, em se tratando de eventos relacionados à paudurescência, que é incomodo, desconfortável, indesejado, sem propósito, descabido, fora de contexto e idiota. Mas bastante recorrente (estou sendo redundante para tentar aproximar do quão desagradável a situação é).
Estou falando das ereções homéricas que nos acomete quando estamos na platéia de uma aula, palestra, seminário, apresentação e alhures, e que a coisa está insuportavelmente chata, causando aquela sonolência quase incontrolável. Ficamos lá, sentados, não conseguindo ouvir nada que a pessoa está dizendo ou mostrando. Lutando heroicamente para não sermos vencidos pelo sono e, para piorar muito, nós homens temos que conviver com potentes ereções. Daquelas que todos aqueles e-mails chatos, que lotam nossas caixas de entrada, prometem nos vender.
Vocês, mulheres, não tem idéia do que seja isso. Se o evento enfadonho for longo, e a sonolência não for passageira, o pobre cidadão sairá do auditório sem ter captado nada que possa ser útil em sua vida, pois estava praticamente dormindo, e com uma possível dor. Sim, dor mesmo, pois não estou falando de uma ereçãozinha qualquer. Não se trata de ficar meia-boca, como dizem. E sim, doe.
Ah, e não importa quem esteja falando. Se homem, mulher, jovem, velho, hétero, gay, gostosa ou baranga. Tanto faz. Basta não conseguir empolgar a turma, e tornar a apresentação/aula, cansativa.
Tenho certeza que algumas professoras, ao tomar conhecimento desse fato, vão desejar provocar na cama, em seus parceiros, o mesmo efeito que causam em seus alunos, durante suas aulas.
Não sei se todos os homens já se observaram nesses momentos, e se perceberam essa ocorrência enrijecente. Claro, não posso afirmar que acontece com a totalidade absoluta dos homens. Mas, desde que, graças a meu amigo Ednaldo Barros, o Marelo, eu descobri que esse fato acontecia não apenas comigo, venho fazendo uma observação cientificamente descompromissada, mas dedicada. E, com base na declaração de todos os homens a quem me ocorre perguntar, posso dizer que esse mal acomete à grande maioria de nós.
Acho, inclusive, que uma boa forma de aferir a qualidade de aulas, palestras e afins, seria monitorar a quantidade de ereção provocada na platéia.
Portanto, se durante uma apresentação sua, você perceber que alguns homens da platéia estão portando uma espada em riste, não se anime. Apesar de ser por sua causa, pode não ser pelos motivos que você desejaria. Ao invés de interessante, você pode estar sendo muito, mas muito chata mesmo.

Vamos dançar


Tirei a poeira dos meus Capézio nº 37. Sim, meus pés calçam 37 (ou 38, dependendo das medidas de alguns fabricantes). Eles estavam bastante empoeirado, quase abandonado. Quase 4 anos sem ser usados. Teve até quem quisesse jogá-los fora, ou encaminhá-lo para doação. Felizmente não cedi. Hoje não teria os sapatos, nem a pessoa, já que aquele relacionamento acabou. Ainda bem que os mantive.
Ele, pobre par de calçado de couro preto, ficou esquecido no último espaço da sapateira. O último ano, após mais uma mudança de arrumação da casa, ele foi protegido por uma caixa de outro sapato qualquer. Mas permaneceu lá, sem ser utilizado.
Mas, eis que finalmente eu recorro a ele novamente. E ao pegá-lo, sou tomado por essa saudade. Lembrança de como gosto de dançar. Dos tempos em que gastava várias sapatilhas 37, lá em Mineiros, nos velhos Bailes do Pavip, festas na quadra do Colégio José de Assis ou festa Junina do Coronel Carrijo. Quase sempre com a boa companhia da amiga, e parceira de dança, Lorena Oliveira.
Quero dançar novamente, e por isso estou resgatando meu Capézio. E, ao resgatar, recupero essa parte de mim, que foi deixada de lado, por tanto tempo.
Gosto de dançar. Não sei (apesar de que, lá no Pavip, eu tinha certeza que dançava muito). Mas gosto. E há uma semana, depois de tanto protelar, retomei as aulas.
Dança de salão, que fique bem claro.
Não, não serão as boas aulas de tango, que animaram meus últimos meses em Mineiros. Aquelas não farei mais. Tango apenas com querida amiga Cynthia, de quem ganhei o par de sapatos de que vos escrevo. E ela está muito distante agora (que fique registrado, ela prosseguiu dançando, aprimorando a técnica e, principalmente, se divertindo muito ao dançar sempre que pode, o tempo todo...). Por enquanto minhas aulas serão de forró e zouk. E, podendo praticar esses dois ritmos, ou mesmo apenas o bom e velho xote, já serei um homem ainda mais feliz.
Confesso, tenho saudades do tango. Tenho saudades da parceira-amiga. Tenho saudade da alegria por cada nova sequência dominada.
Do Pavip, ginásios, salões comunitários de Mineiros, onde sempre havia festas, e onde eu podia dançar meu forró, claro, também tenho saudades.
Até dos “arrastapés” ao som de sanfona, triangulo e zabumba, que aconteciam lá na “Baixadinha”, ou no Cedro, nos meus tempos de criança, esse par de sapatos me lembrou. E olha que isso faz tempo.
Voltei a fazer aula. Pretendo voltar a sair para dançar com certa frequência. E, pretendo fazer isso porque me faz muito bem. Me traz alegria. Acho que funciona para mim, da mesma forma que pedalar funciona para o Neto, Jogar vídeo game para o PH ou tocar guitarra para o Eduardo.
Dançar me faz bem. Eu realmente gosto.
E não faço isso pensando em “pegar mulher”, como alguns caras (alguns amigos meus, inclusive), dizem. Claro que isso pode acontecer, pode até ser facilitado, se eu souber dançar. Mas será muito mais consequência de minha alegria, do que de planejamento prévio. Não é esse o propósito.
A dança pelo prazer da própria dança. É isso que quero recuperar agora. Porque isso também é coisa de homem, e porque é como recuperar parte de mim.
Esse par de sapatos, presente de uma amiga queridíssima, será meu grande aliado nesse importante resgate. Por isso tirá-lo da caixa, e calçá-lo novamente, foi tão significativo.
Dito isto, e já tendo recuperado o fôlego e tomado uma água, o que me diz, dança comigo?

