19 de jan. de 2009

Sobre o amor que acabou e a dor do rompimento... - 18/01/2009 -

Ah meus amigos,
Vocês não podem imaginar a dor que vai em meu coração (e o medo que assola minha alma) agora.
Vejam o que acabo de ouvir, sem ter forças para contestar ou, ao menos me defender. Posto que reconheço que ela está coberta de razão...

“Meu querido,
É muito difícil para mim, mas preciso dizer e, mais do que falar, dessa vez preciso ser forte para fazer o que precisa ser feito.
Não da mais pra nós, meu amor. Não dá mais pra mim. Nosso relacionamento precisa acabar (na verdade acho que já acabou). E o culpado foi você.
Sabe, eu reconheço que foi ótimo quando você chegou em minha história. Você me trouxe muita coisa boa. Durante um tempo fomos sim, muito felizes juntos.
Mas isso foi so no início. Depois de um tempo você mudou muito seu jeito de ser. Transformou-se totalmente. Ficou agressivo, egoísta e, principalmente, ganancioso demais.
Meu querido, não sabe como tenho sofrido todo esse tempo. Você não me ama mais (eu acredito que tenha me amado). Não me trata mais de forma carinhosa. Não me da mais nenhum prazer (me procura apenas quando precisa satisfazer alguma necessidade sua). Nem falar comigo você tem falado. E eu que gosto tanto de ouvir você, e de ser ouvida por você. Mas o que é pior é que nem respeito por mim você tem mais.
Como você pode ter coragem de querer que eu me submeta a ter o corpo tão intensamente, e tão inescrupulosamente explorado assim? E tudo para que você acumule mais dinheiro. Eu que sou sua companheira. Não dá mais. Eu não agüento mais. Tenho vergonha de ter permitido que as coisas tenham chegado a esse ponto.
E não venha me dizer que não sabia que eu estava sofrendo. Você sabia sim.
Não meu amor. Também não é verdade que eu nunca tenha falado o que achava da nossa relação, e que por isso você achava que eu estava feliz. Eu disse sim. Não foram poucas as vezes que eu demonstrei minha insatisfação com as coisas que você está fazendo comigo. Conosco.
Desde quando eu percebi sua mudança que eu tenho tentado fazer você perceber seus erros. No início eu fui sim mais discreta. Sussurrei, falei baixo. Mantive o tom carinhoso. Com o tempo eu fui sendo mais objetiva. Nos últimos dias eu tenho gritado a plenos pulmões. E tenho gritado quase o tempo todo. Mas você se tornou tão egocêntrico que não consegue ouvir nada que não seja sua própria voz. E isso quando lhe é muito conveniente ouvir. Senão nem isso.
Por muito tempo eu acreditei que um dia você voltaria a ser aquele ser doce e adorável que um dia foi. Que recuperaríamos a harmonia e voltaríamos a viver bem. Mas a ganância fez de você todo mal que ela pode fazer. Até violente você se tornou.
Como pode achar que eu esteja feliz sendo agredida diariamente? Tendo meu corpo dilacerado como você está fazendo? Não dá! É impossível ser feliz assim. E chega uma hora que toda criatura se cansa de ser maltratada e reage. Eu já não agüento mais. Por isso comecei a reagir. Estou me descobrindo violenta. E não quero isso pra mim.
E é dolorosamente engraçado perceber que você não entende a fúria com a qual tenho agido às vezes, como reação à suas agressões. Mas como caprichos. Não esperava tanta insensibilidade sua. Não depois de tudo que já vivemos juntos. E tudo isso por dinheiro.
Essa é outra coisa que não consigo entender. Por mais que eu me esforce (e olha que em nome de nossa história eu tenho tentado), não consigo entender por que querer acumular tanto.
Será que não percebe que essa sua riqueza não vai te fazer feliz. Não vê que, não so essa riqueza, mas também a forma que você age para consegui-la me faz tão mal? Não percebe ou não se importa mesmo comigo?
E piora mais quando lembro que eu te ofereço tudo riqueza que você realmente precisa. Quando você chegou, eu fiquei tão feliz que achei uma boa idéia colocar tudo que eu possuía em suas mãos. Confiei em você. Seria mais que suficiente para que os netos dos netos de nossos netos vivessem bem. Más você já acabou com quase tudo. E acredita que está construindo riqueza. Me dói tanto perceber meu grande erro, e sua grande tolice.
E olhe para mim. De tanto ser maltratada perdi quase toda beleza que eu possuía. Meu corpo não é mais o mesmo. Não tenho mais a vitalidade de antes. Não tenho mais as curvas que já tive, nem o perfume que tinha, eu tenho mais.
Eu não deixei de te amar. E por isso estou sofrendo muito. E vou sofrer muito mais ainda. Por muito tempo vou lembrar de como fomos felizes no início. E de como poderíamos ter sido felizes. Mas ao agüento mais. Chega.
Se continuarmos juntos minhas reações serão cada vez mais violentas. Pois não suporto mais tanta dor, e vou revidar cada vez mais (é minha defesa, já que avisos você não escuta). E pelo que vejo, você não está disposto a mudar. Por isso precisamos nos separar. Antes que nos matemos. Pra ser sincera eu acho que tenho mais forças para matar você, que você a mim. Mas não vou quero isso. Não vou ser como você.
Por isso quero que você vá embora. Que se mude o quanto antes.
Não vou ser tão cruel como você tem sido. Vou te dar mais alguns dias, para que encontre um novo lar. Mas, mesmo nesse período, se voltar a me agredir, eu vou revidar. E serei cada vez mais dura.
E, se por acaso me provar que mudou verdadeiramente, posso pensar em reconsiderar, pois te amo tanto, que você nem de longe imagina o quanto. Mas não tente me enganar. Por favor.
Sinto muito meu amor, mas foi você que provocou tudo isso. Foi você que destruiu o que havíamos pensado em construir juntos. Foi você que destruiu o nós, que você e eu um dia fomos. E se não mudar, vai acabar destruindo a você mesmo, também”.

             --------- Continua ----------


Apresentação

Amig@s,

Conforme prometido aqui estou, inaugurando meu “blog”.
Aqui eu colocarei os textos que estão, ou que poderiam entrar na parte “Idiossincrasia” do livro “Deriva”. Colocarei também alguns poemas, e alguns pequenos contos e crônicas.
Não me sinto obrigado e atualizar periodicamente esse blog. Mas o farei sempre que “parir” alguma coisa que valha a pena.
Não se animem. Possivelmente vocês continuem recebendo meus e-mails. É que gosto de lamber selos.
Então é provável que eu os avise sempre que tiver algo novo aqui.
Pretendo, como todo mundo que lança uma publicação, que aqui estejam textos atualizados. Mas para que o visitante já encontre mais de duas linhas para ler, nos primeiros dias de vida desse blog, coloquei (postei, como se diz no ‘meio’) alguns textos antigos, que julguei que ainda merecem ser lidos. É meu julgamento, se não concordar, desculpe. E para que você possa contextualizar, no tempo, esses textos antigos, eu coloquei, nos títulos as datas que os mesmos foram escritos.
Bem, chega de blá blá blá, e vamos so que interessa, não é mesmo!
Boa leitura.
Obrigado pela visita
Esteja em Paz


Sobre um espetáculo que quero assistir várias outras vezes - 17/11/2008-

Ah! Que sensação Divina.

No finalzinho de tarde de hoje eu estava debaixo de um pé de Mangaba. fui na esperança de encontrar alguns frutos caído (mangabas não devem ser colhidas no pé. Devem, sim, serem recolhidas no chão, após caírem espontaneamente). É que a dois dias tive sorte e encontrei quatro. Uma delícia. Hoje não tinha nenhum. Valeu à pena mesmo assim.

Bem, estou no Parque Nacional das Emas, e hoje é segunda-feira (17 de novembro de 2008). Vim pedalando até aqui. Estou a cerca de 3 quilômetros da sede, próximo ao mirante que existe aqui. Bem próximo ao Rio formoso. E a sensação a que me referi no início é provocada por um conjunto de estímulos sensoriais incrivelmente agradáveis.

Não sei se vocês já tiveram a sorte de “assistir” ao pôr-do-Sol no Cerrado. Se já, deve saber do que eu estou falando. Se não, está aí uma das coisas que todos deveriam fazer antes de morrer.

