Cresci na Baixadinha, um bairro pobre lá da cidade de
Mineiros, extremo sudoeste do estado de Goiás. Família igualmente pobre. Não
havia no bairro rede de esgoto. Não tínhamos em casa banheiro com vaso
sanitário instalado. O espaço reservado às necessidades fisiológicas eram as
antigas latrinas construídas sobre um fosso, para onde as fezes e urina eram
enviadas diretamente (modelo ainda muito presente em propriedades rurais e em
bairros mais distantes de muitas cidades do Brasil). Não havia
impermeabilização e, nem sempre o local escolhido era o menos inadequado. Como
não havia nenhum sistema ativo de ciclagem, a não ser o processo de infiltração
no solo (contaminando solo e água) em algum momento o sistema era desativado.
Meu pai, com a "ciênça" adquirida com seus antepassados, sempre
cuidava de encerrar o processo cobrindo o buraco com terra e plantando mudas de
bananeira, quase sempre nanica. Assisti esse procedimento ser realizado várias
vezes. E sempre, ao assistir uma bananeira ser plantada onde tinha uma privada,
ou seja, literalmente "num poço de merda", eu sempre ficava com certo
nojo. Mas isso passava logo, nem durava o tempo do primeiro cacho brotar.
Sempre comemos banana nanica plantada em privada. E meu pai, sem noções
cientificas nenhuma já conhecia alguns princípios naturais de reaproveitamento
e ciclagem de nutrientes. Provavelmente a medida final, tomada por meu pai,
tenha neutralizado ao menos uma pequena parte do potencial de contaminação de
todas fossas negras usadas diretamente como latrina por nossa família.
Segundo a Agência Nacional das Águas, a média regional
de atendimento da população, na região hidrográfica do Tocantins-Araguaia, por
rede de esgoto, é de apenas 7,8% e, do percentual de esgoto coletado, apenas
2,4% é tratado. E, segundo o censo demográfico 2010, realizado pelo IBGE e
publicada esse ano, pouco mais da metade dos domicílios brasileiros possui
coleta de esgoto sanitário. E a coleta é apenas parte da solução. Ou, no caso,
a falta de coleta é apenas parte do problema. A solução completa inclui a
destinação final dos resíduos.
Como resultado, o mais comum são as propriedades rurais
e residências situadas nas periferias das cidades, fazerem uso de fossas
convencionais ou as conhecidas “fossas de buraco” ou sumidouros para destinação
do esgoto sanitário gerado por seus habitantes, assim como despejar na rede de
drenagem os demais efluentes em especial da propriedade rural constituindo-se
assim em importante vetor de inúmeras doenças para o ser humano, animais
domésticos e toda a fauna associada. As medidas tradicionais comprometem,
portanto, não somente o ambiente de moradia, como também os recursos hídricos
superficiais e subterrâneos e o solo.
Segundo o próprio IBGE, e outros analistas, seriam
necessários investimentos na ordem de R$ 190 milhões até 2020 para alcançar a
solução definitiva.
Levando-se em conta estudos que apontam que "cada
pessoa utiliza o vaso sanitário entre 3 e 5 vezes/dia, consumindo aproximadamente 75 (setenta e cinco) litros
de água por dia na descarga sanitária, isto em regiões com boa oferta de água
como é o caso do vale do rio Araguaia" (Matos, J. C. C. T., 2007), assim,
uma família de 4 pessoas, gera diariamente um volume médio de 300 (trezentos) litros/dia de água
contaminada que, se descartada indevidamente na natureza representa importante
veiculo de contaminação de todo ambiente.
Conforme informações da empresa estatal Saneamento de
Goiás - SANEAGO, responsável por oferecer água tratada e promover a coleta e o
tratamento do esgoto em Goiânia e região metropolitana, a capital conta com 76%
do seu esgoto coletado e destinado à estação de tratamento. No entanto alguns
bairros da cidade ainda não contam com esse serviço, à exemplo os bairros da
região Noroeste da cidade, como Bairro da Vitória e Jardim Curitiba, 1, 2 e 3,
que são bairros altamente adensados, com sua paisagem estrutural bem definida e
onde se encontram, em quase todas as calçadas, fossas sépticas, para onde são
carreados todo esgoto produzido.
