16 de mar. de 2009

Sobre outra grave doença que acomete a todos nós...

Logo que cheguei em Goiânia, vindo do interior (Mineiros), eu escrevi sobre meu estranhamento com a fato de as pessoas aqui falarem tanto sozinhas (ou consigo mesmas).
Quase três anos e ainda não me acostumei totalmente em ver tantos “diálogos em via única”. No entanto esse tempo na capital, a observação das pessoas que meus olhos podem alcançar e, sobretudo, a observação de mim mesmo, está me mostrando alguns dos motivos que levam a esse comportamento. E, infelizmente meu diagnóstico me entristece.
É que estou percebendo que estamos doentes. Todos nós estamos. E as causas e sintomas são tão agudos, que não conseguimos perceber nosso estado. Não percebemos e, principalmente, não nos permitimos admitir que haja algo anormal conosco.
Ontem, sábado (14/03/2009), uma música foi para mim um desses tapas que por vezes precisamos levar pra ser trazido à realidade. Gostaria de compartilhar (na verdade sugerir que interrompam agora a leitura para ouvir a interpretação de “Um homem chamado Alfredo”. No link: http://www.youtube.com/watch?v=N8eOUR9UiuM. É uma canção simples, mas bastante  interessante).
“A vida, meus amigos”. “É a correria do dia-a-dia”. O fato de “estar trabalhando muito”. “Essa falta de tempo”. Esses são apenas alguns dos motivos que usamos para justificar nosso comportamento. Nos enganando, e não admitindo o grande mal que já se instalou em nós.
Todas nossas desculpas nos parecem cada vez mais justas e verdadeiras. Precisamos mesmo, nos dedicar cada vez mais ao trabalho. É realmente necessário nos dedicar cada vez mais tempo na busca por riquezas (afinal daí virá o conforto que precisamos garantir à nós e à nossa família) e, consequentemente, nos sobra menos tempo para nos dedicar efetivamente às pessoas. Inclusive à essa família, para a qual nos esforçamos tanto para dar o sempre o melhor (por certo que já assumimos que o melhor não está em nós. Não somos nós).
O fato, meus caros, é que perdemos completamente a capacidade de nos dedicar às outras pessoas. Não sabemos mais escutar. Não temos tempo para nos sentar com alguém, sem pressa e com carinho, apenas para ouvir. E, mesmo quem se propõe e quando nos dispomos a isso, cometemos o grande erro de ouvir sempre do nosso ponto de vista. Levando em conta apenas “nossas próprias verdades”. Nunca as “verdades” e pontos de vistas de quem está falando. Mais difícil que ouvir, é exercitar a empatia. Considerar as dificuldades, dores e angústias enfrentados pelo outro. Mesmo que este esteja nos dizendo de forma literal. E o pior, sempre sugerimos as nossas soluções, mostrando acreditar que todas as pessoas vivam e pensam como nós, possuam os mesmos recursos e limitações que nós, sejam cercados pelas mesmas pessoas, e tenha a mesma família. Ou ainda, nem nos damos ao trabalho de certificar se quem nos fala deseja de nós alguma solução. Se olharmos de perto vamos perceber que não esperam, nem desejam isso. Todos (inclusive eu e você) às vezes queremos/precisamos apenas de carinho e atenção de alguém que se disponha a nos ouvir um pouco.
Não temos tempo para escutar ninguém, por isso é mais fácil tentar apontar logo uma solução. Sempre a que achamos a mais racional. Assim poderemos voltar rápido à nossa rotina “corrida”.
E o fato de não podermos nos dedicar a ouvir, nos fez deixar de perceber a necessidade que temos de ser escutados. Seria incoerente, não é mesmo. Se não posso oferecer, não posso esperar que me ofereçam. E assim estamos nos fechando, cada vez mais, em mundos pessoais tão isolados, de onde não conseguimos mais sair. E às vezes não conseguimos, sequer, entrar.
