24 de abr. de 2012
18 de abr. de 2012
Era o tempo.
Foi o vento.
Passou o momento.
Partiu o trem,
Fez-se poeira,
Caiu a flor,
Luz apagou,
Lua se pôs.
Lágrima até secou.
O cheiro permanece, na memória da pele,
Da saliva, só o sabor.
Envelopes empoeirados, inertes em alguma velha caixa.
e-mail, nenhum.
Nenhum olá,
Nenhum sorriso.
Filhos, nenhum.
Idade, dezenas.
Rugas, por todo corpo.
Brancura em todo cabelo,
Memória, já falha.
Lembranças, como se fora ontem.
E ela já não chora.
Nem lamenta.
Apenas se lembra de um dia ter perdido o momento.
E ter deixado ir embora o amor...
5 de abr. de 2012
Sobre vinhos, rock, o "nada" e muitos gritos
Uma frase sobre as possíveis definições do “nada” motivou o início de nossa conversa.
Falei sobre um colega de trabalho, filósofo, que gosta de pensar sobre o tema, citando Kant, Sartre, a metafísica de Heidegger, e outros, e que certamente gostaria de conversar com ela naquela tarde.
Ela ri, e diz que seria ótimo conversar com um filósofo. Ou melhor, ouvir alguns filósofos conversando. Sair um pouco da futilidade da grande maioria das conversas que se tem hoje em dia, com raríssimas exceções.
“Mas seria melhor ter essa conversa, regada à vinho”. Concordo prontamente.
Era terça-feira, por volta das 15 horas. Nos falávamos pelo skype. Conversa cortada. Mantida nos pequenos intervalos que conseguimos, e devemos, encontrar em meio à rotina de trabalho.
Há tempos não falava essa amiga. Na última vez a pequena Lis nem tinha nascido ainda.
A bela Deh Fernandes já é mamãe. Como eu, veio de Mineiros. Como eu, gosta de se expressar por meio da escrita. Como eu, tem um blog. Como eu, uma mente inquieta. Além de ser roqueira, cantora e compositora (quem mora em Goiânia e ainda não conhece, guarde esse nome, você ainda vai ouvir falar dela).
Mas, voltando à nossa conversa, em algum momento estávamos falando dos nossos escritos. Nos cobramos mutuamente por novos textos, já que não estamos publicando tantos textos quanto gostaríamos de ler, um do outro.
Concordamos que precisamos escrever mais. Para aperfeiçoar e também para agradar nossos leitores. Quem sabe assim, um dia alcança as mãos, bocas e corações de todas as pessoas. Afinal, não custa acreditar.
Sim, querida Deh, concordo com você, que ao escrever nos expomos demais. Muito mais que ao cantar ou ser ator, quem escreve, sobretudo quem escreve como nós, que além de tentar fazer poesias, também mostramos nossas opiniões, sentimentos, idéias e percepção do mundo, sempre deixamos nossas almas muito abertas. Nuas.
Mas, de que outra forma sabemos viver, minha cara, se somos assim? Somos assim. As máscaras, preferidas pela maioria, para disfarçar verdades, dores e alegrias, não nos cai bem. É parte da nossa natureza, sermos autênticos e mostrar ao mundo. Nos mostrar. Mostrar o que pensamos, o que queremos e esperamos. Mostrar nossas dores reais e alegrias verdadeiras.
Sabemos que o alcance é pequeno. Mas é o que podemos fazer, e fazemos acreditando que assim contribuímos para tornar o nosso mundo um lugar melhor. Melhor do que encontramos. Enfim, o mundo com o qual sonhamos, e onde queremos que nossos filhos envelheçam.
Sei que as vezes nossas vozes soam “tão baixinho”. Por isso devemos gritar mais e mais. Precisamos gritar em cores mais fortes. Gritar em negrito e fonte 20. Lançar nossos gritos em hipertextos ou formato ‘A-zero’.
Essa não é nossa arma. É sim, a ferramenta. Vamos usá-la o tempo todo. Se mudar o mundo é possível, essa tarefa cabe a nós, que temos sonhos, que confiamos nas pessoas no mundo e em nós mesmos.
Sim, talentosa Deh, precisamos escrever mais, cantar mais. Mas precisamos nos encontrar mais vezes. Conversar mais vezes. Tomar outros vinhos com defumados (saudades...).
Isso também é importante. Pois é assim que nos alimentamos. Nos aquecemos e reabastecemos nossas mentes inquietas.
Papos como esse nosso. Como os que também andam escassos com a AmigaLidi, é que não nos deixa esquecer quem realmente somos.