Sobre lutas verdadeiras e falsas conquistas


Amiga Lidi me envia um texto do Ivan Martins, editor-executivo da revista Época, intitulado “Solidão Contente”.
O texto fala do fato de as mulheres serem felizes sozinhas. Que nem sempre, segundo o autor, a solidão é falta de opção mas, em muitos casos, é a opção da mulher.
Cara Lidi, gostei do que li. O Ivan escrever de uma forma suave, que torna a leitura muito leve e atraente (confesso que nessa linha, ainda prefiro os textos do Fábio Hernandez). Mas, quanto ao conteúdo, concordo apenas em partes com ele.
Sei que as mulheres se bastam muito mais que nós, pobres seres dotados de testículos. Sei que vocês, são muito cheias de coisas, com as quais se envolverem, aí mesmo, dentro de vocês (dentro não necessariamente de seus corpos, mas de seus mundos pessoais). Já nós, fomos esquecendo essas “coisas” pelo caminho, ao longo dos anos, desde que surgimos nesse torrão azul, ou desde que tivemos uma costela extirpada e ganhamos uma companheira.
É verdade que mulheres gostam de passar horas cuidando de si mesmas. Que se divertem com seus cremes, alicates, pinças, esmaltes e blanches. Que podem ficar o dia todo na companhia de um livro, e a noite abrir uma garrafa do seu chileno preferido, e tomar vendo filmes na TV, apenas consigo mesmas.
Quem, em nossos dias, ainda não saiba que isso é verdade? É, eu sei, muita gente. Melhor dizendo, muitos homens (e, também, algumas mulheres). Mas basta observar com atenção que todos podem perceber esses momentos de felicidade solitária, ou de “solidão contente”, como o Ivan chamou.
No entanto, minha amiga, uma observação mais cuidadosa ainda, vai revelar outras características de muitas mulheres dos nossos dias.
O mundo mudou. Nós mudamos com ele. Mas vocês, mulheres, mudaram muito mais que nós. Uma coisa porém não pode ser ignorada. Em nossos dias todos competem com todos.
O mundo moderno, leia-se mercado capitalista, se transformou em um campo de batalha mais cruel e mortal que as antigas arenas romanas. E está nos tornando animais capazes de tudo para sermos os vencedores a cada batalha/dia.
Nem sempre o destino do derrotado é a morte, e nem sempre o prêmio do vencedor é algo que engrandeça (nos contentamos com reconhecimento fugaz e vazio, e com bugigangas caras, e sem nenhum valor). E, às vezes para ser premiado, é necessário perder. Perder a dignidade, o amor próprio, o respeito, o caráter, os valores e princípios e a chance de fazer diferença na construção de um mundo melhor.
E eis que aqui estamos. Cheios de coisas pra fazer. Sem tempo para a família, para os amigos. Sem tempo para almoçar tranquilamente ou para ouvir um amigo. Enfim, não temos tempo para sermos felizes. Temos que correr. “Afinal, tempo é dinheiro”, certo?
Acontece, porém, que o homem sempre foi dado à competição. Afinal vem sendo distorcido e moldado ao longo dos tempos. Já a mulher não. Isso para vocês, é coisa nova. Mas já que lutaram por igualdade, não podem decepcionar, não é mesmo? Precisam dar o melhor de si. Precisam ser competitivas e competentes. Tem que corresponder.
Mas, corresponder a qual expectativa? Não decepcionar a quem? Claro, se eu parar para ouvir as respostas a essas duas questões, vou ouvir variações do mesmo tema. E vou ouvir respostas diferente também, claro. Mas minha observação mostra que a maioria dará respostas que apontem para coisas externas a elas. E, quando é diferente, percebe-se que está caminhando em direção errada. Afinal de contas, como já assinalei, nossos esforços buscam comprar nossa felicidade e realização em coisas que não podem nos fazer felizes de fato.
E toda essa competitividade, e busca por igualdade, tem tornado as mulheres seres muito menos emocionais e afetivos do que já foram um dia.
Sim, toda mulher precisa de um tempo só pra ela. Carece passar um tempo em sua própria companhia. Se curtir. Ouvir seus sentidos falando sobre como estão percebendo o mundo. Auscultar seu corpo e sua alma feminina, conhecer melhor a nova mulher que é a cada dia e, assim, poder analisar os caminhos pelos quais anda caminhando. Acontece que a mulher moderna, essa competitiva, que tanto agrada ao mercado tem optado cada vez mais pela solidão. E essa opção deixou de ser totalmente voluntária. É muito mais uma construção mercadológica. Na mesma proporção, a solidão perdeu assas dimensões lúdicas, terapêutica, saudável. De diálogo introspectivo, autoconhecimento e crescimento interior. Os fones de ouvido e sons estridentes não permitem que se ouça as vozes do seu silêncio, não é? E têm os celulares que não podem ser desligados, os e-mails que não param de chegar, os anúncios lhes dizendo como devem ser e o que precisam comprar. É, cada vez mais se fica sozinha, sem a própria companhia.
Os homens há muito se tornaram máquinas. Meras ferramentas de produção. As mulheres estão se tornando agora. E, por mais que eu procure não ser machista, e defender as lutas por igualdade de direitos, e pela “emancipação” feminina, não consigo fazer de conta que não percebo os efeitos colaterais desse movimento, e todas as consequência danosas para toda sociedade, e para o planeta. Já escrevi algumas vezes, e disse tantas outras, que a parte das grandes mazelas sociais que experimentamos hoje, tem origem exatamente aí, nessa luta. Não nas conquistas, mas em como temos encarado tudo isso. Não vou abordar esse ponto. Esse viés fica para outra divagação.
O foco aqui é a felicidade. Ou melhor, a distorção do que venha a ser felicidade, sua grande ausência e enorme dificuldade em encontrá-la hoje.
Vejo mulheres bem resolvidas, independentes, cultas, cheias de conhecimento e desenvoltura, se firmando como diretoras de empresas, coordenando grandes projetos e se elegendo presidente (de escola de samba, de corporações, de clubes de futebol e do Brasil). Mulheres que estão sempre mostrando firmeza e autoconfiança, se o local é seu trabalho e se o assunto são os negócios. Mas que se mostram meio perdidas, se precisam lidar com a família, com amigos. Conheço também jovens lindas, gostosas, sedutoras, que sabem fazer caras e bocas, dançam nas pistas de toda noite, e “pegam” todos os caras que querem. Mas que é melhor não olhar para seus olhos, pois será fácil perceber a presença constante da tristeza. Tristeza que está presente nos olhos executivos, de grande maioria das grandes profissionais.
Mas, quem sou eu para expressar essas coisas, não é mesmo? Ta certo, não sou sociólogo, historiador, nem sexólogo, psicólogo, olheiro de agência de moda. Também não sou cafetão, diretor de empresa de recolocação profissional, nem jornalista barato, como se intitula Fábio Hernandez (Humm, pensando acho que isso posso dizer que sou, afinal meus escritos não me rendem nenhum dinheiro, e jornalista, bem vocês sabem, STF, tal...). Sou apenas um homem que reconhece a força da mulher, e por isso mesmo se entristece ao ver tristezas em seus olhos.
Mas também sou homem de me emocionar. De chorar de alegria e de tristeza. De sentir saudades e ligar pra ouvir a voz. De querer sexo pela manhã ou apenas companhia tranqüila. E de querer ficar sozinho às vezes. Fazendo nada comigo mesmo. Cuidando de mim. Lendo ou brincando com o Putz e a Capitu. Vendo bobagens na TV e, ouvindo o que eu tenho para me dizer. Sabe por que, amiga Lidi, porque, apesar de termos nos esforçado para nos estragar, nos tornando os seres quase disformes que somos hoje, nós homens ainda mantemos parte da nossa essência. E essas necessidades, e capacidades de ficar sozinho, também existem em nós.
Gostar da própria companhia, querida, também é coisa de homem.
E, independente de ser conosco mesmos, ou com os outros, está mais que na hora de resgatar a qualidade de nossas relações.