Alguns podem dizer que “Pôr-do-sol é tudo igual”. Não, não é mesmo. No Cerrado é diferente. E, especialmente aqui, no Parque Nacional das Emas é ainda mais especial. É que aqui tem a “mística do PNE”. Não se trata de magia, como se diz, na forma convencional. Nem de preceitos religiosos. É uma atmosfera mágica, como mágica é a imaginação das crianças. Puro como perfume da flor de cazujinho e doce como todos os frutos que se encontra aqui.

E esse espetáculo. Digno de todos os prêmios. É impossível descrever em palavras humanas, mas vou tentar transmitir o que meu vocabulário permitir.

Pra pode aproveitar ao máximo você precisa ir para um local onde não possua interferências de sons, odores e luzes artificiais. E que seja o mais plano possível. Se estiver a mais de 800 metros do nível do mar, melhor ainda (aqui é o melhor de todos os lugares. Eu estava hoje no melhor camarote).

Se prepare quando o Sol já estiver tocando a linha do horizonte. E fique atento. Nesse momento o Céu começará um espetáculo de cores capaz de deixar todos os grandes gênios da pintura de boca aberta. As nuances se alternam entre vários tons de azul, roxos, amarelos e vermelhos, com mudanças lentas, mas bastante perceptível. Ao mesmo tempo você se sentirá como se estivesse dentro de uma grande “concha acústica”, onde a mais bela sinfonia é executada. É que (tenho a sensação que) todos os seres do Cerrado escolhem esse momento para entoarem seus sons. De onde estava eu recebia sons que vinham de todos os lugares. São cigarras de várias tonalidades, grilos, pássaros, e sabe-se que outros seres habitam aqui. Todos cantando, como que aplaudindo o espetáculo de cores, que se apresenta no ocaso.

Um desavisado, mais sensível, pode até pensar é o próprio Céu que canta nesse momento. Quem sabe não seja mesmo.

De qualquer forma a combinação de cores e sons que se assiste daqui, de debaixo daquele pé de mangaba, está muito além de todos os espetáculos multimídia que da Broadway ou de qualquer palco. E nesse momento começa a mudança de temperatura. O calor que imperou durante o dia lentamente dá lugar a um friozinho característico. E nesse exato momento é possível sentir um ventinho bom acariciando toda pele desnuda e afagando os meus cabelos curtos. Esse vento trás junto os diversos aromas que o Cerrado possui.

---- Pausa para esclarecer que o Cerrado é, acredito, o mais belo de todos os biomas que existe. No entanto como tudo que é verdadeiramente belo, é grandemente humilde, exigindo de nós uma observação tão humilde e delicada quanto ele, para que possamos encontrar, e apreciar, toda sua rica beleza. A que ter paciência e cuidado. É necessário buscar sem pretensão. Olhar por debaixo dos troncos retorcidos e das folhas grossas. Buscar em todas as suas fisionomias, nas asas de cada pássaro ou nas guelras de cada peixe endêmico Experimentar os sabores doces e azedos dos diversos frutos que ele nos serve. So assim você pode encontrar toda riqueza do Cerrado. Fim da pausa ----

Eu, ali, de pé ao pé da mangabeira, mero telespectador de tudo isso. Tendo quase a idéia de poder tocar nas cores e nos sons. Tentando identificar a origem do solo grave e do conjunto de agudos mais ritmados e afinados que qualquer orquestra de metais. Sentindo a saliva escorrendo das glândulas, provocadas pelos diversos cheiros doces. E à minha frente, o Sol finalizando seu maravilhoso espetáculo.

Eu feliz. Sem conseguir articular muitos pensamentos. Apenas me percebendo grandiosamente feliz. Pelo simples fato de estar aqui. De poder sentir tudo isso. Por ter a sorte de conhecer esse lugar e por ter a conseguido até aqui a grandeza de perceber meu tamanho frente à grandeza real de tudo que assistia ali.

É curiosa a vida no Cerrado. À mim parece que é no crepúsculo que acontece o clímax. Depois do espetáculo, a noite e o dia permanecem juntos por um certo tempo. Cria-se então uma penumbra sem a presença do Sol e sem a presença das estrelas (o bom de não ter realizado o sonho de criança me tornando astrofísico é poder ver os astros com a visão leiga da criança que fui e do romântico que sou). Se o Cerrado dorme, deve ser exatamente enquanto o dia namora a noite. Pois o grande concerto é seguido de um silêncio tão denso quanto os sons que ouvia a pouco. Espertos esses habitantes do Cerrado, pois nesse momento, que dura cerca de uma hora (não mais que duas), não há luz para incomodar os olhos nem escuridão o bastante para assustar os mais inseguros. É, de fato, o melhor ambiente para se dormir. (os humanos com freqüência de enganam nessas horas, acreditando que seus olhos são capazes de enxergarem plenamente nessas condições. Não podemos. Tampouco os faróis dos carros são de fato úteis enquanto o Cerrado dorme).

Tenho a sensação que mesmo o Rio Formoso corre mais sonolento.

Aos poucos a noite preta vai assumindo o comando de tudo. E, também aos poucos, os ruídos vão voltando. Acredito que as espécies, para as quais bastam aquele pequeno intervalo de descanso, retomam a rotina de suas vidas. Outras, que passaram o dia adormecidas ou escondidas, saem para o agito que se segue. O rio volta a correr com a força de sempre. Em pouco tempo será possível perceber o Cerrado se movimentando todo novamente.

Para minha sorte foi noite de lua cheia. Esse é outro espetáculo particularmente belo por aqui. O brilho da lua me mostra que ela tem luz própria, como toda estrela que se esforça para enfeitar a noite que se observa no Cerrado (novamente me alegro de não ter me tornado um cientista dos astros).

Quis assistir um pouco mais. Fiquei sozinho, sentindo o vento frio, sentado na grama, olhando pra lua, sem deixar de ver as luzes verdes dos vaga-lumes, nem de ouvir, com certo temor, os ruídos de outros animais que circulavam ao redor. O mais marcante foram os estalos fortes do “bater-mandíbulas” dos queixadas.

É engraçado como vamos ficando medrosos enquanto crescemos. Sobretudo se moramos em alguma cidade grande. Hoje a noite me assusta muito mais que antes. E os sons me amedrontam. Coisa típica de quem teme os perigos oferecidos por outros humanos, nas noites urbanas.

Resisti ao ímpeto de procurar abrigo logo nos primeiros sons. E resisti, também, à vontade de usar um agasalho que impedisse o frio de tocar meu corpo. Era isso também que queria. Sentir novamente como é a noite aqui. Afinal, quantas noites já passei “ao relento”? Essa era minha preferência em todos os acampamentos. Dormir olhando as estrelas. Ouvindo os ruídos noturnos.

Perto da sede do Parque, outro espetáculo se apresenta nessa época. Em alguns campos de cupinzeiros tem-se a impressão de se estar em uma grande cidade de edifícios, com suas luzes ligadas. Efeito provocado pela luzes das larvas dos vaga-lumes que se esforçam para atrair mariposas que serão seus alimentos. Também vale a pena ficar horas olhando.

É, tudo isso deixa claro quem eu sou.

Definitivamente esse é meu lugar. Não importa por que caminhos andei, e ainda andarei. É aqui, exatamente nessa porção de terra, que eu me sinto mais gente. Mais próximo do Criador e de toda criação.

Sou um bicho do Cerrado. Tenho anseios de voar alto, correr o mundo todo. Conhecer outros bichos e outras plantas. Mas sei que isso servirá apenas pra comprovar cada vez mais, que é ao Cerrado que eu pertenço.

Minha casa vai ser sempre aqui, pois é aqui onde me sinto verdadeiramente à vontade.

Acho que entendo também por que nunca deu certo minha vontade de me tornar guia, e ganhar a vida mostrando meu Cerrado para visitantes. É que, me parece, para fazer esse trabalho bem feito, é necessário um certo distanciamento. E eu me sinto exatamente em casa. Pode ser uma particularidade minha, mas em minha casa eu espero que os visitantes fiquem à vontade. Eu mostro onde está cada coisa básica, como banheiro, cerveja, cozinha e cama. Não me atento em mostrar como são belos meus quadros, ou a poesia rabiscada, esquecida sobre a mesa, debaixo de um livro aberto. Esses detalhes espero que meus amigos (se estão em minha casa são meus amigos) descubram sozinhos. Para que sintam vontade de voltar espontaneamente. Não raro solicito que uma ou outra visita me sirva com alguma coisa em minha própria casa, como forma de mostrar-lhes que a casa e tão minha quanto deles.