E por que não juntar nossas conversas, seu rock nossos textos e a filosofia daquele meu amigo no mesmo lugar em alguns momentos? Sim, acabo de pensar em algo nada original, posto que o Bolshoi já realiza mensalmente seu “Café filosófico”. Mas o que acha de emprestar a idéia deles, mais ao nosso jeito, com nossa cara, e organizar algo como “Rock filosófico”. Topa?
Da séria "delírios no Bar Rio" - Nova semântica
Inventamos tanta coisa,
modernizamos toda a vida.
Tantos gadgets nos ligando,
à essa enorme ilusão.
Renomeamos coisas velhas.
Cada um em seu mundinho,
chamando de conectividade
o que chamávamos de solidão
Da série "delírios n Bar Rio" - Céu de brigadeiro
O desejo então retorna,
De voar como condor,
Colibri, gaivota, urubu.
De voar como qualquer pássaro.
De livre voar.
E quando me vem a saudade
Das águas límpidas do frmoso,
Da alvorada dos negros pássaros,
Dos dias diferentes, enfim,
Não controlo o coração
E, não sendo como Ícaro
Vôo na imaginação.
Da série "delírios no Bar Rio"
O mundo não vai acabar.
O Sol não vai explodir.
Mas, se o que tenho é o agora,
E ser feliz é a missão,
Então essa é minha escolha,
É isso que vou me permitir...
22 de mar. de 2012
Segredo
Por favor, não se aborreçam comigo.
Não é por não querer. Na verdade eu não quero mesmo. Mas esse não e o motivo. Os motivos são outros, e são assim mesmo, plurais.
Então posso dizer que não posso. É isso, isso mesmo! Eu não posso. Só por isso, e também por não querer, é que não vou contar o que todos estão querendo saber.
Ora, eu tive sorte, ou grande azar, de estar lá quando tudo aconteceu.
Não participei de nada.
Bem, eu estava lá, então pode não caber a afirmação de que não tenha participado. Mas não fui um participante ativo. Apenas assisti.
E confesso que em alguns momentos eu preferi desviar os olhos, tentar ouvir outros sons. Abstrair, se é que me entende.
Você sabe, algumas coisas são constrangedoras, não é verdade? Já outras são envolventes demais, que se você não for firme, se envolve fácil.
E, como já disse, eu não participei ativamente de tudo. Ou seja, não fiz nada. Apenas estava lá. Pensando bem, e depois que tudo virou pretérito, acho mesmo que eu era o cara mais certo para estar naquele lugar errado. Ainda mais naquela hora tão certamente errada também.
Vocês não fazem idéia de como essas lembranças me corroem.
Não consigo me livrar delas um segundo sequer.
E sempre esse sentimento paradoxal que me acomete. Um misto de alegria e tristeza. Por ter estado lá, e por não ter participado (ativamente, que fique bem claro). Claro, não necessariamente, e mesmo nem sempre, nessa ordem.
Eu nunca teria revelado que estive lá.
Na verdade eu nunca disse, até esse momento. Quem deixou escapar algo sobre minha presença, foi ...
Não. Não posso dizer quem foi. Se você não sabe. Não saberá. E acredite, é melhor pra você, que seja assim.
Veja, por exemplo, o que minha vida se tornou. Um inferno. Agora não tenho mais sossego. Depois que ficaram sabendo que eu posso saber de como tudo aconteceu, todo mundo vem me perguntar. É toda sorte de fofoqueiro, jornalista (desculpa a redundância), as pessoas da rádio local (estou redundando a redundância, vou tentar evitar), o delegado, o dono do açougue, a moça da venda, o bêbado chato, a professora do bairro, até o vigário veio me perguntar sobre os detalhes, durante a confissão. Isso sem falar na polícia, que ameaçou me prender, se eu não contasse.
Como já disse, não posso.
Só digo que não vou dizer nada.
Espero sim, que não se aborreçam comigo. E entendam, eu não posso. Não posso e não quero contar nada sobre esse fato que vocês acreditam que eu sei. Se eu estive lá, então eu sei de fato. Mas não quero compartilhar com ninguém.
Vou guardar apenas comigo. Vou conviver com essas lembranças pelo resto da vida. Me lembrando de tudo que eu vi e ouvi.
Tendo pesadelos terríveis e sonhos agradáveis.
Seja como for, não contarei a ninguém. E, já que sou o único vivo, do grupo presente, acho que vocês nunca saberão.
“Não faça aos outros o que não queres que seja feito a ti mesmo”, esse é o ensinamento, certo? Pois então.
E depois, todos sabem que somos egoístas. Algumas coisas que temos não queremos dividir com ninguém.
Pelo sim, pelo não. Por bem ou por mal, e para evitar problemas para todos nós, estou indo embora dessa cidade. Assim nunca não poderão ficar me importunando com suas curiosidades.
Adeus...
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