1 de set. de 2011

Não somos reféns, pois a Terra não é nossa inimiga


Gosto de ler.
Letras, palavras, pessoas...
Somente através da leitura é que se pode conhecer e compreender o mundo. Seja o mundo imediatamente à sua volta ou todo esse mundão de meu Deus.
Pena estarmos perdendo, em ritmo de progressão geométrica, a capacidade de leitura.
A verdade é que não gostamos de ler. Não aprendemos na escola. Não somos incentivados em casa, e o sistema prefere que não saibamos mesmo.
E, se não sabemos ler palavras escritas, sejam em revistas de fofocas, jornais diários ou obras clássicas da literatura, muito menos somos capazes de ler os fatos ao nosso redor. Leitura analítica da conjuntura é coisa para cientista social e político. Não cabe a nós, certo?
Fiquei com muita vontade tratar desse tema, hoje aqui. Mas só citei o gosto pela leitura, e a necessidade que temos de ler, para dizer que essa é uma das formas que uso para observar as pessoas. E tai outra coisa que gosto de fazer, observar as pessoas. Não individualmente, como mexeriqueiro. Mas os comportamentos sociais. Afinal a produção literária reflete bem a evolução moral e intelectual do seu tempo. Ou seja, as uma sociedade escreve aquilo que vive. Ponto.
Por isso se aprende sobre as pessoas lendo tudo que está sendo escrito em cada geração, em determinada localização geográfica.
E, aqui em Goiânia, o Diário da Manhã é um bom espelho a refletir o que pensam as pessoas que vivem aqui, em nossos dias. Afinal o espaço aberto para que as pessoas comuns possam se expressar funciona meio como janela democrática em meio à pressão financeira que mantêm os meios de comunicação. Por isso, e por estar totalmente aberto na internet, me permitindo lê-lo “na faixa”, há tempos essa tem sido uma leitura diária obrigatória.
Às vezes me surpreendo com o que encontro nessas páginas. Às vezes me aborreço, às vezes me alegro, sempre me informo e muito aprendo sobre nós. Na última terça-feira (30/08/2011), dois pequenos textos de leitores, na mesma página, me chamou muito a atenção. Um bom artigo sobre Steve Jobs, e um comentário de 3 pequenas linhas sobre o furacão Irene.
Em seu comentário, o leitor Fernando Borges disse, literalmente, o seguinte: "É impressionante como o furacão Irene provocou destruição. Realmente, somos reféns da natureza". Vejam, caros leitores, ele reconhece a força da natureza, se mostra admirado com o que essa força pode fazer. Ao leitor Fernando ocorreu a percepção de que existem forças bem maiores que todo poder que se pode comprar. Percepção essa que a maioria de nós ainda não tem.
Até aí tudo bem. Bastante louvável, inclusive. Devemos nos alegrar sempre que uma pessoa adquiri um nível de consciência mais elevado.
Ocorre porém que ao encerrar sua manifestação, o leitor explicita algo que, de certo modo, representa a triste relação que a grande maioria da humanidade acredita ter com o planeta. Veja que ele diz “... Realmente, somos reféns da natureza". Confesso, isso me entristeceu um pouco.
Uma olhada rápida em qualquer dicionário e você, se tiver alguma dúvida do significado da palavra, vai confirmar que o termo refém diz respeito à relação de alguém com um inimigo. Quer seja a pessoa que se entrega para garantir a integridade de outrem, ou aquele que é seqüestrado, com o objetivo de obter o pagamento de alguma quantia, por seu resgate. Mas o fato é que trata-se da relação com um INIMIGO. Com o qual você não quer estar, e com quem corre grande risco.
Ora, olhando daqui, de onde olho, não é o que me parece.
Tudo bem, eu não sou delegado de polícia, juiz, advogado, seqüestrador, banqueiro, fiscal da receita federal, negociador da polícia nem apresentador de programas sensacionalista na TV. Mas posso opinar sim, e posso porque aprendi, com alguns bons mestres, que somos filhos da Terra. Que estar aqui é um privilégio, e não um castigo. E, exatamente por isso, precisamos aprender a tratar bem esse planetinha azul, que é a única morada disponível para nós, nessa nossa etapa.
Há tempos que, sempre ao falar de solidariedade, eu falo que já é quase passada a hora de começarmos a ser solidários uns com os outros, seres humanos, mas também com todas as demais formas de vida com as quais convivemos e das quais dependemos.
O que chamamos de catástrofes, talvez seja apenas a Natureza respondendo a todos os nossos ataques e agressões. E, por certo não é respondendo por vingança, mas para equilibrar as coisas na superfície, e nos chamar nossa atenção para a forma errada que estamos nos comportando.
Podemos nos considerar filhos, irmãos ou companheiros da Terra (natureza). Mas não somos reféns, afinal ela não é nossa inimiga. Ao contrário, é ela que nos oferta tudo que precisamos para viver e desenvolver. E ela nos oferece apesar de nós, apesar de como a temos tratado. Tudo que ela espera é que saibamos aproveitar com sabedoria e respeito. Respeito a todos os iguais, e a todos os diferentes. Afinal se vivemos na mesma casa, é bom que vivamos em harmonia. Concorda?
E, afinal, o que o artigo sobre Steve Jobs tem a ver com isso? Você pode estar se perguntando. Bem, como disse, o artigo ficou bom mesmo. O coordenador de MBA Marcos Hiller fez justiça à mente inquieta e genial do criador da Apple. No entanto, e também no fechamento, ele perde a oportunidade de encerrar brilhantemente seu texto, e se permite demonstrar o grave senso comum. Ao dizer que "... A verdade é que eu não preciso de iPad 2, mas tenho de ter ..." , ele assume uma das faces mais egoístas do ser humano que, preocupado apenas com seu bem-estar pessoal e momentâneo, sequer lembra de onde vem os recurso para produzir todas bugigangas tão desnecessariamente vitais.
Não sou eco-chato. Sei que os avanços tecnológicos são importantes e bastante úteis. Estou dizendo apenas que, se eu não tenho um equipamento, que eu possa escolher o que há de melhor. Mas se já possuo um, que eu prolongue sua vida útil o máximo possível, afinal, cada placa, ou parafuso, será feita com parte do corpo de quem nos sustenta em seu colo/superfície.