Em Goiânia, como na maioria das grandes cidades, a
solução enxergada para o problema do esgoto doméstico urbano, pelos
governantes, foca-se apenas nas Estações de Tratamento de Esgoto - ETE, que
centralizam o esgoto de toda cidade em um único ponto de tratamento, o que
potencializa todo problema que ocorrer na operação da estação. Este processo
necessita contar, ainda, com um complexo sistema de coleta, que leve o esgoto
de todas as residência da cidade para a ETE que fica muito distante de alguns
bairros, e encarece muito todo processo, e apresenta questões de engenharia, às
vezes de difícil solução, como o fato de nem sempre poder contar com a força da
gravidade para conduzir o esgoto até a estação (a força da gravidade, que
facilita o afastamento, conduz sempre para os vales, onde se localizam os
leitos hídricos, de onde o esgoto deve, ou deveria, permanecer distante).
Uma ideia do custo da coleta do esgoto em Goiânia,
obtemos ao tomarmos como exemplo uma conta de água que, em um determinado mês
apresentou valor de tarifa total igual a R$ 78,40. Desse total, a tarifa de
tratamento de esgoto residencial foi de R$ 7,12 e a tarifa de coleta e
afastamento do esgoto residencial R$ 26,04, mostrando que, o que mais encarece,
para o Estado e para a população, é a coleta e não o tratamento do esgoto.
É
necessário buscar infraestrutura de tratamento de efluentes que possam
representar alternativas ao sistema tradicional adotado como solução na maioria
dos casos (fossas negras na zona rural e estações de tratamento de esgoto
centralizador na zona urbana), que sejam de fácil construção e manutenção,
aliadas a preocupação com qualidade ambiental, a qualidade de vida do ser
humano e o uso racional dos recursos naturais, baseados nos princípios e conceitos da sustentabilidade. Também é
preciso considerar à participação das pessoas nos processos de tomada de decisão
de modo que tenham acesso às informações e técnicas não convencionais para
escolher as alternativas de tratamento de efluentes sanitários mais adequados
ao contexto local, social e econômico (...). (MARTINETTI, H., 2009).
Nesse cenário, os Tanques de Evapotranspiração (TEvap),
conhecidos no Brasil desde a última década do século 20, poderia surgir como
uma alternativa capaz de dar uma destinação adequada, ou menos inadequada, ao
esgoto sanitário das áreas onde não exista coleta, contribuindo para reduzir,
ou evitar a contaminação do solo e dos recursos hídricos, reduzindo assim o
risco de propagação de doenças provocadas pela ausência de saneamento básico,
tanto em humanos, quanto na fauna domestica ou silvestre.
O sistema constitui-se de um tanque subterrâneo, com
interior totalmente impermeabilizado, para onde será carreado o esgoto. Também
deve ser colocado alguma material que facilite a dispersão das águas negras em
todo interior. Uma boa saída é utilizar pneus inservíveis, dando assim uma
destinação mais nobre, também, a eles. Por fim acrescenta-se a velha combinação
de entulhos com blocos grandes (pedras, pedaços de tijolos, etc, pedras menores
e terra, do fundo para a superfície respectivamente). O sistema se completa com
a plantação de espécies de raízes rasas e folhas largas como bananeiras e
taiobas, eficientes em realizar a ciclagem dos nutrientes e a
evapotranspiração, filtrando a água contaminada e jogando-a, limpa, na atmosfera, melhorando o microclima local e encerrando o
ciclo da água no próprio sistema. As plantas mineralizam
as águas sanitárias, eliminando
continuamente os elementos patogênicos. E, claro, devemos levar em conta que a
introdução de espécies utilizadas na alimentação, como bananas e
taiobas, pode representar pequena melhoria na qualidade de vida das famílias envolvidas,
além da possibilidade de poder contribuir para melhorar a estética da paisagem
local, se for tratado jardim.