Substituímos nossas necessidades reais por outras invenções que assumiram status de “primeira necessidade”.
Já não sabemos o que nos dá prazer de verdade. Vivemos a vida nos confundindo. E, acreditando ser melhor para nossos filhos, os “abandonamos” para que possamos dar a eles sempre o melhor. Sobretudo aquilo que nós mesmos não tivemos.
Para conseguir um pouco de atenção, definimos que precisamos obter sucesso em tudo, e a qualquer preço. E criamos uma população inteira cheia de indivíduos que só enxergam sentido para suas vidas nas conquistas profissionais, e riqueza material. E se perderem seu dinheiro, sua posição ou seu trabalho, perde a razão de viver. Somos assim, quase todos, uma grande geração de “Alfredos”, cheios de motivos para desistir de viver. Inda mais em tempos de grave crise, como a que estamos atravessando.
Quantos “Alfredos” eu conheço? Quantos você conhece? Quantos vivem em seu prédio? Não será um, esse seu colega de trabalho? Quantos em sua família? Ou ainda, não será você mesmo, um? E eu (...)?
E, o pior é que está cada vez mais cheia a lista de “louros” e “gatos de estimação”. Agora tem sido indefesas crianças (como aquela menina de 5 anos, voando com seu pai), estudantes e professores, em escolas americanas ou alemãs.
Me pergunto se o trágico sequestro do ônibus 174 teria acontecido se o jovem Sandro do Nascimento tivesse podido fazer terapia. Ou melhor, se tivesse ele tido alguns bons amigos, com quem pudesse conversar sobre o grande trauma decorrente do fato de estar entre os garotos assassinados na Candelária em 1993, de onde só escapou por pura sorte.
Não pretendo aqui propor a nulidade de culpa de quem quer que tenha cometido algum crime, contra si próprio e/ou contra outros. Acho, sim, que deveríamos relativizar um pouco todos os acontecimentos. Tentando ver cada situação de forma mais completa, e identificar, quem sabe, a parcela de culpa que cada um de nós em cada uma das tragédias que os jornais não param de nos mostrar.
Mantemos em nós, e apenas em nós, a pressão de tudo que vivemos. Vamos guardando tudo. E, por não termos sido criados para viver como ilhas, o risco é cada vez mais de uma grande explosão. Ou como estamos assistindo a cada dia, um número cada vez maior de pequenas implosões.
Me lembro de alguns momentos em que minha sanidade foi mantida (ou recuperada) em longos momentos na companhia de alguns bons amigos/irmãos. Às vezes regados à cerveja, às vezes compartilhando poesias, às vezes rindo de nada, em outras chorando por tudo. Mas sempre cada um falando de si mesmo. Felicidades, frustrações, dores, conquistas, sonhos e desejos.
Por isso me tornei um grande apreciador dos abraços. E tento ter sempre tempo para um “dedo de prosa”.
Ta bom, eu sei que lá no interior era bem mais fácil (outra grande mentira usada por nós, para justificar nosso isolamento). E não quero que deixemos de cumprir nossos compromissos de gente grande. O que sugiro (pra mim mesmo), é que possamos nos demorar um pouco mais com as pessoas. Que saibamos, ao menos, nome dos vizinhos (particularmente sinto saudades das xícaras de açúcar, emprestadas em outros tempos). Que reaprendamos a escutar, a entender e respeitar as particularidades, verdades e pontos de vistas de cada um, para que, ao escutar escutemos com base não nas minhas, mas nas idiossincrasias de quem fala. Pois, é com base nelas que ele está falando. E, que nos permitindo escutar, reaprendamos, também, a falar. Para que possamos nos tornar mais livres, seguros, confiantes. Felizes, enfim.
Mas há cura. E acredito que seja bastante simples. Como simples deveria (e pode) ser a vida... 