Vejo que sempre fazia igual quando estava com algum “turista” aqui no Cerrado. Não deu certo.

Mesmo assim digo a todos, se vocês não conhecem as belezas discretas do Cerrado, precisam conhecer. Se conhecem o Cerrado, mas não o Parque Nacional das Emas, não foi apresentado à melhor porção desse bioma. Precisam vir até aqui, ao menos uma vez. E vindo, me convidem para acompanhá-los, Vai ser um grande prazer compartilhar essa experiência, so não esperem que eu seja um bom guia. Não serei. Mas um bom anfitrião eu prometo tentar ser.

Sobre alguns bons mergulhos e a cachoeira que não conheci - 29/09/2008 -

Amig@s

Em Goiás, no extremo sudoeste do Estado, no município de Mineiros. À esquerda de quem se dirige à essa cidade, vindo de Goiânia, ou Jataí. Logo após o Ribeirão do Ferro, há uma pequena placa indicativa, que aponta a entrada do local denominado de Pilões.
Hoje, ao se falar "Pilões", possivelmente, os mineirenses estejam se referindo à toda uma localidade rural, de grande extensão, onde se produz, sobretudo leite bovino.
Mas, na verdade, o termo “Pilões”, tem origem em umas peças artesanais que durante muito tempo atraiu grande quantidade de pessoas até à margem de um pequeno córrego, que também é conhecido por esse nome. Trata-se de três pilões que funcionavam como chafariz e bebedouro. Na verdade o que atraia as pessoas não era exatamente os pilões, mas as propriedades das águas, e da lama, desse pequeno leito. Rica em enxofre (e sei lá em que outros elementos químicos), a água e a lama, dita sulfurosas, dos pilões possui uma áurea mística no inconsciente coletivo da região. Ao menos possuía. Tanto que durante muito tempo, acho que entre os anos 40 e 60, funcionou, no lugar, uma movimentada pensão. Que estava sempre cheia de pessoas que viam buscar as curas milagrosas daquelas águas e daquelas lamas. Sim, daquelas lamas, assim no plural mesmo. É que existe lá o "barro branco" e o "barro preto", como dizem os antigos frequentadores. Hoje em dia so resta a "tapera" abandonada da velha pensão. Mas os antigos ainda sabem que as águas dos Pilões são milagrosas. Se tem dúvida, pergunte à dona Felisbina ou, à dona Pequena, pra ver. Quem também sabe das propriedades daquele córrego são os estudiosos de agora. Químicos afirmam, sem pestanejar, que as águas e as lamas dos Pilões são mais ricos que o famoso barro de Araxá. Eu não tenho dúvida. E, juntamente com meu amigo "Marelo" sabemos que o município de Mineiros, e toda região vem desperdiçando dinheiro, ao desprezar aquele grande potencial turístico. Mas um dia alguém irá acordar (eu espero).
Mas, afinal por que estou falando dos Pilões agora? É que ontem (domingo, 28/09) à tarde uma notícia me trouxe à mente a idéia de que talvez eu jamais conheça um outro elemento de beleza, e encantamento, que aquele pequeno córrego possui. Trata-se de uma bela cachoeira, onde se forma um ótimo poço. Fica um pouco abaixo do ponto mais conhecido, e onde tem a bomba d'água, no meio de uma densa mata ciliar (espero que ainda exista a mata...).
É, meus amigos, eu sei que ela existe. Por várias vezes estive lá, bem perto. Mas agora acho que posso não mais conhecê-la. E na verdade, nesse exato momento acho que não quero.
É que ontem fiquei sabendo que meu amigo que sempre comentava sobre essa cachoeira, e com quem eu havia combinado de "um dia ir", não está mais entre nós (e a notícia so chegou até mim alguns dias após). O tempo dele na Terra terminou na semana passada. O sofrimento provocado por uma longa enfermidade deu lugar à liberdade do espírito, e ele se foi.
Não me entristeço pela morte. Afinal sei que se trata de uma mudança de estágio. Uma transição que apenas nos leva à um novo recomeço, e que não acaba com a vida, posto que essa é eterna. (E devo essa noção, e essa crença, exatamente a esse meu amigo).
Entristeço-me, sim, pela distancia que sempre acabamos tomando dos velhos amigos. E pelas possibilidades que perdemos na vida, por não saber administrar bem nosso tempo.
A culpa de por eu não conhecer a cachoeira dos Pilões é apenas minha, pois ele, com muito mais responsabilidades que eu, várias vezes, me provocou para que fossemos (...).
Ah meu amigo, me desculpa.
Esse meu amigo foi uma daquelas pessoas que, mesmo (talvez) sem pretensão, fizeram grande diferença (e causaram grande impacto) em minha vida.
Ele me abriu a janela para a crença que hoje professo (aqui também ando relapso, assim como fui com a cachoeira), me aproximando um pouco mais do Grande Mestre Jesus.
Ele ajudou a reforçar a minha motivação para continuar estudando. E foi dele uma atitude decisiva para que eu entrasse na faculdade (Obrigado meu amigo. Paguei aquela inscrição, mas nunca poderei pagar o que você fez por mim).
Logo no início de nossa amizade, me lembro dele me incentivando a escrever, e me dando algumas dicas importantíssimas. Em uma delas ele me disse (me lembro como de fosse agora) – "Nazareno, para correr menos risco de errar, e para que seu texto não se perca, faça frases curtas e, sempre que possível, parágrafos curtos também". Me lembro sempre mas, com minha quase inexistente capacidade de síntese, e sendo tão prolixo como sou, estou sempre me penitenciando por conta dessas palavras. Na época as dicas visavam melhorar meus textos no livro de registros da Mocidade Espírita, la de Mineiros. Mas ele sabia que isso me acompanharia pela vida toda. Hoje eu também sei.
Ele me influenciou também, de forma indireta. É que, buscando merecer sua amizade, e de toda a família, eu quis ser uma pessoa melhor. Outra vez ele me deu crédito e, ainda hoje continuo querendo ser uma pessoa melhor, para que eu realmente mereça o que já desfrutei, e desfruto.
Não, eu não o acompanhei até a Cachoeira dos Pilões. Mas nuca vou me esquecer o acampamento na Pedra Aparada, ou as visitas ao Sucuri, tão-pouco aquela agradável visita à "Gruta do 71". Sempre acompanhados de outros amigos e, por vezes, de alguma de suas filha ou seu caçula, ainda bem pequeno. E sempre em seu velho e bom fusca branco.
Certamente a falta de sua presença física será sentida enquanto os que te conheceram viverem aqui. Também seus ensinamentos jamais serão esquecidos. Mas que nada disso seja motivo para a dor ou sofrimento. Ao contrário, que a memória de sua fé e sua generosidade nos torne cada vez mais fortes, melhores e mais felizes.
Mesmo não tendo acompanhado sua luta contra a enfermidade que o abateu, sei que ele expiava suas poucas dívidas (certamente de existências anteriores), e agora deve estar reforçando a equipe de Deus, na luta pela construção de um universo de Paz.
A esse meu amigo, eu agradeço por tudo que fizemos, e por me mostrar que tenho várias cachoeiras a conhecer, e nas quais posso banhar, e que a opção de conhecê-las depende exclusivamente de minha vontade pessoal, e do meu próprio esforço.
Obrigado Querido amigo.
Sempre, ao fim fim de um grande espetáculo, somos impulsionados à aplaudir. Por isso, mesmo com um pequeno atraso, vai aqui meu grande aplauso.
Aos familiares meu terno abraço, e esse meu silêncio denso.
Meu Carinho especial à 'dona' Olinda, esposa de (e pessoa tão iluminada quanto) Aloízio de Assis Paniago. Meu amigo "'seu' Aluízio", de quem estou falando.
Estejam, todos, em Paz.

 PS. Agora tenho, novamente, a companhia de outro grande amigo, a quem sempre cito em minhas boas lembranças. Afinal foi o irmão Aires que, em um canarval que mudaria para sempre minha vida, me apresentou "seu Aluízio", toda sua família, além de outros amigos. E todos juntos me ensinaram que "sem caridade não há salvação" e que nenhum mau é eterno e todo mal é passageiro. O que reforçou (e mantêm forte), em mim, a fé na humanidade.