16 de ago. de 2011

Sobre mortes e distúrbios

O mundo lá fora está pegando fogo. É economia maluca, filhos de Odin matando em nome do Deus cristão, o Mano que não ganha uma e o PMDB minando completamente o Governo Dilma. Enquanto isso eu aqui, aproveitando este espaço, e seu tempo precioso para compartilhar esse meu humor meio negro e muito sem graça. Mas já que me permitem...
Me lembro como se tivera sido ontem.
Era sábado, já quase no final da tarde eu precisei ir à casa de um amigo, o Birrinha. Por estar no caminho, e para aproveitar melhor minha saída de casa, passei na casa da minha namorada da época. Eu e ela morávamos bem na “baixadinha”, e o Birrinha no limite desta com o Setor Oeste, lá em Mineiros, extremo sudoeste de Goiás.
Bem, não me lembro o que iria fazer com o Birrinha, nem o que fiz com a Kátia (além de alguns prováveis beijos). Também não me lembro o que fiz na noite daquele 04 de novembro de 1995. Mas nunca consegui esquecer o estranho sentimento que me acometeu ao receber a notícia da morte de Yitzhak Rabin. Estranho pela forma como me abateu, e mais estranho ainda pela intensidade do sentimento.
Ainda estava na casa da namorada, quando a TV noticiou o assassinato do Primeiro-Ministro de Israel. Não sei hora exata em que aconteceu o atentado. Mas eu fiquei sabendo perto das 19 horas, no fuso horário lá da “baixadinha”. Foi instantâneo. Minha companheira notou fácil minha mudança de humor. Chegou a dizer alguma coisa, tentando me manter animado. Ela, certamente, não entendia como a notícia da morte de uma pessoa tão distante de nossa realidade estava me afetando tanto, e de forma tão fulminante. Confesso que eu mesmo não entendia (acho que ainda não entendo bem), mas o fato é que aquela morte me abalou muito.
Não deixei de ir à casa do Birrinha, mas preciso confessar, no caminho não consegui conter as lágrimas. Sim, caro leitor, eu chorei quando Yitzhak Rabin morreu. Não exatamente por ele, eu acredito, mas pelo símbolo em que havia se tornado. Símbolo que estava se fortalecendo. E chorei ainda mais por sentir (veja que eu disse sentir, coisa de percepção sensorial, e não de constatação racional), que a paz no mundo acabava de perder um grande aliado. Não estou falando apenas pelo Nobel da Paz, mas pelo enorme esforço que aquele homem empreendia para pacificar a região onde nasceu e vivia.
“Fudeu”, foi o que eu disse para minha jovem namorada, logo após ouvir a notícia e conseguir articular alguma coisa, “o mundo agora é um lugar mais perigoso de se viver...”.
A vida seguiu. Aquele meu namoro acabou logo depois. O Birrinha virou advogado, agora é o Dr. Antenaldo Carrijo e, no Oriente Médio os constantes conflitos, negociações pela paz e atentados prosseguem ocorrendo (ainda acredito que com Yitzhak Rabin a situação hoje seria diferente, para melhor). Eu saí da Baixadinha apesar dela não sair de mim. Me mudei até de cidade.
Tantas coisas aconteceram no mundo desde então. Tantas outras pessoas conhecidas e reconhecidas morreram. Muita gente também nasceu. Mas nenhuma outra morte me afetou tanto quanto aquela. Digo mortes de personalidades, seja da política, artes/cultura, esportes ou gente famosa por coisa nenhuma.
Senti a partida dos garotos do “Mamonas Assassinas”, do Renato Russo, do Mário Lago. Quando os fios das Moiras foram cortados para Mercedes Sosa, calando “A voz da América”, eu também senti. Saramago também deixou uma lacuna importante.
De fato, é comum que a morte de algumas personalidades nos cause algum tipo de sentimento. Em alguns casos um grupo maior de pessoas se abala, e ocorre o que chamamos de “comoção social”. Acho que podemos incluir nessa categoria de eventos sociais, o sentimento que tomou conta dos brasileiros, em abril de 1985, quando boa parte da população chorava, ao som de “Coração de estudante”, a morte do primeiro presidente eleito após a abertura política. Também foi assim quando, no dia do trabalho de 1994, o Silva mais ilustre que o Brasil conheceu nas últimas décadas, parou, para sempre, na curva Tamburello. Ouvi dizer que aconteceu algo parecido lá nas terras do Tio Sam, quando John Fitzgerald foi assassinado em 22 de novembro de 1963, supostamente por um tal Lee Oswald (como curto teorias da conspiração, sou dos que acreditam que o pobre Harvey foi só mais um bode expiatório, mas isso não é relevante aqui). A Inglaterra chorou a morte acidental de sua princesa, com status de quase rainha. Outro exemplo de “comoção social” foi o que aconteceu em todo mundo quando, recentemente, a morte veio buscar aquele garoto black or white (confesso que me somei ao grupo dos que sentiram muito essa perda).
Enfim, sempre que alguém, que é admirado por muitos, realiza seu inevitável encontro com Thánatos, pessoas se comovem, fazem vigílias em suas casas, se acocham nos funerais, choram em coro pelas ruas, cantam em memória do de cujus, vendem lembrancinhas, lançam coletâneas, reexibem filmes, citam suas palavras e analisam suas vidas. Os fãs ainda lotam ruas, o twitter, avenidas, facebook, estádios, orkut, myspace e nossas caixas de mensagem. Alguns mais desprovidos e personalidade própria e mais ligados emocionalmente aos seus ídolos, ou exagerados querendo um pouco notoriedade fugaz, chegam a declarar que não sabem como suas vidas seguirão doravante.