25 de fev. de 2009

18 de fev. de 2009

3 de fev. de 2009

Cruzando com a felicidade

Eram 11:43 horas. Ele tomou mais um gole de cerveja. Encheu o copo novamente, olhou pro relógio, e voltou a olhar pro vazio.
Alexandre Gadelha de Castro estava ali desde as seis, hora em que desembarcou, caminhou apenas alguns metros, adentrando ainda mais na rodoviária. Arrastando a única mala que trazia. Parou no primeiro restaurantezinho que avistou, talvez o único do lugar, e não arredou mais o pé.
Não conhecia nada, nem ninguém, em Uberlândia, nunca estivera ali antes e não queria estar agora.
Enquanto bebia a terceira cerveja, em todo esse tempo, via, mesmo sem querer, os ônibus chegarem e partirem, e ficava tentando achar razão para estar ali.
Saíra de Goiânia, queria ir pra Recife. Pensava querer. Queria preencher o enorme vazio que era sua vida.
Com 31 anos, já havia iniciado quatro cursos universitários, não concluindo nenhum. Pertencia a uma família bem sucedida, tinha uma namorada que dizia amá-lo muito. Mesmo assim não era feliz. Sempre lhe faltou algo que ele não conseguia definir, nem entender.
Saíra pensando em não voltar mais, em achar o que lhe faltava. Em preencher seu vazio e ser feliz. Fora até Brasília, e ao partir de lá, sem saber por que, preferiu Uberlândia à capital pernambucana.
Tomou mais um gole, enquanto chegava um ônibus vindo do Rio de Janeiro.
Pensou em embarcar neste, que já voltaria. Não teve forças mais uma vez. Ficou plantado lá. Só olhando o desembarque. Saltou do ônibus uma moça morena, alta, cabelos longos e olhar opaco, como o dele. Por um momento ele a observou atentamente. Desviou a atenção e pediu outra garrafa, e ao procurá-la de novo, não a avistou mais. O garçom lhe serviu, ele apanhou o copo, levantou a cabeça e viu, na mesa ao lado, a moça do Rio. Ela tomava uma soda que o garçom acabara de trazer.
Eles se olharam e seus músculos ficaram enrijecidos. Não conseguiam girar os olhos. Ficaram assim alguns segundos eternos. Ele se levantou e foi até ela, arrastando sua única mala. Pediu permissão para se sentar ali, e obteve. Apresentaram-se. O nome dela era Daniele Ortiz Maia, tinha 28 anos, formada em medicina. Era pediatra, concluiu, também, o curso de homeopatia. Era rica. Parecia ter tudo, mas, como ele, sentia falta de algo muito mais importante que tudo que ela tinha. Pretendia ir para o interior da Amazônia trabalhar de forma beneficente, para os índios e as famílias carentes da floresta. Era super revoltada com a violência em seu estado.
Eram 12:20 horas, quando eles pediram uma refeição. Enquanto esperavam e durante o almoço, foram conversando, se conhecendo e se identificando.
Continuaram naquela mesa, conversando incessantemente até as 20 horas, e perceberam que suas vidas eram muito parecidas. Que ambos estavam ali sem saber por que e, que seus olhos estavam, agora, com um brilho alegre.
Bem lá no fundo cada um sentia que o vácuo que existia parecia ter sido preenchido.
Eles então atravessaram a avenida, adentraram em um hotel bem próximo. Requisitaram um só apartamento. Se instalaram, se banharam e, depois, se tocaram.
O primeiro toque muito tímido, o primeiro beijo meio trêmulo, mas, com certeza, o beijo mais gostoso de cada um até então. Eles se soltaram e se entregaram, sem ter medo. Sentiram-se no paraíso quando seus corpos se uniram. Atingiram o pico do prazer várias vezes. Pensavam estar fazendo sexo. Faziam, na verdade, amor. Dormiram, cansados dos movimentos e fortalecidos pelo sentimento. Sonharam ter encontrado seus tesouros, suas lendas pessoais, o que lhes faltavam.
Acordaram cedo, tomaram banho, tomaram café e foram pra rodoviária, carregando suas malas. Estavam felizes como nunca estiveram antes. Queriam seguir viagem.
Às sete horas eles embarcaram. Ele pra Recife, ela pra Manaus. Poderiam ter ficado. Com o que tinham dava pra iniciar uma vida a dois. Mas queriam partir. Acordaram loucos por isso. Não souberam ouvir seus corações, que queriam seguir juntos nos trilhos da felicidade. Juntos para sempre. Não era necessário embarcar. Era necessário apenas viver, se permitir e ser feliz.
Às 07:42 horas, já longe da rodoviária, e mais longe ainda entre si, eles perceberam o que fizeram. A chance que perderam e que dificilmente voltariam a ter. Então choraram profundamente.
Ele ruidosamente, ela mais sutil. Mas ambos com uma dor imensa. Sentiram que o vazio agora era bem maior que antes. Pois agora conheciam o que lhes cabiam.
No livro de registro do hotel seus nomes ficarão juntos pra sempre. Assim como a inscrição “Dani e Alex” dentro de um coração, gravados na mala de cada um.
Eles trabalharão, estudarão, mudarão de cidade, farão sexo com outros parceiros e, até sorrirão. Mas nunca esquecerão aquela quarta-feira. Único dia em que foram realmente felizes.


Da série "Pequenos prazeres ... Mas não haikais"

Bálsamo


Sol em tarde de verão.

À sombra, você.

Ver-te, refrigera minh'alma.

Um Parque em mim (ao PNE)

Fria e tranquila a noite caí.


No Céu, a lua se enche de brilho


Pra iluminar minha inquieta paz


 


Não há mais a fogueira,


Não há mais a velha viola,


Não há mais as piadas


            (‘marelas’ de tão usadas),


O rapel também já não há.


 


Esse tempo já passou,


O corpo não mais acompanha a mente livre,


Agora estou em outra estação.


Me contento em pisar,


Com os pés descalço,


Novamente esse chão.


 


Antigos companheiros


Seguiram outras direções.


Encontros, agora, apenas em rápidas paradas,


            Em algumas poucas estações


Um abraço e já uma nova despedida.


 


Mas há, ainda, o vento livre,


O pó da estrada


Os troncos retorcidos,


As águas claras do Formoso Rio


E o agradável cheiro do sertão.


 


Já não é tão abundante,


Mas o Cerrado inda persiste.


E há de nunca se extinguir.


 


Há uma lágrima,


Mas não há tristeza,


Há só a saudade,


Uma gostosa sensação.


E uma prece involuntária:


 


“Que eu consiga deixar o mundo melhor


Para os que virão.


Que os erros acumulados me mostrem os caminhos.


Que, assim como essa lua,


 minha vida tenha algum brilho


E que nenhum prazer tenha sido em vão”.



Deriva - Poema que empresta o título ao livro e a esse blog

A bordo da jangada que corre rápido
Pelo leito, de anos,
Que nos leva embora, pro fim... (ou pro recomeço?)
                            É nessa incerteza que nos guia.
Com olhar fixo pra’lém do ocaso da existência,
Ora tormenta, ora calmaria.

Mesmo sem entender, por inteiro, as emoções
Que em mim mesmo mora,
                      (faço um esforço e)
Quase entendo porque a própria vida
Às vezes ri, às vezes chora.

E como um sábio do que se passou,
E abobalhado com o que há de vir,
Sinto a frieza e o calor de CRONOS,
Que se torna mais forte a cada hora,
E, como antes, hoje nos devora...