Sobre minhas saudades - 16/05/2008 -

Pois é, hoje acordei assim, meio saudosista.
Isso mesmo, hoje estou com saudades. Mais do que na maioria dos dias (já que em todos os dias sinto alguma...).
Mas hoje estou com aquela saudade forte de coisas, pessoas e situações.
Acordei me lembrando das manhãs da minha infância pobre, lá na Baixadinha, onde por muito tempo eu acordei ao belo som de milhares de pássaros-pretos que cantavam, revoavam e pousavam na mangueira da chácara ao lado da minha casa. E estou me lembrando, também com aquele sentimento que é um misto de vontade de reviver e orgulho por ter vivido, das tarde de domingo em minha casa (essa lá na Cohacol), quando a casa se enchia de amigos pra uma bela seção de cinema em minha sala apertada, e às vezes fazíamos aquele delicioso brigadeiro na maior panela que tinha, e todos comíamos ali mesmo, sem frescura (quase posso sentir o sabor do chocolate e o gostoso abraço da pequena Mel Cristine, sempre observada de perto por sua mãe, minha fada preferida). Espontâneas
É, como pode ver minha saudade não se comporta muito bem com esse negócio de cronologia. Ela apenas vem, e se faz sentir.
Por isso em dias como hoje me sinto acompanhado por quase todas as pessoas com quem passei momentos significativos, desde a infância até poucas semanas.
Sabe, eu gosto disso. Gosto muito de sentir saudades. Gosto de me lembrar das coisas que vivi e das pessoas com quem vivi. Me estranha o fato de algumas pessoas dizerem que não gostam. E me estranha também o fato de não falamos disso. Por que não temos o hábito de compartilhar o passado com quem está ao nosso lado hoje? Se quem está conosco está por quem nós somos, então essas pessoas deveriam gostar de conhecer a história, com todos os personagens, nos fizeram ser quem somos hoje. Mas estranhamente parece ser proibida essa partilha.
Mas o que sinto, e o que vivi, são bem mais forte que as pobres convenções sociais. Por isso vou continuar me lembrando, sentindo saudades, me emocionando novamente com o que já me emocionou antes, chorando novamente algumas lágrimas já derramadas antes.
Lágrimas como àquelas que chorei quando terminei a 5ª série, lá no Polivalente, por saber que aquela colega linda iria se mudar de estado, e que eu nunca mais a tornaria a ver (como de fato aconteceu, e eu nunca mais a vi). Passado tanto tempo, ainda não entendi o motivo de eu não ter tido coragem de entregar o “belíssimo” cartão que preparei pra ela no Natal daquele ano. Também não entendo o motivo de eu guardar esse cartão até pouco tempo.
Sim, gostaria de saber por onde anda aquela garotinha. Como estará vivendo? Terá se tornado uma mulher bela e feliz? Espero que sim.
Sentir saudades do Polivalente me faz reviver outras coisas muito boas, como uma certa efervescência política que atravessamos, o que me fez despertar pra o mundo dos ativistas e engajados. E teve ainda aquela mostra cultural interna, organizada por nós alunos, e que mostrou o quanto éramos criativos e capazes. E a carta escrita por mim e entregue ao governador da época? Furando o bloqueio policial e tudo...
É, foi muito bom aquilo tudo.
Aprendi muita coisa com uma professora que nós, meninos, achávamos a mais bonita (e gostosa) de todo colégio. A Thais era professora de matemática. A maioria de nós a adorava, mas odiava suas aulas. Afinal ela não deixava barato. Era dessas professoras que não facilitam mesmo para os alunos, e te obrigam a estudar mais que o desejado. Foi muito útil pra mim, suas aulas de matemática. Mas a Thais me mostrou mais que números. Me mostrou letras. Foi com ela a primeira pessoa a se interessar quando eu escrevia algum texto. Se interessava e elogiava. Além disso me mostrou autores que não conhecia até então, inclusive os mistérios do “Triângulo das Bermudas” e o estranho (quase psicodélico) “Erich Von Daniken”. Sim, tenho muitas saudades dela, que se tornou vendedora de flores. Acho que isso é mais leve e, certamente, mais próximo da forma poética que ela vivia, do que os números e gráficos das velhas aulas de matemática.
E a saudade das pescarias diárias no Rio Verde. Quando chovia a noite, era certo que bem cedinho sairíamos, eu e Divino, com certeza, mas quem se animasse. Era uma das melhores coisas. Ir à pé ou de bicicletas, sem hora pra voltar. Sem preocupações outras, que não se, a quantidade de minhocas “catadas” seria suficiente, se aquele boi estaria la, no pasto, pra dificultar nossa passagem, ou outras preocupações dessa envergadura. Tenho saudades desse tempo. Por onde anda meu querido amigo ‘Divino’?
Mas sinto, também, saudades de coisas que nem chegaram a acontecer, como o meu melhor beijo, naquele cenário romântico maravilhoso, ao pé daquele “morro”. Nós dois cavalgando lentamente, em um mesmo cavalo. O cabelo dela agitado pelo vento tocando meu rosto em uma das melhores sensações táteis que já vivi. As palavras suaves, os delicados toques de pele, tímidos e respeitosos. O medo daquela coisa nova que conhecia, ao mesmo tempo em que ia conhecendo aquela garota linda. Caminhamos naquela paisagem verde, respirando ao puro, desejos inocentes, vontades desconcertantes e medo ousado. Tínhamos tudo para tornar aquele momento ainda mais bonito. Ela esperava, eu queria. Mas, adolescente, eu não sabia bem o que devia fazer. Não tive coragem. O medo e a timidez foram mais fortes que nossos desejos. Não a beijei. E por mais que tenha beijado outras bocas, e mesmo tendo beijado, depois, aquela própria, eu tenho certeza, aquele teria sido meu melhor beijo. E acredito que, mesmo não tendo acontecido, ele jamais será superado. Aquele vento ainda refresca meu rosto, e ainda vejo aquele rosto lindo bem próximo ao meu. E, como pescador, choro meu melhor beijo, que escapou de mim. Saudades daquele tempo, das coisas que fazíamos. Das amizades que fiz em decorrência desse quase beijo, e que hoje estão distantes. Como estarão todos? Por que não combinamos um dia desses pra uma daqueles passeios de bicicleta, ou pra um recital de piano, em alguma sala apertada, mas aconchegante como abraço? Eu adoraria.
Adoraria reviver as tarde de domingo na quadra de vôlei.
Por falar em tardes, Ah que saudades das tardes de sábado passadas no “Bar do Tião” embaladas ao som do violão do Olegário e por nossas vozes. Regadas por algumas cervejas e às vezes alimentadas por salsichas e aqueles velhos “quitutes de boi”. Era ótimo. Cantávamos de tudo. Ríamos de tudo. Fazíamos planos, tínhamos idéias que certamente, pra nós na época, poderiam resolver boa parte dos problemas do mundo. O Bar do Tião era o escolhido por ser ali pertinho da casa do meu amigo Aires. Onde eu me sentia plenamente em casa.
Ah meu amigo, que saudades de você.
Fizemos boas coisas juntos, não foi? Me lembro da noite passada à beira do rio, em uma rede e sem nenhuma cobertura. Era melhor assim, eu gosto (ao menos gostava) de dormir olhando as estrelas. Não fosse o fato de ter chovido a noite toda, teria sido uma ótima noite.
Essa era uma coisa que fazia muito. Dormir olhando as estrelas. Primeiro nos acampamentos escoteiros, com Dom Eric como mentor. Taí um cara a quem devo muito do que sou hoje. Eric James, um verdadeiro guia para toda região onde cresci.
Depois vieram os acampamentos mais radicais, com rapel, caminhadas intermináveis e muito riso. Muita aprendizagem e muitas amizades surgiram aí. De todos me lembro com saudades.
Ah o TEBE! Quem se lembra do TEBE? Eu não me esqueço daquela turma animada e divertida. Tenho sempre muitas saudades de todos, e das outras pessoas que embarcavam em nossas aventuras. Ah como era bom acordar à margem de um rio qualquer e encontrar as queridas Marlucy, ou a Mairele totalmente descabeladas. Compartilhar a animação da loiraça Rubiara ou as maluquices do Lúcio e o bom humor constante do Airton e até o desconhecimento da Dona Eva. É turma impagável essa. Hoje, dos membros do TEBE, o único solteiro está em Portugal, com quem ainda falo vez em quando. Mas por onde anda Saulêra (o do nariz)? Marelo e Marcão, ainda e de volta em Mineiros, casados e com filhos. (Será que nossos filhos vão viver tão intensamente quantos nós? Encontrarão eles ambiente pra fazer tudo que fazíamos? Espero que sim). Por onde anda o velho “Bé”? E aquele meu querido amigo a quem devo, literalmente, a vida. Como estará hoje? Sempre me emociono ao lembrar, com saudades, de vê-lo se aproximando em meio às abelhas que me atacavam, sem se acovardar, impedindo que eu fosse massacrado por elas. A você minha eterna gratidão, meu amigo.
E os grupos da igreja e todas aquelas atividades. Nossa quanta coisa pra se fazer naquela época. E era tão bom. Em uma desses retornos um beijo escondido, sob a lona de um caminhão (principal meio de transporte da turma), deu início ao meu mais longo relacionamento até hoje. Já terminou faz muito tempo, mas ainda é o mais longo. Vários momentos bons. Muitas descobertas, algumas meio proibidas. Proporcionamos-nos muitos prazeres, algumas chateações e um monte de aprendizagem. Não sei como está agora, aquela moça, mas tenho saudades e incluo, em minhas preces, pedidos para que esteja bem.