Seja de forma mais contida, ou de forma barulhenta, é comum que isso aconteça. Sempre aconteceu e, ao que parece, vai acontecer por muito tempo ainda. De Cleópatra e Heitor de Tróia aos nossos dias, isso sempre aconteceu (não foi caso daquele jovem galileu da Nazaré, crucificado pelos romanos há dois mil anos, por quem apenas os familiares e cerca de uma dúzia de amigos se comoveu).
E, já que é costumeiro, eu acho normal. Normal e, em alguns casos, até bastante saudável do ponto de vista da saúde social. Quando em manifestação pacífica e ordeira, chora a morte de um importante líder, que servirá de exemplo para as presentes e futuras gerações.
Uma coisa, porém, está me deixando de cabelo em pé nos últimos dias. Ta bom, Londres continua longe pra caramba da Praça Universitária. Mesmo assim é preocupante ver tanto vandalismo e destruição. Desde a extinção dos hooligans que não tenho notícia de convulsão social tão grande assim. E bem debaixo da saia da Rainha (pobre Dona Beth, deve estar achando seu chazinho mais amargo que o normal).
Mas afinal, qual a ligação desses distúrbios com aquilo que estava falando ali em cima? É que nada, nem ninguém, me tira da cabeça que tudo isso é parte da comoção causada pela morte da bela, talentosa e desajuizada Jade. Os britânicos, quem andam sem grandes líderes e ídolos, afora a idosa detentora da coroa, não assimilaram, ainda, a perda da garota de bela voz e que gostava de voltar para seu luto. E estão extravasando seus sentimentos dessa forma. Isso pode ser um recado sutil, ou um grito desesperado de alerta, para alguma ferida ainda oculta no Reino.
Não vou entrar no mérito de apontar os riscos dessa onda de selvageria para a organização dos jogos olímpicos, nem ficar pensando no que estariam dizendo se fosse aqui, no Brasil. Isso eu deixo para os analistas políticos.
Quero só compartilhar meus temores. É que mesmo não sendo sociólogo, nem membro do COI, diretor da CBF, nem delegado de polícia, comentarista esportivo, arqueólogo de acontecimentos futuros, tanatopraxista, nem produtor musical, agente funerário ou dono de pub (mas confesso, sou fã do Monty Python), estou aqui assustado com o que pode acontecer no Brasil, se essa onde de comoção violenta vira mania globalizada.
Qual seria a reação dos brasileiros se (e isso vai acontecer um dia) figuras como Roberto Carlos, não o bom em ajeitar as meias, mas o moço de Cachoeiro do Itapemirim, ou o mais ilustre palestrante do momento, Luiz Inácio, ou ainda o dono do baú, Senor Abravanel, batesse a caçuleta em breve? Chego a ficar arrepiado só em imaginar, as Avenidas Paulista e Goiás lotadas de populares armados com coquetel molotov, saqueando as Casas Bahia e os camelódromos. Melhor nem pensar.
Mas o pior ainda poderá ocorrer, com o óbito de Luan Santana ou de Vinicius Félix de Miranda. Imagina só, as ruas tomadas por uma multidão usando botas e grandes fivelas, armados com seus berrantes desafinados (...). multidão urbana transviada, disformemente, de moradores do campo, que fique bem claro. E pode piorar mais ainda. Tente você, caro leitor, imaginar as ruas do país parecendo uma aquarela fluorescente, cheias de adolescentes desesperados, com seus cabelos lisos caindo pela testa, postando suas dores profundas, chorando muito no twitter, Pichando as fachadas das lojas e das casas, espalhando, por toda parte, tinta com aquelas cores ridículas, em comoção pela perda dos ídolos, por ocasião do falecimento dos garotos do Restart. Imaginou? Isso sim, seria uma visão do inferno, não acha.
E ainda tem o senador imortal, Sarney, o narrador esportivo Carlos Eduardo dos Santos. E o ex-presidente dos Estados Unidos da América, Mr. W. Bush, e outros. Peraí, estou falando de possíveis ocorrências em caso de algumas mortes, e não de desejos coletivos, certo? Então vamos voltar ao que interessa.
A morte de alguns, de fato, consegue abalar completamente o equilíbrio. Veja, por exemplo, o caso Bin Laden. Morreu. Bateu as botas, quer dizer, bateram para ele. Mas o Afeganistão segue inseguro e sem liberdade, ocupado por homens do exército dos EUA e do Primeiro Ministro de férias curtas e, como por maldição, os pilares da sociedade cristã ocidental, o sistema capitalista, parece ter entrado em estado terminal sem retorno. Estou duvidando que saia dessa UTI com vida.
É, vivos ou mortos, algumas figuras sempre mexem com as pessoas e com as estruturas sociais.
Já que é assim, vamos seguir festejando a vida e “bebendo nossos mortos”.
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PS.
Quero deixar claro que desaprovo completamente qualquer forma de violência. Escolho ser bem humorado sempre. E acredito lidar muito bem com a morte, sobretudo com a dos outros...