No entanto o modelo encontra grande resistência, em
parte por sua simplicidade, em parte por ser uma solução que pode ser
implementada sem demandar grandes licitações e, sobretudo, devido ao medo que
algumas pessoas tem com relação à saturação do sistema, e à qualidade dos
alimentos cultivados na superfície dos tanques.
Quanto ao risco de saturação precoce, há várias
recomendações de dimensionamento que garante vida útil bastante longa, e mesmo
após a desativação, o sistema terá convertido quase todo esgoto recebido em
nutrientes e vapor de água, restando apenas o resultado dos últimos dias de
utilização, que permanecerá restrito ao tanque, e em pouco tempo também será
reaproveitado. Ou seja, o próprio sistema neutraliza os riscos de contaminação,
em caso de saturação ou encerramento das atividades.
Já quanto ao medo de as espécies plantadas se
contaminarem, ao absorver os nutrientes presentes nos esgotos, estudos como os
conduzidos pela doutora Paula Loureiro Paulo, da UFMS, que testou o sistema
aqui proposto, verificando inclusive a qualidade da água, do lodo e do solo no
interior do tanque, comparando com parâmetros largamente aceitos, e com
amostras obtidas do lado de fora dos tanques, e que mostraram que, em se
aplicando as medidas de higienização recomendadas à todas as hortaliças, não há
nenhum risco em se utilizar a produção dos TEvaps para alimentação.
Se perdermos nosso preconceito, pararmos de querer
obter lucros financeiros e eleitorais em toda obra executada, e olhar mais de
perto para os problemas da parcela mais vulnerável da população, iremos
encontrar soluções simples e eficazes. Como esta, onde o aprimoramento de uma
ação que assisti ser utilizada muitas vezes na Baixadinha da minha infância,
pode ajudar a evitar muitos problemas, ou mesmo salvar algumas vidas.
Se você é cristão, como eu, desejo-te que a
paz e a luz do Cristo ilumine cada vez mais sua vida, e que esse natal renove
sua fé.
Mas, se você não é cristão, se professa outra
fé, ou fé nenhuma, mesmo assim te desejo um feliz Natal.
E, não estou sendo irônico, sarcástico nem
fazendo piadinha de mau gosto. Estou sendo sincero. Pode acreditar.
E, mais um texto desejando "feliz natal
a todos" não é lá a coisa mais original. E eu nem quero fazer um agora.
Não que eu não escreva coisas nem tão originais assim. Ou mesmo coisas bem
piegas. Eu escrevo sim. Basta dar uma olhada em meu blog e comprovará o que
estou dizendo aqui.
Não, não estou aqui apenas para desejar que
todos tenham um feliz natal. O que me motiva a escrever essas linhas é a
quantidade de manifestações de pessoas que dizem "não aguentar mais essa
chatice de época natalina". Que "não suporta mais a falsidade que
toma conta das pessoas nesses dias". Que "odeia todas essas luzes e
essas músicas chatas".
Bem meus amigos, eu respeito suas opiniões.
Mas me permito emitir a minha e, com ela, convidá-los a uma reflexão.
Tudo bem que Jesus não nasceu no dia 25 de
dezembro. Tudo bem que você acredite que ele sequer tenha nascido. Tudo bem
também que essa festa tem muito mais de tradição pagã do que sacra em sua
origem. E, claro, ninguém mais merece ouvir a Simone entoando o chatíssimo
refrão "então é natal...".