Ah! E aqueles bons momentos com a aquela irmã, não de sangue, animada demais. Estar com ela era diversão garantida. Risos fáceis. Cumplicidade nas piadas e compartilhamento de pensamentos, planos e sonhos. E certa dose de irresponsabilidade saudável. E nós não lavávamos nossas acerolas. De forma alguma. Ta certo que ela recebeu o estranho paulista. Mas eu fui pra Porto Alegre. E daí. Esse aí sim, um dos melhores momentos. E tinha o Rotaract, que era formado por uma turma ótima. Trabalhamos um monte, mas era sempre divertido. Até alguns chiliques eram encarados com humor pela maioria. Não vá pensando que não éramos sérios. Éramos sim, mas bem-humorados, divertidos e criativos. E por um tempo a casa dessa minha irmã se transformou no que chamávamos de “Clube social do Rotaract, onde passávamos nossos momentos de diversão e descontração. Às vezes todos nós de “mãos se dadas” nos sentíamos muito fortes, e nos motivávamos e realizar todos os trabalhos.
Mas minha vida teve alguns momentos dolorosos também. Como aquela minha viagem à Minas, onde fui buscar o que sabia que não encontraria. Esse sim, um doa momentos mais tristes que vivi em toda vida. Quando deu aquele último abraço sabia que era sim o último. Quando olhei aqueles olhos morenos pela última vez, e tentei esboçar aquele sorriso triste, meu coração chorava tão intensamente. As horas que se seguiram, não faziam sentido. Nada parecia mais fazer algum sentido. E eu estava longe. Mesmo assim sinto saudades dessa viagem. De ter perdido o ônibus ao dormir na rodoviária e não ter mais dinheiro. Do frio que passei. Do medo que passei. E sinto saudades sim, daquela bela mineira de sorriso maroto e pele morena. E tem sempre o belo Bolero de Ravel que a mantêm viva em mim. Mas dessa viagem sinto saudades, também, de uma voz que me levava de volta à razão, e me chamava de volta pra casa. É que estando perdido lá, tão longe, tudo que consegui pensar foi em ligar pra uma pessoa. E la estava ela, bem onde deveria, na recepção de um hospital. E mesmo sem entender muito minhas palavras misturadas com soluço, manteve a calma e a serenidade que eu precisava, e me foi como sempre é, amável, compreensiva. Amiga enfim. Que saudades de você querida amiga. E se tem uma coisa da qual não consigo ter saudades, e acho isso bom, é de quando conheci você. Não tenho saudades por não me lembrar de um dia ter sido apresentado a você. Acho, na verdade, que sempre me foi muito íntima. Sempre nos conhecemos. Por isso essa afinidade. Por isso, isso de compreender tão facilmente o que o outros está querendo dizer, ou que não está dizendo. Quantas saudades das inúmeras “Sapatilhas 37” gastas no PAVIP ou aí mesmo, ao lado de sua casa, no Coronel Carrijo.
Ah! Quando estou assim tudo me lembra tudo. E a saudade fica tão forte que é difícil controlar.
E tiveram aquelas várias idas a Campo Grande que, sozinho ou acompanhado sempre era muito bom. E as estradas esburacadas que levam à Alcinópolis, Costa Rica e Coxim. Nossa que saudades desses trechos. E das pessoas, e das emoções, e aprendizados.
E os passeios pela margem dos rios.
E aquela noite inteira dançando ao Som do Gilberto Gil, sentindo aquele abraço gostoso, misto de força e fragilidade. Nunca poderei (nem pretendo) esquecer. Nem da noite, nem da promessa.
E todas as festas em minha casa. Muita gente. Poesia no ar. Música alegre. Bohemias geladas. Amigos felizes. A turma da cozinha. Aquele irmão dormindo na grama, sub a chuva fina. Fogueiras, marshmallow, xadrez, reveillon a três, com o bom e velho espumante.
E o “Maria Betânia”, o “Jesus”. Que figuras. Que saudades de tudo.
O bom e velho Barbosa. O Cão mais feliz e simpático que já conheci. Espero que esteja no “Céu dos cães simpáticos”.
E ainda teve aquela viagem à Piri. Puxa vida, que legal que foi. Nem tudo foi perfeito, é claro. Mas foi ótima. E às vezes ainda ouço aqueles blues gostosos. Saudades das queridas amigas, companheiras dessa viagem. E ainda fui, depois, à Niquelândia. Outra viagem que não tenho como esquecer. Assim como aquela viagem para a festa da Mari. Que festa linda. Que viagem maravilhosa. Que delícia aquele beijo na poltrona da frente daquele ônibus.
Saudades daquela moça das fotos, a quem pretendi colocar mais música na vida. Veio rápido e passou. Quem sabe se eu falasse espanhol...
E a família de amigos lá da Araguainha. Que disposição. Que apetite. Que belas companhias. Visitei o “domo” com meu amigo Aires. E nunca mais voltei. Mas ainda estou vivo. E a Araguainha ainda está lá. Assim como está lá também o “domo”. So não está mais aqui o meu amigo/irmão. Se voltar, terei que voltar sem sua companhia.
Mas aqui está você, meu amigo, nas fotos dos momentos “da caserna”. Sei que você não apreciou muito esse tempo. Mas pra mim foi muito divertido, edificante e, no campo da construções de amizades e de momentos dos quais sentir saudades, foi muito rico. Fico agora imaginando por onde andará meu amigo “Amp’Tônio”, ou o “Flamente” ou mesmo o Du Côco. E meu querido amigo Alair, agora combatente da selva, que a muito não vejo mais. Saudades do bom e velho André Luis Lelis (certamente ele não tem mais a fita cassete que dei pra ele com uma bela seleção de boas músicas). E tantos outros colegas de farda que ficaram lá, no 41º BIMTz, em março de 1991. Me lembro como hoje o quanto chorei na despedida.
É, um dia de saudades é mais que suficiente pra reviver quase todos os momentos significativos que já vivi ao longo desses 37 anos. Mas não dá pra transcrevê-los todos. Afinal tanto tempo assim foi vivido, exatamente, em tanto tempo assim. E mesmo não cabendo nessas páginas a maioria dos momentos que não esqueço nunca, e que hoje estão mais presentes que nunca. E sempre bom saber que tenho pessoas de quem sentir saudades, e querer saber por onde anda. Como Meu compadre Muriel, de quem estou sumido. Celimar, ótimo amigo dos tempos da faculdade, assim como Marcão, Sussu, Rogério, Zé Carlos. Sem me esquecer das meninas, é claro. Como estará a “Feia” (soube que casou-se recentemente), o “Guri” (que também está casado). E as boas amigas vizinhas. As “Marias” Eleuza, Flaw, Mel, Selminha, Rose. Como, e onde, estão? Jaci, Fredstone, Silfarney, Zé Martins (agora músico e empresário). E a voz do Serjão, que ambientes estará encantando hoje. Certamente não está mais sendo ouvida por nossa amiga Zanja.
É, definitivamente não cabem todas as pessoas e todos os momentos em apenas um dia de saudades. Por isso continuarei sentido saudades. E não pretendo esquecer de meus momentos. Mas pra mim não basta me lembrar do que vivi. Acho vital sentir saudades. Pois se o que sou hoje é a soma de tudo que passei, se eu esquecer o que passei, posso acabar esquecendo quem sou. Mas, se eu apenas lembrar posso perder boa parte dos ensinamentos. Afinal apenas teoria não ensina muito. É preciso prática. E eu acho que lembrança é um bom mecanismo lógico/teórico de rever os ensinamentos. Mas é a saudade que nos faz reviver o que passamos. Que nos lembra do que sentimos quando passamos por alguma situação. Como reagimos quando aprendemos uma nova lição.
Pos isso acho muito saudável sentir saudades. Chorar novamente. Sorrir novamente. Trazer de volta o cheiro, o sabor, o calor, o toque.
E não tenho saudades so das pessoas. Tenho saudades das situações, dos momentos. Mas tenho saudades, sobretudo, de uma pessoa em especial. Do “Naza” que fui em cada uma das minhas etapas. Que não é o mesmo de hoje, posto que hoje sou a soma de todos aquele, com as emoções vividas e os ensinamentos aprendidos em cada ocasião.
Por tudo isso, gosto de olhar fotos antigas, lembrar das antigas namoradas, dos amigos que estão próximos ou distantes. Dos que se foram ou ainda estão conosco.
Espero, de verdade, que minha companheira de agora não se incomode, não tenha ciúmes das pessoas que vivem em mim. Por terem vivido em meu passado. Na verdade espero que ela própria não mate seus amores antigos e deixe, com isso, de sentir saudades. Pois acho que isso é o início da morte.
Não estou dizendo que vivo no passado. Não é isso. Estou aqui, agora. Mas se estou é por aquele que fui um dia e não sou mais. E por todas as bocas que beijei. Mãos que apertei. Abraços que dei e recebi. Lágrimas e gargalhadas que um dia deixei escapar de mim. E isso não quero perder nunca, de vista.
Obrigado a todos que cruzaram meus caminhos. Obrigado a todos que estão em meu caminho agora. Obrigado aos meus amigos de antes e os de agora. Todos são pra sempre. (Enorme saudades Aires, meu querido irmão. Onde quer que esteja Esteja em Paz).
E, como me ensinou Thais, citando Camões: “... A verdadeira afeição na longa ausência se prova...”.