5 de ago. de 2011

Fim do dia, sexta-feira...

O Sol já se esconde por detrás dos edifícios.

Daqui a pouco a noite acordará

trazendo as estrelas, a lua nova,

alguns mistérios,

excitação e medo,

prazer e dor,

o frio do inverno

o calor daquele corpo nu,

(belo como esculpido com pétalas e suave como suspiros de prazer).

Também trará o frescor da cerveja,

as bolhas da champanha e a ardência da cachaça.

A santidade da hóstia "sagrada" e o fogo da pimenta.

Felicidades verdadeiras e alegrias ilusórias.

Lucidez mortal e porre criativo.

Aventuras e apatia

Louvação em templos diversos e filosofia em mesa de bar.

Sexo gratuito e amores de aluguel,

mortes e fecundações,

cópula e felação.

descanso e agito,

gritos e sussurros,

acordes agudos e pancadão.

Poesias vividas, faladas, escritas e ignoradas.

Dúvidas e certezas.

Silêncios que conquistam e cantadas que afastam.

Olhares roubados e beijos negados.

A roupa certa para despir.

A máscara errada para vestir.

Perdas e ganhos,

sim e não,

encontros e desencontros,

chegadas e partidas

fé e descrença

anjos e demônios

inimigos fiéis e amigos nem tanto.

(...)

É, lá vem a noite cheia, e vazia, de tudo.

Cada um escolhe sua vibe

Mas, se for se matar, faça apenas com a intensidade que te permita estar vivo amanhã, quando a noite se for.

Aproveitem a noite, crianças.

Juízo viu. Mas não perca o ponto do prazer, nem o extrapole

Vai lá, se jogue,

afinal a noite está bem ali, ao alcance da minha voz.

E, ufa, é noite de Sexta.