Mas, apesar de tudo isso, uma coisa é
inegável, seja você cristão, umbandista, budista, islamita, teórico dos antigos
astronautas, ateu ou agnóstico, ninguém pode negar que os dias próximos ao dia
dedicado à comemorar o aniversário dO Filho de Maria nos traz uma aura de forte
energia positiva, e repleta de uma sensação de paz e de bondade que nos impele
a ter boas ações, mesmo que essas não façam parte do nosso cotidiano. Essa
energia, que escapa da simples crença religiosa e transcende ao inconsciente
coletivo, ascende em nós sentimentos e reações muitas vezes esquecidos, ou
sufocados nos outros meses do ano. Assim, podemos sentir presente na atmosfera mais
generosidade, gentileza, fraternidade e caridade. Em muitos casos, até mais
desejo de união, de construir um mundo melhor.
Sentimos isso, meus caros, e não tem nada de
falso, demagogo ou hipócrita nisso. É apenas a manifestação, nas pessoas, da
energia que nesse período envolve o planeta.
E eu não sou bispo, reverendo, pastor,
apostolo, papai noel, arqueólogo, nem seguidor do Erich
Anton Peter ou coroinha (isso eu fui. Àquilo, ah, sei lá...). Mesmo assim, não
sendo nada disso, nem escritor maldito (seja lá o que isso queira dizer),
consigo perceber que, também nesses momentos, podemos ter grande facilidade
para desperdiçar possibilidades. Sendo assim, meus amigos, creia você ou não,
em qualquer divindade, viva esse período de forma a aproveitar o máximo
possível a energia que aí está.
Se algum estranho te desejar
"feliz natal" sorrindo, sorria de volta. Isso certamente tem muito
mais poder para tornar o mundo um lugar melhor, do que virar o rosto. Ou, pior
ainda, falar alguma grosseria. Afinal, retribuir um sorriso com outro, só pode
ter como consequência a alegria.
E, se aquele seu colega de
trabalho, que passa o ano todo sendo deselegante, ou grosso, de repente te diz
algo gentil, não encare como falsidade. Saiba que ele está envolto naquela aura
da qual já falei. E, apenas aceite, de forma também gentil. Se te der um
abraço, aproveite e divida o prazer que um abraço sempre é. E, quem sabe, esse
colega perceba quão melhor é agir assim e, com o tempo, a gentileza e generosidade
torne-se cada vez mais frequente.
Não precisa mercantilizar o
momento, eu sei. Mas se for impossível, então que a entrega de um presente
sirva para estreitar laços, para provocar sorrisos, para fortalecer as
amizades, ou criá-las, onde não existir.
Não recrimine quem faz
enormes cestas repletas de guloseimas para distribuir para moradores de rua, e
outras famílias carentes. Novamente pode não se tratar de hipocrisia, o fato de
a maioria desses anjos bons de ocasião não agirem assim o ano todo. Mas lembre-se
da energia, e de como ela pode nos impactar. Ao invés de criticar, valorize.
Contribua, mesmo que já o faça em seu cotidiano, incentive a caridade de todos
nessa época, pode ser uma boa forma de fortalecer a solidariedade em todas as
pessoas.
Quanto à Simone com seu
"então bom natal...", e todas as demais musiquinhas chatas, ah, isso
é muito fácil de abstrair e relevar. É pequeno demais pra tornar a vida, ou
mesmo algumas horas, de qualquer pessoa ruim.
Enfim, meus amigos, que (levado
por essa energia) ouso a chamá-los agora de irmãos, Não desperdice a grande
força geradora do bem que a energia que envolve as festividades do Natal, com
reclamações ou maldições. Não precisa gostar do Natal, nem de Jesus. Mas
acredito que todos nós queiramos um mundo melhor, não é mesmo. E, aproveitar
bem a aura que nos envolve agora é, eu acredito, uma ótima maneira de começar,
ou continuar, a fomentar a construção de um mundo melhor.
Basta se animar, ser gentil
e generoso com todos. E aceitar que todos também podem ser, e estão sendo, de
verdade.
Sendo assim, reforço:
Feliz Natal a todos.
Que possamos nos tornar tão
generosos o ano todo, quanto somos em dezembro. E mais tolerantes em dezembro
do que somos nos outros onze meses.