PS. Várias canções embalam meus momentos de sentir saudades. Mas quero hoje compartilhar uma em especial. Essa que mando pra vocês. Sempre que eu ouço, e canto, é como se eu cantasse para Aires Franco. Meu amigo sempre presente.


Sobre a Falsa negação das forças do regime sob o qual vivemos -06/11/2008 -

Olha eu novamente olha eu aqui, sendo impelido a falar de coisas sobre as quais preferiria não abordar. Pelo menos não da forma que me sinto levado a fazer agora.
Mas enfim, não tenho pleno controle sobre esses meus impulsos. E como diria um grande amigo, se alguma idéia me ocupa a mente, eu preciso externá-la, mesmo que seja so pra liberar o espaço de minha mente.
Bem, nos últimos dias um assunto ocupou grande espaço em todos os noticiários nacionais, além do caso Eloá da crise financeira e da eleição nos EUA. Estou me referindo ao de toda discussão acerca da criação de um cadastro para inclusão dos inadimplentes das escolas particulares.
A criação do “Cadastro de Informações dos Estudantes Brasileiros” (Cineb) mereceu tanto espaço na mídia que foi impossível ficar indiferente. E, mesmo me esforçando para encontrar motivos para um posicionamento contrário, sou obrigado a me posicionar favorável à tal medida.
À principio parece estranho que eu diga ser favorável a uma coisa assim. Por isso mesmo quero compartilhar, esperando que minhas colocações sejam provocadoras o suficiente para promover o que vou chamar aqui de “análise friamente contextualizada”. E, esperando encontrar em minhas próprias palavras, ou na dos que se dispor a contrapor (ou corroborar com) tudo que eu disser, sentido para tudo que tenho escutado nos últimos dias.
Primeiramente esclareço que tenho a sensação de ser um grande peixe, estranhamente dentro d’água, pois tenho visto toda sorte de organização da sociedade civil contestarem o tal cadastro. É o PROCON dizendo que a medida é constrangedora e, portanto, ilegal. É o Ministério Público dizendo alguma coisa, são associações de pais e alunos tomando medidas para derrubar por “inconstitucionalidade”. E, como já disse, de forma estranha não consigo ver o grande erro. E o motivo é bem simples. Poderia dizer em uma frase simples. Mas vou fazer algumas comparações para que não fiquem dúvidas (na verdade gostaria de usar parábolas, como Aquele Um outro Nazareno, “O Nazareno”, mas dEle ainda me esforço para entender os ensinamentos, e segui-los).
Vejam vocês, nós vivemos em um mundo capitalista (pior ainda, neo-liberalista). Se alguém ainda não entendeu, o que dá sentido ao capitalismo é o capital, e o seu objetivo é o lucro. Por mais que possam dizer o contrário, tudo que é feito no capitalismo busca o lucro. Claro, há algumas iniciativas que tentam ser mais suaves, discretas e, até, mais “humanizadas”. Mas não se enganem. Todos querem acumular riquezas. Multiplicar seu Capital.
E, infelizmente, incluem-se nessa minha afirmação as instituições privadas de ensino. Eu gostaria que fosse diferente. Ficaria muito feliz se a afirmação de que todos tratassem a educação como “um direito social”, como afirmou Carlos Coscarelli (Procon/SP). Mas isso não é verdade agora, como nunca foi antes e nunca será. Enquanto vivermos em um mundo capitalista. A educação, para os empresários que atuam nessa área, é sim “um bem de serviço mercantil”.
E, se alguém está oferecendo um serviço no mercado, acredito que ele deve sim, ter formas de se proteger contra possíveis prejuízos.
Não, eu não concordo com os abusos que algumas organizações impõem à seus clientes (como a relação abusiva e desonesta imposta pelos bancos, por exemplo). Mas sou, sim, favorável às medidas que visem reduzir os riscos de prejuízos. Afinal se alguém se propõe a abrir uma nova loja, ele tem, como todos os outros donos de lojas, direito aos lucros (motivo de ser do capitalismo). Seja essa loja uma padaria ou uma escola.
Mas é o tal Direito Social, como fica? É aqui que vou fazer as comparações que falei. Antes porem quero citar lembrar que a Constituição Federal (essa que foi promulgada em 1988), em seu Título II (Dos Direitos e Garantias Fundamentais), Capítulo II, se dedica exclusivamente aos Direitos Sociais. E já no primeiro parágrafo desse capitulo, o Artigo 6º traz, na integra, o seguinte texto: “São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”
Vejam vocês que está faz parte dos Direitos Sociais alguns outros, além da educação.
Posto isso, eu indago. Se os capitalistas que atuam no mercado oferecendo serviços incluídos no rol dos Direitos Sociais não podem se cercar de ferramentas que lhes garantam o lucro desejado, então os deveríamos acreditar que os donos de hospitais particulares deveriam fazer todos os procedimentos antes mesmo que fossem efetuados os depósitos solicitados. E não estou falando de procedimentos estéticos ou preventivos, estou me referindo aos procedimentos de urgência e/ou emergência. Mas isso não acontece. Digo isso me lembrando da grande amiga Eleuza. Esse mês ela capotou o carro de seus sonhos (se é pra se acidentar que seja com o carro dos sonhos, não é mesmo? Ainda que o referido carro seja uma velha Rural). Ela sofreu vários ferimentos, inclusive uma pequena fratura em uma vértebra da coluna. Precisou de uma cirurgia para anular os riscos de seqüelas. Foi removida de Mineiros para Goiânia, para que pudesse receber o tratamento necessário (vejam bem, eu disse necessário). No entanto enquanto um depósito de R$ 10.000,00 não foi efetuado, o excelente hospital particular para o qual foi encaminhada, nada fez de concreto por ela. E saúde é um Direito Social, garantido no mesmo artigo da Constituição.
E, o que dizer de uma possível situação de inadimplência na farmácia da esquina (ops! Isso é impossível, afinal farmácias não fazem crediário, certo? Com algumas exceções que ocorrem em algumas pequenas cidades do interior). Mas, se um cheque for devolvido, será que o proprietário não irá buscar o suporte de serviços como SPC e/ou SERASA? Certamente que sim.
E quanto à moradia, alguém já passou pela situação de enfrentar dificuldades financeiras a ponto de atrasar o pagamento do aluguel da casa onde mora? Ou mesmo da hipoteca do apartamento financiado pela Caixa Econômica Federal? Se já passou por isso, sabe o que acontece. Mas se nunca enfrentou tal embaraço nem imagina que um grande número de mutuários tem seus imóveis leiloados a cada ano. E que o inquilino tem um prazo de não mais de 3 meses, e depois é despejado pelo senhorio. Tudo com total cobertura legal. E, registro aqui, com minha total concordância. Afinal estamos em um mundo capitalista.
Me lembro de, há muito tempo atrás, após ter perdido um dos meus primeiros empregos, nos bons tempo de minha adolescência em Mineiros, eu fiquei alguns meses sem pagar a mensalidade do clube recreativo ao qual havia me associado buscando um pouco de lazer. Em um domingo quente eu quis usar as piscinas e o salão de jogos. Não me deixaram entrar. Fui informado, na presença de várias pessoas, que estando em atraso não poderia usufruir de nada daquele clube. Em poucos meses sem pagar, minha ação deixou de existir. Mas espera, Lazer também é um Direito Social, e está lá, no mesmo Artigo 6º.
Por tudo isso eu não entendo capitalistas sendo contrários aos mecanismos criados pelo capitalismo, para proteger o capital e garantir o “sagrado” lucro. E isso sempre acontece quando é conveniente para alguns desses capitalistas. Assim como os banqueiros recorrem aos cofres públicos para resolverem seus problemas. Ou quando os agro-pecuaristas brigam para que os credores perdoem seus débitos oriundos do financiamento da produção. So aí os mecanismos do capitalismo são ditos inconstitucionais, constrangedores ou antidemocráticos.
Nunca vi, no entanto lucros sendo compartilhados por quem quer que seja. Nenhum banco nunca se mobilizou para distribuir parte de seus ganhos com a população. Nem tampouco os produtores de soja, algodão ou cana compartilharam os lucros de uma boa safra.
Somos todos capitalistas na prática, e defensores dos direitos por conveniência.
Eu sou comunista por princípio. Gostaria que todos os direitos e necessidades fossem ‘garantidamente’ satisfeitos e garantidos pelo Estado (ou a instituição que queiram criar para isso) e que meu trabalho (sem exploração desumana) já fosse suficiente para pagar por tudo. Na verdade eu gostaria de nem ter que pegar em dinheiro. Mas que tudo de que eu necessite (incluindo aí o lazer) estivesse disponível para mim sem entraves nem necessidade dos depósitos ditos “caução”. Mas vivo em um mundo Capitalista, como já disse repetidas vezes aqui. E, como nos lembra o dito popular “Em Roma, aja como os romanos”. Então...
E, por mais que tentem nos convencer do contrário, o Capitalismo não é democrático, muito menos solidário. O capitalismo é mercadológico. Quem dita as regras é o mercado, gerido pelo capital. Poderia eu dizer que vivemos em um regime ‘mercadocrático’. Nesse regime tudo é comercializável. Tudo tem um preço e para tudo se pede depósitos e garantias. Portanto é justo que quem não pagar a mensalidade do colégio particular seja incluso, sim, no SPC, SERASA ou no tal “Cadastro de Informações dos Estudantes Brasileiros”. Assim como é justo que um Senador pague a uma universidade privada para a criação de um curso exclusivamente para atende-lo. É o mercado, afinal.
Se não concordamos com isso, deveríamos estar brigando então, era para que o Estado nos garantisse uma educação gratuita e com a qualidade que merecemos (estamos merecendo mesmo?). Deveríamos estar entrando com ação de inconstitucionalidade era contra as prefeituras e os governos estaduais que não conseguem oferecer ensino básico para nossas crianças e adolescentes. E contra a União por não oferecer todas as vagas no ensino superior que precisamos.
Mas essa briga não é travada, pois não se trata de garantir, de fato, os Direitos. Se trata de manter as diferenças sociais. Se trata de garantir para uns poucos as opções e liberdades que um regime democrático deveria garantir para todos. E para a grande maioria, impor os mecanismos de controle e opressão que esse regime ‘mercadocrata’ criou para se desenvolver.
Enfim, para mim ou se aceita a existência de organismos como SPC e Cadastro de Informações dos Estudantes Brasileiros, ou não se concorda com o regime capitalista em que vivemos. Nesse caso temos uma revolução a fazer.