28 de jul. de 2011

Um pouco sobre preços e valores

Alguns cálculos me surpreendem e fascinam.
Já disse outras vezes que gosto muito de gráficos, planilhas e tabelas que ajudam a explicar o mundo lógico. Mesmo quando trazem informações que em nada contribuem em nossa vida diária. Como, por exemplo, qual o percentual nos casos de consumo de kitute de boi (aquele coisa enlatada, cheia de sal e com uma gordura tão resistente e grudenta como pigarro. Uma delícia...), está diretamente relacionado com a audiência dos programas de auditório, nas tardes de domingo.
Outros cálculos me surpreendem pela grandeza e complexidade para serem efetuados, como a massa de água localizada orbitando um quasar. A descoberta recente apontou um volume de 140 trilhões de vezes a soma de todos os oceanos da Terra. É muito água. Pena estar longe demais para voltar com uma lata na cabeça.
Além dos cálculos, gosto de entender como as ciências se desenvolvem, e como alguns conceitos se afirmam (ou não), com mais ou menos facilidade.
Os chamados “sistemas de produção” são bons exemplos. O comunismo nunca chegou a ser experimentado, por conta das limitações e deficiências do caráter humano. Mesmo assim, hoje, todos (ou quase) consideram o termo como sinônimo de ditadura, governo autoritário e falta de liberdade.
Por outro lado o capitalismo caiu no gosto de toda população, e ninguém consegue enxergar um palmo além dos seus horizontes. Na verdade ninguém ousa, sequer, imaginar que possa existir uma outra possibilidade.
Mas, voltemos aos cálculos, e gráficos.
Se você tentar se informar de quanto dinheiro existe no planeta, vai encontrar mais de meia dúzia de respostas diferentes. Todas incertas e imprecisas. Mas em uma coisa quase todos, que se ocupam de ficar contando as moedas espalhadas pela Terra concordam, existe uma grande diferença entre as riquezas produzidas e o dito “ativo” que circula nesse planetinha azul. E não é uma diferença pequena não, sempre superior a 120%. Ou seja, tem muito mais papel com valor simbólico que riqueza realmente produzida.
Em 2010, a revista Galileu, com base em dados do Banco Mundial divulgou que o PIB Global era de US$50 trilhões, e que o ativo (somando o total dos depósitos bancários, fornecido pelos bancos; títulos públicos e privados e o preço de todas as ações no mercado financeiro) somava nada menos que US$170 trilhões, ou seja 350% a mais.
Não é fantástico como coisas assim podem ser calculadas? Coloca isso em um gráfico colorido e pronto, todo mundo pode enxergar facilmente essa diferença.
Um parêntese rápido, somente para dizer que vi ontem o Mr. Barack Obama em mais um pronunciamento, tentando convencer a população estadunidense que é uma boa idéia sacrificar os sistemas de saúde, educação, segurança, e tudo mais, para salvar o sistema financeiro de mais uma crise. Crise que, ouço dizer, já faz sombras na casa branca, e em todas as casas dos Estados Unidos e, de quebra, assusta todas as casas desse torrãozinho que órbita o Sol. Na verdade não sei se seria uma nova crise, pois a última grande nem deu um refresco. Me parece mais que os líderes do capitalismo se enganaram, achando que a marolinha provocada pela bolha imobiliária havia sido dissipada, quando ela apenas estava escondida, esperando para nos assustar novamente, como um demônio brincalhão.
Tenho escutado alguns especialistas dizerem que Obama conseguirá evitar mais essa crise. Outros, em tom profético, anunciam que essa poderá ser pior que todas que antecederam. Alguns anunciam até a morte do capitalismo.
Eu, que não sou economista, político corrupto, historiador, grande investidor, dono de mineradora, jogador de futebol, líder estudantil, apresentadora, sem noção de programa de entrevista na tv nem participante de nenhum “circo da autêntica mediocridade” (deve ser essa a tradução mais perfeita para “reality show”), não ouso fazer previsões. Mas gosto de números, cálculos, gráficos e planilhas. E tem coisa que realmente não consigo entender.
Outro parêntese para deixar claro que ainda insisto em achar que é uma boa idéia ser comunista e acreditar nessa possibilidade. Claro, sem apoiar nenhum tipo de ditadura ou governo opressor. Más, minha despretensiosa opinião não se baseia apenas no viés ideológico (nem sou filiado ao PCdoB, e considero que esse partido tem uma enorme crise de identidade). Fim do parêntese.
Como pode um sistema baseado no “irreal” se sustentar por tanto tempo? Eu fico tentando entender.
Não vamos aqui discutir sobre a grande vocação do capitalismo para gerar, e fortalecer, grandes diferenças sociais, provocando acúmulo de riquezas em uns poucos e espalhando a miséria na grande maioria. Nem vamos tratar da forma desumana com a qual se alcança o grande objetivo desse sistema, que é o lucro, que se gera com a exploração da força de trabalho de quem não possui o chamado capital. Quero abordar hoje apenas a enorme bolha que todo sistema me parece ser. Veja bem que eu disse “me parece”, uma vez que minha análise é de leigo, já que além de não ser tudo que já disse, há que levar em conta que, ao dizer que posso ser jornalista, o STF não me habilitou para ser analista financeiro.