Sejam bem vindos “Camaradas.

Sobre Drummond, Vaga-lumes e Gigantes - 31/01/2008 -

Na terça-feira escrevi esse texto, como sempre faço quando acho que vale a pena, e agora achei muito apropriado enviar pra vocês.
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Ontem, segunda-feira (28/01), fui ao colégio mais próximo de casa, pra providenciar a matricula da Juliana (minha mais nova garota! Calma, ela é minha enteada). Não consegui fazer, efetivamente, sua matricula por falta de alguns documentos que ainda estão no Rio. Terei que voltar depois.
Mas não é o fato de ter conseguido, ou não, garantir uma matricula que quero comentar aqui. Quero falar de algumas conseqüências que essa "ida ao colégio" provocou em mim:
Primeiro foi uma experiência muito, digamos, interessante. Eu indo à escola pra resolver coisas de um "filho". Claro que eu sabia que isso iria acontecer um dia. Mas é experiência é muito melhor que a expectativa. Me senti muito "importante" por fazer isso. Percebi um, pouco mais, que agora sou responsável por mais alguém, além de mim. E isso é bom, sabia? Às vezes da um medo enorme, mas é muito bom.
Segundo, me lembrei do dia que fui, com a dona Felisbina, minha mãe, à Escola Municipal de 1º grau Otalécio Alves Irineu, lá na "baixadinha" (pertinho da casa onde morava), em Mineiros, pra fazer minha primeira matrícula. Eu iria fazer o "prezinho" (e acho que entrei no pré-fraco) (alguém lembra dessas divisões que as crianças faziam no passado, pra se sentirem mais importantes, e pra "zoar" com alguns coleguinhas?). Era minha primeira vez, e era também a primeira vez daquele "grupo", que eu iniciaria suas atividades após a construção, que eu acompanhei de perto (o que tornava aquela escola "minha escola", com toda força que essa afirmação possessiva possa ter) (sobre isso quero falar em outro momento). Eu voltei pra casa radiante, pois tinha comprado passagem pra um mundo novo, desconhecido mas, que eu sabia/acreditava, seria lindo. E foi mesmo.
Em terceiro, e sobre o que mais quero falar aqui, foi o que me aconteceu enquanto voltava pra casa. Durante a caminhada eu comecei a imaginar como seria legal acompanhar as atividades escolares da "Jujuba". Ela vai cursar agora (2008) a segunda série (ou terceiro ano, ou coisa parecida. Essas divisões ainda me deixam confuso). E certamente passaremos vários momentos fazendo "tarefinhas de casa", inventando artes, ensaiando peças, estudando verbos, tabuadas, e todas essas coisas que eu fazia no meu tempo. E também as temidas reuniões de pais com os professores. Esses pensamentos me levaram a outros. Fui levado a me perguntar como eu poderei, efetivamente, contribuir para uma boa formação dessa criança (e de outro filho que eu e Ale pretendemos ter). Aí decidir que preciso provocar, e incentivar, o contato dela com algumas coisas que são boas, e que fazem muita diferença na formação de todas as pessoas. Entre essas "coisas" estão: boa música, bons filmes e, claro, boa leitura. Sendo assim eu resolvi que seria decretada, em casa, a seguinte lei: "Haverá semanalmente, nessa casa, um momento para ouvir músicas de boa qualidade, outro para leitura e outro pra vermos bons filmes. Entendendo como música de boa qualidade vários estilos indo das Clássicas Eruditas à boa música regional de Goiás, passando pelos clássicos da MPB, a tropicália, a bossa-nova, Oswaldo Montenegro, Belchior, Chicos (Buarque e César). E várias outras que quase não se ouve no rádio. O momento de leitura deverá ser compartilhado por todos da família, e deve ser abrangente, incluindo bons romances, clássicos universais, poesias de todos os países (incluindo as feitas em Goiás) e obras contemporâneas, além de jornais e revistas diversas (incluindo prioritariamente as obras do Maurício de Sousa). Da mesma forma, as seções de cinema não se pretenderá, apenas, às produções Hollywoodianas, mas valorizar as criações de outros países, com ênfase para o cinema iraniano, francês, germânico espanhol, italiano e, claro, o brasileiro".
O decreto foi todo elaborado, mentalmente, enquanto caminhava da escola pra casa. E decisão tomada, agora era hora de criar condições para fazer cumprir. Chegando em casa, então, eu resolvi aprontar o ambiente. Comecei a separar alguns CDs que não ouço há algum tempo. Deixei à mostra a pequena coletânea de Tchaikovsky, meu bom CD de Ravel (onde posso ouvir o seu belo "Bolero") e me certifiquei que meus outros CDs, que se enquadra no escopo definido, estivessem nos "cases" (que eu prefiro chamar de porta CDs). Feito isso, fui tentar encontrar alguma obra literária, em meu minúsculo acervo, que pudesse ser oferecido à Jujuba. Sem muito esforço percebi que o melhor e mais indicado, talvez o único que sirva, é um volume de uma ótima coleção elaborada especialmente para crianças, e adultos que não têm, ainda, o hábito da leitura. É um livro pequeno, fino e composto de várias pequenas crônicas de quatro grandes. É bom porque os textos são deliciosamente simples, fáceis, completos, de excelente qualidade e rápidos, se lê cada texto em menos de 2 minutos (não dando tempo pra que o leitor, não habituado, se canse e desista). E depois os autores são Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga e Drummond. É ou não um bom começo? Eu tive certeza que sim.
À noite fui conversar com a "Juju", e com sua mãe, pra falar de minha decisão, e apresentar o livro escolhido. A conversa foi boa. Ambas concordaram, ela até parou de ver o que passava na tv pra ler o primeiro texto do livro. Ela, a "Ju", me pediu pra ler com ela, concordei. Achei que poderia ajudar no entendimento e interpretação. Foi legal. No entanto, so depois dessa primeira experiência foi que me aconteceu o mais importante. Eu me lembrei (ou será, me deu conta) de por que eu gosto tanto de ler. É que, lá no "Grupo Otalécio", ainda em meus primeiros passos com as letras e números, eu conheci sua pequena biblioteca. Era pequena mesmo, mesmo assim eles me permitiam levar alguns livros pra casa (afinal era minha escola). Isso foi importante, mas o que realmente me fez gostar de ler foi outro coisa.