Ora, já de criança todos nós ouvimos nossos pais, professores e todo mundo dizer que não se pode gastar mais do que se ganha, pois isso pode trazer sérios problemas. Todos concordamos, certo? Acontece que não é esse o problema. Se parece, mas não é. É meio que isso, só que às avessas. Não se trata de gastar mais do que ganha, mas acumular mais do que de fato existe (Como os casos de toda pessoa que se vende, seja qual for o valor que receba, sempre será muito maior do que o que realmente vale).
Meu amigo Ary outro dia veio lamentar que havia perdido uma fortuna na bolsa de valores. É que o preço das ações de uma determinada empresa despencou, e ele não tinha dinheiro para comprar. Dias depois as ações supervalorizaram, e ele não tinha umazinha sequer, para vender. E tudo isso aconteceu por conta de um comentário infeliz (ou tendencioso) de um figurão desse mercado.
Sei, é uma piada meio sem graça e bastante repetida, mas só introduzi aqui para ressaltar como os grandes montantes são irreais e não se prendem a valores reais.
Posso abrir, na bolsa, ações de uma empresa composta de apenas esse meu computador defasado, um domínio registrado e um site que oferece encontros entre anões de olhos castanhos, nascidos entre os paralelos 20 e 10. Tudo não me custando mais que R$ 2.000,00. Mas se algum “yuppie” (sim, eu era adolescente nos anos 80) de Wall Street disser algo interessante, minhas ações podem subir em uma noite, transformando minha empresa em milionária. Mas ela continuaria tendo um patrimônio real de R$ 2.000,00. Ou seja, eu posso me tornar milionário da noite para o dia sem produzir nenhuma riqueza. E isso acontece o tempo todo.
De onde eu vejo, isso vai da supervalorização de alguns empreendimentos imobiliários, de algumas marcas e de títulos que são apenas isso, título (nada mais que um pedaço de papel).
Lucro irreal para substituir riquezas imaginárias. Mas, como dar solidez ao que é irreal? Além dos títulos e ações, os pesquisadores do capitalismo desenvolveram a dívida. Antes essa era uma ferramenta empregada com indivíduos, mas já faz um tempo que passou a ser empregada nas relações entre estados e entre organizações financeiras e estados. A dívida cria, em todos, a ilusão de que a riqueza irreal de fato existe, além de criar uma relação de plena dependência entre o devedor e o credor.
Aqui, do meu mundinho, não creio que os grandes credores, bancos públicos e privados, tenham a pretensão de receber as impagáveis dívidas que algumas nações possuem. Primeiro por serem impagáveis mesmo; segundo, por que se todos resolvessem pagar suas dívidas, seria necessário que os recursos irreais fossem acessados de fato e, como não existem, o sistema quebraria; e terceiro, por que se houvessem recursos para isso, o capitalismo perderia parte de sua função, que é a de escravizar a maior parcela da população.
Uma das últimas tendências do mercado, é a valoração dos serviços naturais. Ou seja, atribuir preço para os elementos existentes na natureza, e às atividades naturais. É uma boa alternativa para tentar fazer os capitalistas enxergarem o valor, ou a importância, que o meio ambiente tem para nossa existência (que vai muito além das relações de mercado). Mas demonstra, também, nossa incapacidade de pensar algo novo.
Bem, tentando finalizar com alguma coerência esse texto, afirmo acreditar que o Sr. Presidente Obama impedirá a crise, afinal é preciso salvar o sistema. Claro, o povo de lá sofrerá um pouco as conseqüências de um arrocho econômico. Mas não se preocupem, nem de longe chegará ao que estamos acostumados por aqui.
Sei também que muitos dirão desse meu artigo (se o Diário da Manhã tiver coragem de publicá-lo) que trata-se de uma visão limitada, sem embasamentos e muito reducionista da realidade. Muitos acadêmicos citarão Adam Smith, Hayek, Keynes, David Hume e até Marx para justificar suas opiniões embasadas, e desqualificar as minhas. Tudo bem, eu agüento. Afinal não tenho pretensão de fortalecer as bases da nenhuma dessas idéias que estão postas há muito tempo. Além de, claro, não ser estudioso do tema.
Sou apenas uma pessoa que trabalha, produz, ganha e gasta dinheiro (pouco, é verdade), e sinto que o sistema no qual vivo não pode se sustentar por muito mais tempo assim, com riquezas irreais e explorando tantos, em benefícios de tão poucos.
Espero que algum desses teóricos do desenvolvimento seja capaz de enxergar além dos limites desse capitalismos desumano que aí está, e nos proponha um novo modelo, baseado na fraternidade, na liberdade real, na igualdade, no respeito às pessoas e à natureza. O modelo de um mundo onde as pessoas não tenham preços, e sim valores. Que não reduza os seres humanos a meros “recursos humanos”, nem a natureza do nosso planeta, e tudo que nele existe, a “recursos naturais”.