Minha mãe era (ainda é) quase analfabeta. Ela não escreve nada, além do próprio nome, e lê com dificuldade. Não teve oportunidades na infância vivida na roça. So depois, de muito tempo (e também na "minha escola") foi que se aventurou num tal "Mobral" (alguém se lembra?). Mas mesmo sendo assim, minha mãe, descobriu comigo a "minha" biblioteca. É que certa vez, quando fui procurar um dicionário para descobrir o que uma palavra queria dizer, eu encontrei uns livrinhos com pequenas histórias. Eram livros bastante coloridos, com muitas figuras e poucas letras, mas com estorinhas completas. Me interessei por um e a "moça" me deixou levar pra ler em casa. Levei, li e mostrei pra minha mãe. Ela percebeu que eu gostei, e leu também. Daí pra frente nos tornamos, quem sabe, os maiores usuários daquela pequena biblioteca. Isso mesmo, nos tornamos. É que minha sempre me pedia pra levar uns livros pra ela ler, pois ela tinha gostado muito das estórias. Eram aventuras de gigantes, de garotos com objetos mágicos, de insetos inteligentes. Coisas assim. E eu sempre levava, pra ela, e pra mim. Líamos juntos, comentávamos sobre a aventura. As enormes figuras coloridas me ajudavam o montar a cena, o que tornava a aventura muito mais interessante, me fazendo, não so entender leitura, mas gostar de ler. E foi assim por um bom tempo. Minha mãe gostando de ler os livros que eu lia.
Eu não fazia idéia de onde isso me levaria, mas o fato é que em sua simplicidade, minha mãe foi quem mais me incentivou a gostar de ler. E ela não fez isso com um decreto, como eu estou fazendo com a Juliana. Ela nunca me forçou a ler nada. Ela gostava. E ao me pedir pra levar livrinhos pra ela, me fazia ter contato com eles. Não sei se ela tinha a noção do trabalho que fazia, nem se tinha, deliberadamente, a intenção, mas ela me mostrou o prazer da boa leitura. A dona "Felisba" não me ensinou a ler, ela própria não sabe. O que ela me ensinou foi muito mais importante. Ela me ensinou o prazer. E fez isso demonstrando gostar. Hoje não sei se ela realmente gostava, ou se era a forma dela ser pedagógica. Mas sei que funcionou.
Com o tempo as grandes figuras foram se tornando desnecessárias. Minha capacidade de abstração logo amadureceu, graças ao grande auxílio das enormes figuras coloridas. E eu mudei de fase. Nas terceira e quarta séries eu já estava lendo Marco Rey. Depois a Coleção Vaga-lume. Nesse mesmo período o interesse de mamãe pelas estorinhas, mágicas e coloridas, esfriou um pouco, e ela passou a dedicar quase 100% de seu tempo de leitura a trechos da Bíblia. Com o tempo, e o avanço nas séries escolares, fui conhecendo coisas novas, como o escritor bendito/maldito Neimar de Barros, a cruel e dramática Adelaide Carraro, logo veio o contato com os primeiros clássicos, como José de Alencar. Com coisas estranhas como Erich Von Daniken, com suas naves e deuses ETs. E vi crescer o gosto pela poesia (que dona Felisbina chamava, e chama, apenas de verso). Mas agora eu já não tinha mais a companhia de mamãe nas leituras. O que lia era complicado demais pra ela. Mesmo assim sempre dava uma palavrinha de incentivo, discretamente simples. E, acho que ela sabia que a base que fincara era bastante sólida. Ainda passei por Paulo Coelho, me encantei com Umberto Eco, visitei a Grécia. Conheci vários deuses, chorei com tantas personagens, ri com várias outras. Aprendi, descobri, me achei. Cantei com os "Acalantos" e com certa "Moça que ria Muito". Enfim, estou crescendo. Hoje tem o Dan Brown, a preferência por Richard Bach, e o forte gosto pelas letras de Goiás.
E se hoje gosto muito de conversar com o escritor/amigo Martiniano, com Martinha e Toninho Gomes. Se aprecio uma boa e longa conversa, como diz a Alê, "do Egito" com Marcelão e Jô, e se sinto grande prazer com as filosofias etílicas (preferencialmente reverenciando um grande caju mergulhado numa cachaça de boa qualidade), com os amigos Ary, Demervas, Renas, Marelo e outros (precisamos ter mais desses momentos). Se gosto de, às vezes, registrar em textos, o que sinto e penso e, se me aventuro a acreditar que a forma que serei conhecido será como escritor. Isso se deve a tudo que já li, vida a fora. Mas se deve, principalmente, ao fato de mamãe ter sido como foi, e agido, comigo, como agiu. Não ao fato de ela ser uma "quase" analfabeta, mas à sua enorme simplicidade. Simplicidade construída com uma vida verdadeiramente simples. E por, nessa simplicidade, ela ter se submetido a, no tempo certo, gostar daquilo que eu precisava gostar. Pois, de alguma forma, e usando as prerrogativas que so as mães tem (e a dona "Felisba" é a maior de todas), saber o que eu precisava gostar pra ter uma vida boa.
Ainda acho que é um luxo iniciar no mundo da leitura com Drummond e com Sabino, mas lembra como comecei ma faz pensar que isso pode ser um luxo ineficaz. Se quero que a Juliana goste de ler, vou precisar rever meus atuais conceitos. Na verdade estou pensando que preciso fazer uma "reciclagem". Quem sabe um estágio com dona Felisbina, relendo juntos as velhas estórias coloridas, pra reaprender a simplicidade que a vida moderna se encarrega de nos tirar mas, que todos os pais (e todos educadores) deveriam saber manter. Na verdade acho que todo mundo deveria. E acho que se conseguíssemos o mundo seria muito mais bonito, mágico e colorido.
                                                                                                                                             Goiânia 29-01-2008
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PS. Hoje, (quinta-feira, 31-01-2008) o pesado silencio do "seu" Durvas (meu pai), e o teor de suas poucas perguntas, tentando entender tudo que se passa, tem um forte aspecto de profunda tristeza. No entanto contemplando, no conexto de sua história é, emocionalmente significativo e grandemente belo.

....Que nenhuma lição seja perdida...Amém...

“Naza”